Brasil ou brasileiros

Muitos dizem não mais aguentar o Brasil. Este país não tem jeito. Este país é corrupto. Este país é desonesto. Este país é …. E pode-se substituir as reticências por qualquer expressão de desagrado, ou de desilusão ou de enfado.

Às vezes me pergunto se o desencanto é mesmo com o país. Ou se o desencanto pode ser ou faz sentido ser com o país. Se retirarmos todas as pessoas de um país qualquer, restarão apenas os animais, as plantas e as construções. Se desembarcarmos em uma das muitas ilhas desabitadas que existem pelos mares, desembarcaremos no paraíso. Desembarcaremos mesmo no paraíso?

Ali não encontraremos seres humanos ou suas construções, mas abundarão animais e plantas. Algumas espécies de animais por uma ou outra razão subjugaram outras. Algumas espécies de plantas se impuseram sobre outras. Os algozes estarão bem, os subjugados, não. Pela ótica dos subjugados a ilha desencanta, desilude, mas eles não a deixam por alguma razão e precisam aceitar o jugo imposto pelos algozes. Neste caso o problema é a falta de escolha ou alternativa para o subjugado. Uma espécie animal não consegue deixar um lugar para buscar viver melhor em outro. Esta mesma espécie não tem outro recurso para reagir ao jugo dos algozes senão a força. Mas a sua condição de subjugada indica estar a força do outro lado.

Não me parece que o problema do Brasil seja o Brasil. Apesar de muitos repetirem à exaustão que o brasileiro é correto e que o problema está nos políticos, é muito difícil para mim concordar com a afirmativa. Ninguém nasce eleito, cresce eleito, cursa escolas eleito e, em um determinado momento, toma posse do cargo para o qual nasceu eleito. A posse é consequente a uma eleição, onde um determinado número de pessoas optou por alguém, em detrimento de outro ou outros. O contra-argumento imediato ressalta serem as eleições, ou os votos, comprados de alguma forma. Para qualquer ato corrupto há ao menos dois atores, o corrupto e o corruptor. Se o pagamento acontece em moeda corrente de um ou de outro país, em promessas de emprego, ajudas várias e outras formas mais, alguém prometeu e alguém acatou. Se a promessa foi ou não cumprida é irrelevante, alguém ofereceu e alguém aceitou; a prática desonesta se consumou. Tal prática desonesta não acontece entre os animais e as plantas. O ser humano, chamado de racional, tem escolhas. Ele consegue ponderar sobre o que está sendo feito em um ato de venda, de voto ou de bananas. Ele pode aceitar ou rejeitar propostas. Jamais alguém pagará no Brasil 2 dólares por uma banana, como acontece em alguns países, porém muitos vendem o seu voto por promessas de emprego. Não um emprego qualquer, mas um emprego púbico, porque pode-se ganhar sem comparecer ao trabalho.

Os mesmos que inculpam políticos, hoje todos, investem contra a educação. Muitos não conseguem ou não querem perceber que a palavra educação é mais abrangente do que o seu hipotético sinônimo. Educação não é sinônimo de escola e vice-versa. Ou, para os que consideram escola sinônimo de educação, deve haver duas escolas. As pessoas são educadas em suas casas, por suas famílias, para as relações interpessoais. Na escola do lar, se assim o preferirem. O conhecimento livresco é apresentado nas escolas pelos professores. Apresentado, não ensinado. Talvez os professores dos primeiros cursos infantis possam ser chamados de educadores. A partir do curso básico tal expressão, educador, torna-se mais sem sentido quanto maior a idade dos estudantes e mais independentes eles forem. O uso da palavra educador para professores universitários é típica de um modismo que infelizmente não seguiu a regra dos modismos; não desapareceu rápido.

Quando a família falha na educação, escola alguma consegue consertar o estrago produzido. E a principal forma de educação na família, e não só nela, é a educação pelo exemplo. Filhos de pais fumantes serão fumantes. Quase sempre, por sorte, quase. Famílias desestruturadas geram familiares desestruturados; quase sempre. Para sair da desestruturação vivenciada por toda vida o esforço será imenso e intenso. Poucos conseguem.

Países desestruturados geram sociedades desestruturadas sempre, sem quase. E retornamos assim ao título: Brasil ou brasileiros?

Toda sociedade é reflexo dos agentes sociais que nela atuam. Se uma pessoa qualquer barbariza no trânsito com um decalque “Eu apoio a operação lava-jato”, como se vê pelas ruas, esta pessoa é hipócrita e aproveitadora, isto é, nefasta. Se alguém abre a janela de seu veículo e por ela lança latas vazias ou papel ou qualquer outro objeto e depois se apresenta como defensora do meio ambiente, este alguém é hipócrita e aproveitador, isto é, nefasto. Se alguém varre a calçada de sua casa com água, fazendo da mangueira uma vassoura de líquido e se justifica com o argumento de que “todos fazem isso”, este alguém é ridículo. Quantas vezes você, morador do Brasil, já testemunhou tais fatos, ou fatos semelhantes? Se você cruza, convive ou trabalha com pessoas com as características analisadas por Luis Felipe Pondé, acredito que concordará com a minha conclusão.

Brasil ou brasileiros? Eu já me decidi; nada contra o Brasil.

 

Saúde e alegria a todos

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