Esporte

Comecei a escrever este texto no dia 3 de maio. E resolvi parar. Não é bom escrever no calor da luta. Ainda mais que não sou repórter e também não sou comentarista esportivo e com isso posso escrever sem preocupação com imediatismos ou perda de atualidade. O tema de hoje é atual sempre.

Primeiro de maio de 2015, dia do trabalho, feriado. Alguns foram ver shows, ouvir discursos e comemorar “o seu dia”, outros foram aproveitar o feriado prolongado e ainda outros foram assistir ao Campeonato Mundial de Ginástica Artística no Ibirapuera. Dentre estes últimos estávamos eu, Alice, filha, neto, genro e seus familiares. Para lá fomos atraídos pela competição e também para ver, aplaudir e torcer por todos e, em especial, por um competidor da família.

A sexta-feira, 1, foi reservada para as eliminatórias. No sábado e no domingo aconteceram as competições finais.

Lá fomos nós, de automóvel. Por que não de transporte coletivo? O trecho São Caetano – Ginásio do Ibirapuera exigiria ônibus até a estação ferroviária da cidade, trem até a estação Tamanduateí, linha verde do metrô até a estação Brigadeiro, acredito que ônibus até o ginásio, também possível descer a Brigadeiro a pé. E depois voltar. E as ciclovias?

Na Av. Pedro Álvares Cabral uma placa indicava a Rua Manoel da Nóbrega como caminho para o ginásio. Seguindo a indicação não fiz o caminho de sempre, pela Rua Abílio Soares e depois pela Av. Marechal Estênio Albuquerque Lima. Meu objetivo era o estacionamento interno do complexo onde se encontra o Ginásio. Entrada do estacionamento pela Manoel da Nóbrega fechada. Não, não havia indicações da entrada. Depois de reclamar da desorganização de sempre, virei o carro e voltei. Entrei à esquerda na Marechal Estênio, fiz a conversão na Abílio Diniz e entrei no estacionamento. R$30,00 o dia. Vale, pela dor de cabeça que dá ter um carro roubado; nós tivemos. E deixar na rua significa pagar para o flanelinha, que exige receber adiantado e some ao início do evento.

Havíamos comprado cadeiras próximas da quadra. Entramos na fila às 9:10. Alguma coisa impedia a liberação da entrada. O que? Ninguém sabia. Impressas no ingresso um sem número de exigências de comprovações por parte do adquirente, nenhum compromisso do organizador. As comprovações não foram exigidas, alguém furou a fila curta e imóvel após mostrar uma carteira qualquer. Apresentei ao controlador as entradas do domingo, era sexta. Entramos, às 9:30.

Procuramos nossos lugares. As cadeiras estavam devidamente numeradas, porém alguém resolveu renumerá-las com uma etiqueta colada no encosto do banco. Evidente que o número fixado na cadeira por rebites era diferente da nova numeração. Bancos ocupados não permitiam a identificação da cadeira, pois a etiqueta da numeração válida era encoberta pelo ocupante. Achamos os lugares e sentamos, afinal. Levantamos em seguida para dar passagem ao vendedor de pipocas. Pagamos R$200,00 de ingresso para um evento esportivo e somos perturbados o tempo todo por vendedores de água, de sorvete, de pipoca, de sanduíches. Exceção da água, em garrafas plásticas fechadas e do sorvete, também em embalagens adequadas, a pipoca e o sanduíche são discutíveis. A pipoca vem lubrificada. De tanto óleo dá a impressão de ser pipoca frita. Os sanduiches com queijo e presunto são mal-encarados; em especial o presunto, que parece indagar sobre o nosso bom-senso em comê-lo.

Entre as diversas competições, um locutor estridente, ufanista e gritalhão nos infernizava a vida com bordões infantis como “este é o melhor país do muuuuuunnnnnnndooooooo”, auxiliado por caixas de som desreguladas, descontroladas, de má qualidade ou inadequadas à intensidade sonora a elas imposta. Vez por outra desfilavam pela quadra figuras obesas em terno preto, camisa branca e gravata. Agentes funerários? Não, a elite dirigente do esporte.

Depois de vários senta-levanta-senta, para facilitar a passagem dos vendedores, encerraram-se as competições do período da manhã. Vamos almoçar. Vamos primeiro encontrar onde! No complexo não é possível. Alguém conhecia uma lanchonete, não muito longe. Mas também não muito perto, na Rua Tutóia, em frente ao prédio da IBM, cerca de um quilômetro do Ginásio. Voltamos ao senta-levanta-senta até o final das eliminatórias, ao redor das 17:30. Por serem eliminatórias, não houve distribuição de medalhas.

Voltamos para as finais no domingo. Com medalhas e hinos. Como sou daqueles que enchem os olhos com lágrimas ao som do Hino Nacional, apesar de considera-lo longo e pomposo, fiquei ainda mais emocionado ao continuar cantando com todo o ginásio após o encerramento do acompanhamento musical com som horroroso. E tudo se repetiu em todas as medalhas de ouro do Brasil. Talvez eu esteja errado, mas meu sentimento era de um grupo grande de pessoas, talvez 8.000, para um máximo de 10.200, cantando o Hino Nacional com efetivo orgulho. Por que, então, somos tão desleixados com o nosso país na maioria das situações extra esporte? Por que não reagimos de forma séria aos desmandos dos desgovernos federal, estaduais e municipais? Por que reconduzimos mentirosos e desonestos aos cargos públicos? Por que acreditamos que após uma eleição o único evento político seguinte será a próxima eleição?

De volta ao Ginásio Geraldo José de Almeida, para encerrar. As colocações são definidas por notas atribuídas por juízes e divulgadas em telões. Os telões estavam presos a pedestais montados no corredor superior do ginásio. Os que estavam nos assentos mais baixos, de ingressos mais caros, tinham a visão dos telões parcialmente encobertas pelos assistentes postados nos assentos mais altos.

Em tempo. Há cerca de uma semana alguns atletas da ginástica artística foram punidos por racismo. A Confederação Brasileira de Ginástica (CBG) abriu inquérito (adoramos abrir inquéritos) para apuração dos fatos, apesar de os fatos terem sidos divulgados por um dos pretensos racistas em vídeo postado nas redes sociais. A divulgação em redes sociais demonstra sentimento de impunidade, ou estupidez, ou ambos.

Ficam algumas questões:

  • Tal fato jamais aconteceu antes? A divulgação em redes sociais acredito que não. As infantilidades e grosserias ouvidas, duvido.
  • Ninguém da CBG, dirigentes, técnicos, assistentes, médicos, terapeutas etc. presenciou tais fatos no passado? Duvido.
  • Por que nada foi feito para orientar os atletas sobre a inconveniência de tal comportamento e suas possíveis consequências?
  • Os atletas sabem o que significa a posição deles como representantes de um país dentro da elite de um esporte de minoria?

Alguns atletas, certamente sabem. O divulgador das grosserias nem faz ideia.

  • Quem irá se ocupar das falhas dos dirigentes? Espero que não seja um novo inquérito. E, por piedade, não uma CPI.

Saúde e alegria a todos

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