Brincando de elevador

Meu pedido de perdão pelo desaparecimento e por não postar o prometido “Em Machu Pichu”. Não tenho tido tempo para me dedicar a quase nada que não seja trabalho. Em breve ele virá.

Tenho a impressão que os mentores da política econômica brasileira não tiveram infância. Eles adoram brincar de iô-iô. Ruim é que quando se brinca de sobe e desce com políticas econômicas, o iô-iô é o povo; nós.

O presidente Juscelino Kubitschek construiu Brasília e com isso apresentou e implantou a inflação no país. De lá, 1955-1960, para cá, o país sobreviveu a vários planos econômicos que não deram certo. Todos menos um, o plano Real, contra o qual a oposição da época se posicionou contrária e do qual a situação de então se aproveitou para eleger Fernando Henrique Cardoso como presidente, entre outras eleições vencidas desde 1994. Entre 1995 e 2015 já se vão vinte anos em que tivemos alguns problemas econômicos mundiais ou locais e que levaram a abalos significativos. Um grande abalo local aconteceu quando da eleição do presidente Luís Inácio Lula da Silva. Havia uma expectativa, inclusive entre pessoas consideradas inteligentes, de que o novo dirigente e seu partido iriam implantar o comunismo imediatamente após a posse. A economia balançou, o câmbio disparou e nada aconteceu. A recuperação da crise foi rápida, pois em pouco tempo ficou claro que a economia dos pretensos comunistas seria a mesma dos diabólicos neoliberais recém apeados do poder; ou seriam os diabólicos comunistas e os pretensos neoliberais. Ninguém desconfiou, apesar do mensalão, ou não quis desconfiar, que o comunismo neoliberal tinha objetivos individuais maiores.

Em 2007, após o escândalo mundial da farra imobiliária provocada por bancos americanos e europeus, o mundo voltou a ter problemas econômicos. Os Estados Unidos levaram alguns anos para se recuperar, a Grécia continua batendo cabeça; o Reino Unido se recuperou; a Espanha continua com mais de 20% de desempregados. A Alemanha carregou a Europa nas costas, também se aproveitando para inserir (impor?) seus interesses econômicos em toda a comunidade.

O Brasil pouco sofreu, pois exportava cada vez mais “commodities” para um recém obtido parceiro econômico, a China, comunista política e liberal economicamente, neste caso apenas com seus próprios interesses. Desde 1500, o Brasil apoia a sua economia em “commodities”, ou riquezas minerais e agrícolas. Exporta navios com soja, minério de ferro etc. para, com os recursos auferidos, comprar barcos a remo com produtos industrializados. Em 2007 a economia chinesa crescia a níveis elevados, sempre acima dos 5% a 7% ao ano e demandava cada vez mais “commodities”. E a crise mundial foi chamada pelos expoentes do governo federal brasileiro de “marolinha”, em comparação com o tsunami que devassava parte do hemisfério norte. Durante o governo Lula foi possível elevar um grande número de pessoas da classe social D para a classe C. Impressiona-me a capacidade do ser humano em se catalogar e catalogar objetos, coisas, animais, tudo.

Paralelamente aos bons ventos econômicos, gerados por depredação de patrimônio, a gastança fazia com que as receitas ficassem sempre abaixo das despesas. Despesas muitas vezes consequentes a investimentos sem sentido, ou abandonados pelo caminho, ou atrasados. Exemplos? A transposição do Rio São Francisco, a ser inaugurada em 2010; verbo errado; que deveria ter sido inaugurada em 2010 e está prometida para mais ou menos 2017; aposto em mais do que em menos.

Mais um exemplo. A rodovia Interoceânica foi construída pelo Brasil e deve ligar portos do sul do Peru ao porto de Santos, via Rio Branco, no Acre (1) (2). O trecho peruano é muito bom, segundo brasileiros que encontrei em Machu-Pichu e lá chegaram pela referida rodovia, partindo de Rondônia. Eles disseram também que boa parte dos trechos brasileiros estão muito ruins (3). A sua construção objetivou permitir o escoamento da produção do norte do Brasil por um porto mais próximo e de mais fácil acesso. A maior altitude alcançada pela rodovia atinge 4725 m em Santa Rosa, no Peru. Os brasileiros de Rondônia disseram que não adianta pisar no acelerado, falta ar para o motor dos veículos nestas altitudes, além de as pessoas terem problemas pela mesma razão. E, por esta razão, poucos caminhões circulam pela dita rodovia. Quem será que lucrou com isso? De um lado a Odebrecht construindo, do outro o governo federal brasileiro participando majoritariamente da contratação, desde 2000 (4) (5). Figura abaixo (6).Featured image

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Se os nossos governantes gastassem menos, restringindo-se ao arrecadado no dia-a-dia e se endividassem com projetos de retorno seguro, como educação decente, tecnologia, ferrovias, rodovias, transporte público nas metrópoles, saneamento básico etc. em seu próprio país ao invés de investir nos vizinhos o que falta por aqui, talvez os “inevitáveis ajustes econômicos” pudessem ser menos constantes.

Ontem vi pela primeira vez na TV o culpado pela incompetência que desgoverna o Brasil e o município de São Paulo. Ele fala muito, culpa o mundo pelos problemas econômicos brasileiros e encerra dizendo com toda empáfia “que o Brasil voltará a crescer”. Poucas coisas são mais desprezíveis que o óbvio empavonado.

(1) http://www.odebrechtonline.com.br/materias/00601-00700/673/

(2) http://www.canalrural.com.br/noticias/agricultura/rodovia-interoceanica-permitira-aumento-exportacao-produtos-agronegocio-51211

(3) http://www.ac24horas.com/2015/04/12/estrada-do-pacifico-e-a-integracao-que-nao-veio/

(4) https://pt.wikipedia.org/wiki/Estrada_do_Pac%C3%ADfico

(5) https://pt.wikipedia.org/wiki/Iniciativa_para_a_Integra%C3%A7%C3%A3o_da_Infraestrutura_Regional_Sul-Americana

(6) https://www.google.com.br/search?q=in%C3%ADcio+da+constru%C3%A7%C3%A3o+da+rodovia+interoce%C3%A2nica&espv=2&biw=1680&bih=935&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved=0CAYQ_AUoAWoVChMItd_B3KbAxwIVhFg-Ch2_fQEJ&dpr=1#tbm=isch&q=maior+altitude+da+rodovia+interoce%C3%A2nica&imgrc=tFcIhVU0PnfWkM%3A

Saúde e alegria a todos

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