Administradores

Após serem expulsos do paraíso, Adão e Eva tiveram de se virar para ganhar a vida. A felicidade de ter tudo à mão, no melhor estilo Ilha de Vera Cruz, onde em se plantando tudo dá, como algum tempo depois escreveu Pero Vaz de Caminha, acabara. Ao cruzar o portal de saída do paraíso eles encontraram duas enxadas feitas com cabos e lâminas de madeira. Surpresos com aquelas duas coisas desconhecidas, eles ouviram uma voz grave, tranquila, bondosa, pausada e esclarecedora: Ao trabalho, tontos!

E foram lavrar a terra. Seus descendentes continuaram lavrando a terra, pescando e caçando para se alimentar. E foram se reproduzindo em larga escala.

Os séculos se passavam e pouco mudava. Os poucos nobres mandavam, os muitos pobres obedeciam e trabalhavam para os nobres. E foram se reproduzindo, os pobres mais que os nobres.

A sociedade sofisticou-se, alguns optaram por trocar a insegurança da vida no campo pela segurança oferecida por uma fortificação, ou burgo. Os burgos se tornaram a moradia dos nobres e dos burgueses, moradores dos burgos, que trabalhavam para os nobres, para a manutenção da cidadela e para a produção de “bens de consumo”. Tais bens eram produzidos para suprir a demanda por artigos de uso comum, tanto para si próprios como para os demais burgueses e os nobres. Estes artesãos produziam móveis, alimentos, sapatos, instalavam equipamentos etc.

Os séculos se passavam e pouco mudava. Os poucos nobres mandavam, os muitos pobres obedeciam e trabalhavam para os nobres. E continuaram se reproduzindo, os pobres mais que os nobres.

O conhecimento foi se ampliando em velocidade menor do que a reprodução das pessoas, porém as doenças e epidemias cuidavam para que a população não crescesse de forma descontrolada. Os burgos desapareceram, pois não mais ofereciam segurança contra as novas armas criadas pelo conhecimento crescente.

Os séculos se passavam e as coisas mudavam. Os nobres mandavam, os plebeus obedeciam e trabalhavam para os nobres. E continuaram se reproduzindo, os pobres mais que os nobres. E a produção não conseguia suprir a demanda daquela população crescente das cidades.

Certo dia um dos burgueses percebeu que as coisas poderiam e precisariam ser diferentes. Os trabalhadores trabalhavam, a colheita era feita, os produtos eram fabricados, os serviços eram prestados, mas tudo poderia ser mais rápido e eficiente; tudo precisava ser mais rápido e eficiente. Ele sentiu que a organização das atividades era ruim ou inexistente, a produção era pequena e o número de produtos insuficientes para a demanda crescente. Faltava quantidade e qualidade naquilo que era oferecido para os interessados. Simplificando, falou ele para a plateia formada por nobres e alguns plebeus, alguém precisa se responsabilizar pela organização do processo produtivo. E, pensou ele, aquele que se responsabilizar pelo processo produtivo não precisará trabalhar pesado. Mas, afinal, como seria chamado aquele que trabalharia em um moinho sem ser moleiro? E o que trabalharia em uma fábrica de sapatos, mas não seria sapateiro? Ou o que trabalharia em minas, mas não seria mineiro? E o que trabalharia na confecção de móveis e não seria carpinteiro ou marceneiro?

E o administrador se fez!

Conclui-se que: Administrador é aquele que trabalha na organização de algo que ele não sabe o que é ou Administrador é a profissão de quem trabalha, mas não produz.

As empresas familiares, onde o patriarca trabalhava e administrava e os demais obedeciam e trabalhavam, cresceram e se tornaram sociedades anônimas. Ao crescer produziam mais e necessitavam de mais trabalhadores, que criavam a necessidade de mais administradores. E o número de improdutivos crescia.

E o gerente se fez! E o diretor se fez! E o subgerente! E o presidente! E o superintendente! E…. !

E se fez o burocrata! E o mundo, aterrorizado pelos burocratas, jamais voltou a ser o mesmo.

Os administradores multiplicaram-se pelas empresas. Alguns, de maior visão ou maior ambição ou maior capacidade de organização ou maior arrojo ou maior nível de bajulação, progrediram até que, de repente, havia um número maior de não produtivos do que produtivos. E um guru qualquer da administração escreveu um livro tecendo loas à própria genialidade e defendendo a redução dos níveis de gerência. Com isso, também administradores perderam seus empregos.

E o downsizing se fez!

Há uma gama variada de administradores. Por conhecerem técnicas de administração, ou não, ao iniciar o trabalho em alguma empresa os administradores não sabem o que irão administrar, mas sabem que irão trabalhar lado a lado com seres humanos. Como seres humanos, alguns têm facilidade de liderar, outros não; alguns têm interesse em aprender, outros não. Alguns se sentem felizes apenas em ser administradores, e não administram, somente são felizes. Outros não são do ramo, isto é, não sabem administrar, mas têm muitas ideias, boas até, mas põem tudo a perder ao tentar implantá-las.

Os que sabem administrar não atuam na administração pública, ou ao passar para a administração pública tornam-se incompetentes instantaneamente. Os que não sabem administrar atuam na administração pública, ou não; neste caso levam as empresas rapidamente a problemas sérios.

E o caos se faz!

Há os que sabem cuidar da própria carreira. Estes são os melhores, talvez os únicos bons administradores, não de empresas, mas de suas carreiras. São aqueles que, espertos, ganham algum nome e passam a pular de galho em galho. Ficam algum tempo em uma empresa, implantam mudanças e, antes que os efeitos das mudanças apareçam, trocam de galho. Se a implantação feita se revela interessante, ele a iniciou, se não der certo, “eles” se perderam no desenvolvimento.

E há os competentes, óbvio. Mas estes não têm graça.

Saúde e alegria a todos.

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