Sobre “o analfabeto político”

O Analfabeto Político

O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.

O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais.

Bertolt Brecht

(1898-1956)

Discordo do final. Talvez para a época em que o texto foi escrito coubesse, mas hoje eu terminaria a frase em lacaio. A identificação dos que têm os lacaios no bolso consumiria muitas palavras, pela variedade de áreas que buscam e encontram lacaios. Hoje eles, os lacaios, se prestam a quaisquer negócios, com quaisquer pessoas.

Piores do que os analfabetos políticos são os analfabetos políticos manifestantes. Aqueles que participam de passeatas contra algo, sem saber quem ou o que esse algo é. Como os que batem latas, ou participam de panelaços, ou os que fazem passeatas festivas ou festivo-depredatórias. Quais as consequências destas manifestações todas? Ou a destruição de propriedades ou, como sempre, nada.

E os que defendem “a volta dos militares ao poder”. A volta pretendida pressupõe a forma com que os militares chegaram ao poder em agosto de 1964, pela força. E eles ficaram vinte anos no poder, tendo se associado com o pior da classe política da época na tentativa de se perpetuar. Como escreveu Vinicius, eterna enquanto durou, a democracia militar ou militarizada se esvaziou em si mesma e depois de vinte anos entregaram um país renovado (?) pelos lacaios que os serviram.

Nada contra militares. Em 1945 um militar, o General Eurico Gaspar Dutra, foi eleito para suceder ao ditador Getúlio Vargas, advogado, que pela força havia se mantido 15 anos no poder. E o General Dutra foi sucedido por Getúlio Vargas, agora eleito regularmente para a presidência. Ao final de seu mandato Getúlio Vargas suicidou-se e foi sucedido por seu vice, Café Filho, advogado, que governou sob ameaças de golpe. Juscelino Kubitschek, médico mineiro, também eleito pelo povo sucedeu a Café Filho. E Juscelino foi sucedido por Jânio Quadros, advogado, que derrotou nas urnas o Marechal Henrique Teixeira Lott. Jânio renunciou após sete meses de mandato, tomando posse João Goulart, advogado, e que em 1964 foi derrubado por golpe militar. E os militares reinaram durante 20 anos, até a eleição de Tancredo Neves em janeiro de 1985. Morto antes da posse, o seu vice, José Sarney governou como primeiro presidente civil após 1964, apesar de ter integrado o partido da situação durante a maior parte do governo de exceção (lacaio?). Militares no poder, se eleitos, sempre. Ditadores, militares ou não, nunca mais!

Além de analfabetos políticos, os defensores de ditaduras são, também, analfabetos em história. Ao que me consta, nenhuma ditadura recente resultou em algo diferente do que desastres. Durante a ditadura os desastres são causados pelo uso da força, pela tentativa indecente de impor sobre todos as crenças de alguns, os alguns no poder e seu bando de lacaios, por transformar opositores em assassinos como eles. Depois da queda, os desastres transparecem em economias emperradas e atrasadas, desenvolvimento social ridículo no período, lacaios em postos de decisão e, o pior de todos os desastres, a identificação de crimes contra opositores e destes contra os do poder e a exumação dos corpos dos mortos. Exemplos confirmados do século XX podem ser os ditadores europeus Stalin, Hitler, Salazar, Franco. Os africanos Idi Amim Dada em Uganda, Joseph Mobutu no Zaire, Kadafi na Líbia. Chega.

Aqueles que pediram “impeachment” da presidente do Brasil seriam o que, além de analfabetos políticos? Como é possível destituir algo que não existe? Eles não perceberam que a presidenta nada mais é, por responsabilidade própria, do que refém dos presidentes da Câmara e do Senado?

Ouve-se e lê-se por aqui e por ali, manifestações de saudades do antecessor da presidenta Dilma, Luís Inácio Lula da Silva. Estes saudosos seriam o que, além de analfabetos políticos? Se os propalados feitos do governo Lula são devidos a ele, então ele tinha controle sobre o que acontecia em seu governo. Assim, ele foi ao menos conivente com o mensalão, que comprou votos para o seu governo, e não mereceria continuar governando e não merece voltar a governar. Mas ele também poderia, como repetiu várias vezes, nada saber sobre o mensalão. Assim, não governava e nada mais seria do que um fantoche, não merecendo continuar à época ou voltar agora a governar.

Saúde e alegria a todos.

PS: Inseri na quarta-feira, 6.5, o post curto “O analfabeto Político”. Pretendi fazê-lo comentado, porém não foi possível e cortei os dois primeiros parágrafos aqui encontrados. Hoje, sem inspiração, dei uma lida nos temas pendentes e inseri as minhas observações a partir do excelente texto de Bertolt Brecht.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s