As cores do conhecimento

Este talvez seja o pior tema dentre todos os que alguém possa vir a escolher. A base do desenvolvimento de uma nação, o único recurso não perecível dos seres humanos, a alternativa de mudar para melhor a vida dos menos aquinhoados, se debate em meio a problemas que às vezes são cômicos, às vezes trágicos, na maioria das vezes tragicômicos.

A publicação de 31.5.15, Reminiscências escolares, parou ao final da década de 1960, após expor as dificuldades de crianças e adolescentes da época cursarem escolas públicas, referências de qualidade de ensino e aprendizado da época. Expos ainda a alteração de conceito, de seletivo para classificatório, praticada no sistema de acesso a cursos superiores (1) e (2).

Se a alteração no vestibular foi boa ou ruim, não me parece ser o caso. Todo projeto é bom e continuará bom se a sua execução for boa, como no post do dia 3.6.15. Ele foi bom por acabar com a quantidade crescente de excedentes. Em associação com o aumento no número de escolas públicas e privadas, ele foi bom por permitir o acesso à escola superior de pessoas que, antes, lá não teriam condições de chegar; eu inclusive. Mas um projeto só é bom se a execução for boa. E na boa execução de projetos educacionais devem estar definidas claramente formas de divulgação, acompanhamento, avaliação, correções de rumo etc. E isto não foi feito.

Em seguida à mudança no vestibular e ao aumento do número de escolas para os hoje chamados ciclos fundamental e médio, aumentou o número de escolas superiores particulares, em porcentagem significativamente superior ao aumento das escolas superiores públicas. Com isso aumentou a demanda por professores. O período compreendido aproximadamente entre 1975 e 1985 revelou-se péssimo para a economia brasileira. Os salários foram achatados. O poder público investia na construção de escolas, esquecendo-se que para aprender basta vontade e condições mínimas de saúde por parte do aluno e vontade e competência por parte do professor. O achatamento salarial provocou a desmoralização do ensino público e a perda de professores competentes, seja por aposentadoria seja por desistência da atividade. A reposição não se revelou adequada e o ensino privado passou a ocupar o lugar de referência antes ocupado pela escola pública, com ou sem merecimento. Deixou-se de falar nos Colégios Estaduais Caetano de Campos ou de São Paulo ou Firmino de Proença e passou-se a falar em Colégio Bandeirantes, Colégio Objetivo e outros.

Usando a velha técnica do autoelogio, o poder público estadual passou a alardear a qualidade das suas escolas. E a reprovação dos alunos crescia. A solução foi a típica, começou-se a discutir os efeitos psicológicos da reprovação sobre os reprovados. E a conclusão foi óbvia: péssimos efeitos. Então devemos fazer algo a respeito, concluíram; e algo foi feito.

Foi feita uma análise profunda das causas da reprovação maciça e os problemas identificados foram atacados para com isso retornar-se ao nível de qualidade anterior. Quase. Foi criada a progressão continuada. Reprovação cria problemas psicológicos? Está reprovada a reprovação!

Alguém pensou que a função da escola não é aplicar provas ou avaliar, como preferem alguns, porém contribuir para o crescimento das pessoas, seus alunos, através do conhecimento. Espero que sim. Alguém considerou tal possibilidade? Acredito que não.

À mesma época, talvez por falta do que fazer, alguém ligado à área de educação em São Paulo, depois de nada pensar, concluiu pela inadequação das Escolas Técnicas, outrora também referências no ensino e aprendizado técnico. Por que fechá-las? Na minha opinião para acabar de vez com qualquer referência pública estadual de qualidade na educação de nível médio.

Ainda à mesma época, apareciam e se disseminavam os computadores pessoais. E eles se tornaram a grande solução; para jogos cada vez mais sofisticados. Cada vez mais interessava e interessa menos o conhecimento e mais a avaliação, a nota, mágica, mística, implacável, senhora absoluta das verdades do conhecimento. E, com a ajuda dos computadores e de suas fiéis assessoras, as impressoras, a divulgação das avaliações, a maior das contribuições das escolas para a sociedade, ou uma das maiores, passou a ser feita colorida Notas acima da mínima passaram a ser divulgadas na cor azul; abaixo da média na cor vermelha. Com a certeza de que nota alta em avaliação é igual a conhecimento e nota baixa é desconhecimento, nada mais interessa que não a nota. Práticas escolares se propagam, avançam com o avanço dos alunos de um ciclo para o outro. E já há vários anos ouve-se de familiares e alunos dos ciclos fundamental, médio e superior a associação entre as duas cores e o conhecimento.

A publicação anterior, Reminiscências escolares, parou ao final da década de 1960, encarrada com a frase seguinte. Até esta época vivia-se ainda o período de ditadura do professor. A escola pública era o exemplo de uma brincadeira de crianças chamada “siga o seu mestre”, isto é, faça o que o professor mandou e não ouse contestar. Ou você demonstra conhecimento quando eu, professor, requisitá-lo, ou você é incompetente! Ou você aceita o que eu mando, ou você será penalizado. Pouco importa se a exigência é ou não arbitrária e insensata.

Hoje, o professor ditador desapareceu, mas o vácuo deixado por ele não foi preenchido. Se no passado o professor tudo sabia e tudo mandava, hoje ninguém sabe o que fazer. Hoje já se discute e pratica o fim da progressão continuada. O que não foi pensado e planejado, não deu certo. Os colégios técnicos passaram a funcionar como complementação do ciclo médio convencional e fala-se em voltar ao modelo do passado, com os alunos cursando simultaneamente a parte científico/humana e a técnica. O que não foi pensado e planejado, não deu certo aqui também. Porém a prática da tentativa e erro na área do aprendizado não se reduz. Ainda cresce o número de pessoas bem-intencionadas ou não, que apoiadas no próprio desconhecimento inventam rodas de muitos lados, conhecidas por muitos de há muito e já por estes abandonadas por ineficientes.

Mas, algo irá restar ao fim desta fase confusa, desordenada, desorientada e perdulária pela qual passa a estrutura de ensino e aprendizado entre nós.

O conhecimento é AZUL. O desconhecimento é VERMELHO.

(1) http://vestibular.brasilescola.com/fuvest/o-inicio-dos-vestibulares-no-brasil.htm

(2) http://www.scielo.br/pdf/er/n51/n51a09.pdf

 Saúde e alegria a todos

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