Era uma vez

Quando, depois de três tentativas frustradas, o Brasil foi descoberto, foi também fundada uma empresa familiar peculiar. A maioria dos componentes da família que constituiu a empresa não tinha qualquer laço de sangue. Ao ser indagado sobre essa excentricidade, o guru que a criou, mas que dela diz não fazer parte, explicou que não seria possível mudar o mundo repetindo fórmulas antigas e desgastadas. Uma outra peculiaridade da família, que chamaremos de Família com efe maiúsculo a partir de agora, era a sua possível volatilidade. Os irmãos poderiam ir e vir. Os que fossem deixariam de fazer parte da Família, os que viessem passariam a fazer parte dela, pelo menos até irem. Se fossem e voltassem, tornariam a fazer parte da Família. Com tal flexibilidade, o número de componentes da Família não poderia ser fixo e não o é. Dentro da linha de raciocínio do guru, que agora passará a ser chamado de Guru, com gê maiúsculo, quanto maior o número de membros da Família, melhor seria ou será ou é.

Enquanto comandou a Família, apesar de não fazer parte dela, o Guru se permitiu conhecer o mundo, encantar governantes deslumbrados, dar palpite em tudo, discutir os inconvenientes de o mundo não ser plano e afirmar que o Etanol brasileiro seria a solução de combustível líquido para o mundo para, seis meses depois, abandoná-lo e passar a investir no petróleo do pré-sal, solução de combustível líquido para o mundo. Com o pré-sal, asseverou o Guru, o Brasil passará a fazer parte da OPEP. Todo desperdício era permitido, a economia mundial florescia, arrastada pela China. O Brasil exportava minério de ferro e outros insumos perecíveis e também produtos agrícolas e desperdiçava o auferido com as vendas. O reinado do Guru era uma festa. E a oposição …. Qual oposição? O tempo passou e o reinado, apesar de ter sido duplicado, chegava ao fim.

Havia a necessidade de ser encontrado um patriarca; afinal Família sem patriarca não é Família. E o Guru, que não fazia parte da Família, meditou, meditou, meditou muito até encontrar a pessoa adequada. Seria uma matriarca, pois não é possível mudar o mundo repetindo fórmulas antigas e desgastadas. Na visão aquilina do Guru, a matriarca, que agora passará a ser chamada de Matriarca, com eme maiúsculo, não seria uma matriarca qualquer, seria uma Matriarca, com eme maiúsculo e características patriarcais de telenovela: dura, implacável, arguta, séria. Competente?

E a Matriarca ungida pelo Guru foi ungida pelo povo rainha por quatro anos. Como um patriarca de novela, a Matriarca reinou com mão de ferro. Mandou, desmandou, brigou, maltratou. Cercou-se dos melhores membros da Família, pelo menos assim propunha o Guru, mas não conseguiu mais do que errar mais do que acertar. Continuou o projeto do Guru, dentro do princípio “aquele que melhor engana o povo melhor se dá na política”. Mas, em contrapartida ao Guru, a Matriarca deu o azar de reinar durante o período de vagas magras na economia mundial. A gastança desenfreada, coberta com os dólares chineses da importação de commodities, precisava parar, porque a demanda chinesa enfraquecia, como a sua economia. Mas, como as modas demoram a chegar ao Brasil, apesar da Internet, ainda dava para aplicar o princípio do Guru.

Aproximava-se o momento da nova eleição para rei, ou rainha, por quatro anos. E a Matriarca queria continuar reinando. Ou o Guru queria vê-la continuar reinando. Ou o partido da Matriarca e também do Guru queriam vê-la continuar reinando. A Família e o Guru, que não faz parte da Família, queriam manter a confusão por mais quatro anos para então apresentar-se, apenas o Guru, que não faz parte da Família, como salvador da pátria. Ao mesmo tempo a gastança continuava a grassar pelo reino. E as encomendas da China caiam. E o preço das commodities caiam. A eleição se aproximava, assim como a economia afundava. Ajudada pela incompetência da oposição, a Matriarca é reeleita para mais quatro anos de reinado. Na semana seguinte à eleição a Família se coloca em movimento para levar à nação a grande novidade, recém descoberta há mais de ano. A economia vai mal e a culpa é deles. A Matriarca, num arroubo de inacreditável honestidade parcial afirma “Eu subestimei a situação econômica mundial”. A culpa era do mundo, que deixou de subsidiar a bagunça conveniente. “Eles nos traíram”.

Quem são “eles”? Eles são todos aqueles que torcem pelo pior para o país, não aqueles que fazem o pior para o país. Como encontrar a “eles”? “Eles” são todos aqueles que não fazem parte da Família.

Paro por aqui, o que aconteceu em 2015 fica para depois.

Saúde e alegria a todos

 

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