Os covardes

De há muito que, ao ser indagado sobre o responsável por alguma falha, eu respondo que a falha foi de todos e o mais importante ao se detectar uma falha é identificar o que a provocou e não quem a provocou. A busca por responsáveis visa, na maioria dos casos, a sua punição e, se as ações reparadoras se restringirem à punição, a falha se repetirá, provocada ou não pelo responsável pela falha anterior. Identificada a ação que provocou a falha, basta proceder às correções necessárias para impedir que o “o que” se repita e, assim, a falha não mais se repetirá.

Ao mesmo tempo devo lembrar uma frase citada muitas vezes por meu pai. “Errar é humano, persistir é burrice”. O dito popular é um pouco diferente, “Errar é humano, perdoar é divino. Apenas perdoar ou chamar de burro o responsável pelo erro pode não impedir a sua repetição. No segundo caso pode até estimular a repetição do erro. Talvez o mais correto devesse ser “Errar é humano, orientar é divino”.

Aos covardes; quem são eles? Podemos consultar um dicionário e lá encontraremos a definição correta. E, dela é possível inclusive escrever a versão correspondente do Dicionário Prático Brasileiro. Mas o objetivo de momento não é esse e sim usar a versão de minha avó para a expressão “os covardes”.

Quando minha avó materna, com quem tive muito mais contato do que com minha avó paterna, protagonizava algo que não chegava a bom termo, ela afirmava serem “os covardes” os responsáveis. Quem eram, quem foram, onde estavam “os covardes”, ninguém jamais soube. E a forma de encontrar um culpado para responsabilizar pela falha me parece bastante elegante. Um ser ou seres indefinidos são os responsáveis pelo mal feito. Quem? Os covardes.

A mesma elegância não encontramos em políticos. Para eles é fundamental nomear alguém, da oposição sempre. Se da oposição presente ou passada, se o alguém está vivo ou morto, pouco interessa.

As quatro referências ao final (1), (2), (3) e (4) foram obtidas na edição digital da Folha de São Paulo de 2.1.16, sábado. Há muitas mais, porém não é minha intenção transcrever a edição toda. E eu teria encontrado um número elevado de títulos de notícias e artigos horríveis envolvendo a política brasileira em cada uma das edições anteriores e certamente as encontrarei nas dos próximos meses.

(1) O Brasil deixou de interessar às empresas multinacionais devido à situação econômica atual.

(2) A revista The Economist prevê 2016 desastroso para a economia brasileira.

(3) Um senador da república por São Paulo, josé serra, desrespeitou a ministra da agricultura, kátia abreu, chamando-a de namoradeira. A ministra, em defesa de sua honra, arremessou o vinho contido na sua taça contra o senador.

(4) O ex-presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, afirmou com relação à prisão por corrupção do senador da república pelo Mato Grosso do Sul, delcídio do amaral, que “Se houve algo, durante o meu governo, foi conduta imprópria do Delcidio, não corrupção organizada, como agora. Dele nada se sabia, tanto que em 2001 foi aceito pelo PT, e se elegeu Senador, depois foi candidato a Governador do Mato Grosso do Sul. Derrotado pelo PSDB, virou líder da Dilma, sem que suspeitas fossem levantadas. Espero que as investigações se aprofundem e que se comprovado o fato, todos sejam punidos”.

Os problemas evidenciados pelos títulos se repetem em ciclos plurianuais quando econômicos. O desrespeito entre pessoas que deveriam ser respeitáveis se repete com frequências em Hertz (Hz) (1/segundo). Problemas relacionados a corrupção em qualquer nível devem ocorrer com frequências em kiloHertz (kHz) (1000/segundo) ou maiores (5). Tais problemas foram e continuam sendo provocados por erros cometidos no passado distante ou recente, ou, como sempre, erros passados repetidos no presente. Dentre estes erros, a falta de interesse em impedi-los em alguns casos ou dificultá-los nos casos de impedimento impossível. Outra possibilidade seria a expectativa de muitos, incluído aqui o povo de, com alguma sorte, cruzar com alguma forma “conveniente” de aumento de patrimônio.

Considerada a frequência de repetição de tais eventos, a solução proposta como definitiva apresentada ao início desta publicação não foi aplicada. Ou a ação que provocou a falha não foi identificada; ou não se procedeu às correções necessárias. Isto significa que o princípio divino não foi aplicado, “Errar é humano, orientar é divino” e os outros princípios podem ter sido aplicados, “Errar é humano, perdoar é divino” e “Errar é humano, persistir é burrice”. Acredito que o corolário que mais se aplica aos fatos é “Errar é humano, se omitir é desonesto”.

Resta, então identificar e punir os culpados, já que as ações ser repetem sem parar. Os culpados, porém, não podem mais ser “os covardes”.

(1) http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2016/01/1725087-brasil-vira-ovelha-negra-de-empresas-multinacionais.shtml

(2) http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2015/12/1724425-capa-da-economist-preve-2016-desastroso-para-o-brasil-e-culpa-dilma.shtml

(3) http://www1.folha.uol.com.br/colunas/monicabergamo/2015/12/1718160-dilma-aplaude-katia-abreu-por-ter-jogado-vinho-na-cara-de-jose-serra.shtml

(4) http://www1.folha.uol.com.br/poder/2015/12/1716908-se-houve-algo-nao-foi-corrupcao-organizada-como-agora-diz-fhc.shtml

(5) https://pt.wikipedia.org/wiki/Hertz

Saúde e alegria a todos

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