Reminiscências escolares

Este talvez seja o pior tema dentre todos os que alguém possa vir a escolher. A base do desenvolvimento de uma nação, o único recurso não perecível dos seres humanos, a alternativa de mudar para melhor a vida dos menos aquinhoados, se debate em meio a problemas que às vezes são cômicos, às vezes trágicos e na maioria dos casos, tragicômicos. Cômicos porque alguns confundem o significado da palavra educação, trágicos porque a sucessão de omissões e desentendimentos têm levado a maioria dos países a cometer imensas falhas na área. Como não é meu interesse discutir problemas dos outros, ficarei por aqui. Mas o que ocorre por aqui não é, pelo lido, ouvido e um pouco vivenciado, muito diferente do que ocorre lá fora.

Para aproveitar a minha memória, que em algum instante pode começar a falhar muito, voltarei ao ano de 1952 ou 1953 e usarei neste texto a minha vivência como referência.

Não havia pré-primário em escolas públicas do Ipiranga, ou algo semelhante. Meus pais, conscientes de que o conhecimento advindo da escola poderia abrir as portas que eles encontravam fechadas, concluíram que eu deveria frequentar o pré-primário, mesmo pago. E lá fui eu para uma escola de freiras, o Colégio Rainha dos Apóstolos. Odiei o rigor, a disciplina e os castigos a que éramos submetidos. Nada físico, mas ficar em pé olhando por um canto da sala durante uma aula era desagradável e não educativo para mim. Lembro-me até hoje do piso de tacos de madeira limpos, impecáveis, encerados e brilhantes, sobre o qual nos era permitido flutuar, não tocar.

A partir de então cursei os primeiros quatro anos do primário em escolas públicas. Os dois primeiros anos no Grupo Escolar José Bonifácio, à Rua Agostinho Gomes, próximo à Rua Tabor; os dois finais, após mudarmos de casa, no Grupo Escolar Dr. Murtinho Nobre, na rua Ouvidor Portugal, Vila Monumento. Na década de 1950, não havia vagas suficientes na escola pública, para onde todos desejavam ir dada a qualidade do aprendizado por ela oferecida. Também nesta época o poder público, que eu normalmente chamo de poder incompetente, decidiu pela construção de muitas escolas primárias, como resposta ao aumento vertiginoso da população de São Paulo. Eles acertam algumas vezes.

Findo o primário, o acesso aos quatro anos seguintes era conseguido através da admissão ao Ginásio. Ou se cursava o “quinto ano do primário”, ou um curso rápido de admissão durante as férias de janeiro e fevereiro. Lograda a aprovação no curso rápido o aluno poderia ser matriculado no ginásio. As vagas nas escolas públicas eram insuficientes e em março a alternativa ficava por conta das escolas particulares. Cursei o primeiro ano do ginásio no Colégio Quarto Centenário, na avenida Lins de Vasconcelos, Cambuci. Os pais, porém, ficavam atentos na abertura de vagas em novos colégios estaduais ou nos períodos de inscrição para seleção de novos alunos para os já existentes. O ano seguinte me encontrou matriculado no Ginásio Municipal D. Pedro II, que cerca de um ano depois foi transferido para a Secretaria de Educação do Estado e transformou-se na nova sede do Colégio Estadual de São Paulo, primeiro Colégio paulista, fundado em 1894 e instalado então em um prédio antigo da rua Frederico Alvarenga, próximo ao Parque D. Pedro II. À época o Colégio Estadual de São Paulo ainda era referência em aprendizado no Estado de São Paulo. Tanto que cursei os três anos restantes de ginásio com um colega de classe trazido todos os dias às 7:00 por um imponente sedã Mercedes Benz preto, novo, cujo motorista o aguardava pacientemente até a saída, às 12:30 ou 13 horas, fato impensável a partir da década de 70.

Se faltavam ginásios e colégios, quanto mais universidades ou faculdades. O vestibular, implantado em 1911 (1), era, na década de 1960 um criador de casos. As escolas superiores ofereciam um número de vagas e aplicavam o exame vestibular. Os que obtivessem nas provas média igual ou superior a um mínimo teriam direito à matrícula. Os aprovados com média inferior ao último matriculado continuavam com direito à vaga, mas passavam a aguardar o próximo ano. A quantidade crescente de excedentes (2), como eram chamados os que haviam ganho o direito, mas não podiam exercê-lo, crescia e pressionava.

Ainda na década de 60, o conceito de vestibular foi alterado, apesar de nada ter mudado, solução típica brasileira. A mudança eliminou os excedentes e o seu poder de pressão. O direito de ingresso nas escolas superiores passou a se restringir aos que preenchessem as vagas, pouco interessando a nota máxima ou mínima alcançada. Antes uma média quatro eliminava; a partir de então a média passou classificatória, não mais seletiva. Fosse ela quatro ou oito ou meio, não interessava mais; interessava e interessa até hoje, apenas a posição da média no intervalo de vagas. Se a média meio estiver no intervalo de cem vagas disponíveis, o candidato terá direito à matrícula, caso contrário não terá qualquer direito.

Até esta época vivia-se ainda o período de ditadura do professor. A escola pública era o exemplo de uma brincadeira de crianças chamada “siga o seu mestre”, isto é, faça o que o professor mandou e não ouse contestar. Ou você demonstra conhecimento quando eu, professor, requisitá-lo, ou você é incompetente! Ou você aceita o que eu mando, ou você será penalizado. Pouco importa se a exigência é ou não arbitrária e insensata.

PS: Paro por aqui, pois não pretendo ultrapassar novamente a casa das mil palavras. Continuo no próximo domingo.

Saúde e alegria a todos

2 comentários sobre “Reminiscências escolares

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s