Administradores – corolário 1

Todas as colônias ou ex-colônias criam piadas sobre os seus colonizadores, e vice-versa. Dizem que aos nossos Manuel ou Joaquim portugueses, correspondem em Portugal a um brasileiro de nome Arlindo. Como eu sou brasileiro, lá vai.

Era uma vez Manuel, empresário português da área de transportes que, lá pelo ano 15 a.C., insatisfeito com o resultado de seu negócio, resolveu transferir-se para a Galileia. Ao lá chegar instalou a sua “Companhia Lusitana de Transportes” e prosperou. Diz-se que a “Companhia Lusitana de Transportes” foi o embrião da Lusitana, empresa de mudanças brasileira; mas isto é uma outra história.

Satisfeito com a transferência e o crescimento da empresa, resolveu procurar orientação profissional especializada, pois tudo o que fizera, o fizera por instinto. Manuel passou a participar ativamente de cursos, whorkshops, palestras e outros mecanismos que, acreditava ele, acelerariam o crescimento de sua empresa de transportes em lombo de burros.

Certa vez recebeu pela Internet um convite instigante, que o convidava a participar de um workshop com um grande guru da administração. Este guru, Zaq Valdi, havia presidido uma grande empresa norte-americana, a montadora JEME, recém falida. Como a JEME falira pouco depois da saída de Zaq, os seus agentes propagavam que o sucessor de Zaq havia sido incompetente para implantar corretamente o seu legado na JEME.

Manuel inscreveu-se, pagou as taxas devidas e aguardou ansioso o dia de beber na fonte da sabedoria administrativa de Zaq Valdi.

E Zaq ultrapassou as expectativas dos presentes. Afirmou que uma empresa, pouco importava o seu porte, era como um corpo vivo. Enfático, berrou que se um órgão não funciona bem, o corpo vivo padece e pode ir à morte. E foi aplaudido efusivamente. Mostrou que uma empresa pode ter os seus custos reduzidos em todas as áreas sem sofrer quaisquer prejuízos, porque toda empresa tem “muita gordura para queimar”. Aplausos entusiasmados se repetiram. Após exaustivas duas horas de palestra pela manhã, duas horas de almoço de trabalho com Zaq e duas horas de palestra à tarde, todos retornaram às suas empresas em tempo de iniciar a transformação para melhor, a partir das propostas contidas no Manual Zaq de Administração Empresarial, best-seller universal.

Manuel exultava. A transferência de Portugal para a Galileia havia se evidenciado correta. E feita a partir de decisões não fundamentadas, apenas instintivas. Agora, com apoio de especialista, a CLT iria crescer ainda mais.

Zaq havia dito que, se tudo está bem, pode-se cobrar um pouco mais dos trabalhadores. Os seus trabalhadores eram os burros e seus tocadores. Dos burros reduziria a alimentação, dos tocadores iria reduzir o auxílio sandália à metade, mas manteria o salário intacto. E ainda podia elevar um pouco a carga transportada pelos burros.

Aplicadas e acompanhadas segundo o Manual Zaq de Administração Empresarial, as mudanças levaram à demissão de poucos tocadores. Os recém contratados recebiam a parcela reduzida do auxílio e nada tinham do que reclamar e os que ficaram deixaram de reclamar. E nenhum problema havia ocorrido com os burros. Tudo estava bem novamente e o lucro aumentara.

Zaq havia dito que, se tudo está bem, pode-se cobrar um pouco mais dos trabalhadores. Dos burros reduziria mais um pouco da alimentação e aumentaria mais um pouco a carga transportada. Dos tocadores iria reduzir o auxílio sandália à metade, chegando a um quarto do original, mas manteria o salário intacto.

Aplicadas e acompanhadas segundo o manual Zaq de Administração Empresarial, as mudanças levaram à demissão de poucos tocadores. Os recém contratados recebiam a parcela reduzida do auxílio e nada tinham do que reclamar e os que ficaram deixaram de reclamar. E nenhum problema havia ocorrido com os burros, a menos do aumento de tempo nas entregas. O efeito deste  aumento foi eliminado com um pequeno aumento do frete, justificado pelo aumento no câmbio do dólar. Tudo estava bem novamente e o lucro voltara a aumentar.

Zaq havia dito que, se tudo está bem, pode-se cobrar um pouco mais dos trabalhadores. Dos burros reduziria mais um pouco da alimentação e aumentaria mais um pouco a carga transportada. Dos tocadores iria reduzir o auxílio sandália à metade, chegando a um oitavo do original, mas manteria o salário intacto.

O procedimento que havia dado certo anteriormente por mais de uma vez voltou a ser aplicado; alimentação reduzida e carga elevada para os burros, redução pela metade do auxílio sandália para os tocadores e pequena elevação do frete devido ao aumento do câmbio do dólar.

Certo dia tudo aconteceu de uma vez: os burros morreram, os tocadores ficaram desempregados e Manuel faliu.

Manuel, após palestra de um novo guru da administração, crítico das ideias administrativas de Zaq, imigrou para a Coreia do Norte com o objetivo de ali instalar uma rede de escolas de inglês.

Zaq? Com os bônus auferidos em sua fase de CEO, os direitos de publicação do Manual Zaq e as taxas das palestras, Zaq vive hoje, milionário, em uma ilha nas Bahamas. Aluguel? A ilha é dele.

O novo guru? Mora em ilha própria nas Bahamas e visita o seu vizinho e amigo Zaq semanalmente, para tocar ideias sobre administração empresarial.

A JEME? A JEME recebeu investimentos imensos do governo federal e se recuperou.

Saúde e alegria a todos.

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