Lugar-comum 1

Por mais absurdo que me parece, continuo acreditando que o ser humano foi criado, segundo alguns, ou desenvolveu-se, segundo outros, para algo maior do que o óbvio. Afirmei que a minha crença pode parecer absurda por uma razão simples. Por falha minha de observação, ou por falha de muitos dos observados por mim, o mundo, não apenas o Brasil, transformou-se em uma imensa gaiola de obviedades. Em um momento onde as coisas mudam em velocidades vertiginosas e crescentes, a maioria permite que a mudem para o óbvio, ou criatividade zero. Melhor que óbvio acredito ser lugar-comum.

Por preferir a palavra lugar-comum, resolvi inseri-la no Dicionário Prático Brasileiro. Depois de tudo pronto concluí que deveria criar um Dicionário Prático Mundial e, talvez por preguiça, talvez por estar infectado pelo vírus da simplicidade, não da simploriedade, espero, desisti do DPM e passei para o Post.

Consultado o Dicionário Houaiss, (Editora Objetiva Ltda.), obtemos para lugar-comum: fonte geral de onde os oradores podem tirar argumentos e provas para qualquer assunto; conjunto de fontes hierarquicamente ordenadas e criticadas das quais se servem os teólogos para fundamentar os argumentos da doutrina católica; ideia, frase, dito, sem originalidade; banalidade, chavão; o que é do conhecimento de todos; coisa trivial. Consultados os sinônimos e variantes apresentados pelo mesmo Dicionário Houaiss temos para lugar-comum: banalidade, bordão, chapa, chavão, clichê, estereótipo, tópico, trivialidade, vulgaridade. Os significados não grifados são de uso específico, os demais significados são depreciativos. Lugares-comuns são depreciativos e deprimentes. Alguém consegue justificar a expressão intensamente repetida “a gente se fala”, e as suas derivações?

O sistema de controle de manada implantado no mundo ao início dos anos 70 desagradou e desagrada a mim que, gostando ou não, sou parte da manada. Comecei a me preocupar com isso quando do aparecimento da era DISCO na música. A era disco sucedeu a era dos protestos, oferecendo diversão a custo mental zero. Enquanto as músicas de protesto e não necessariamente apenas as de protesto até os anos 60, início dos 70, apresentavam conteúdo em letra e música, as músicas da era disco apresentavam ritmo. Não que eu desgostasse ou desgoste delas, a mim desagrada a eterna falta de conteúdo. O ritmo pelo ritmo é bom de vez em quando e é péssimo sempre. Manter o cérebro vazio é recomendável de vez em quando; é péssimo sempre. Manter o cérebro ocupado é bom na maior parte do tempo, é péssimo sempre. Tomemos alguns exemplos.

Os jogadores de futebol descobriram o agradecimento a Deus, sempre ele, e quando vencem, perdem, marcam gol, impedem gol, a bola bate na trave, a bola entra no gol, enfim pouco importa o que aconteça, apontam os dedos para o céu e nas entrevistas, vazias em conteúdo, agradecem a Ele, como se Ele fosse torcedor do seu time e apenas do seu time. E quando em jogo empatado todos os gols são agradecidos a Ele. Isso significa que Ele não conseguiu se decidir por um lado e optou pelo empate? E quando um dos times vence e todos os gols foram agradecidos a Ele, significa que ele privilegiou um lado em detrimento de outro? Deus tomou partido! Por que, se ele é perfeito e todos nós somos seus filhos? A prática ganhou adeptos em outros esportes, o que é triste, e em outros continentes, o que evidencia o triste lugar-comum. Eles descobriram também as tatuagens e os brincos. Alguns já têm braços praticamente monocromáticos, negros, de tanta coisa lá desenhada. E o futuro já está bem encaminhado, basta assistir a algum dos jogos da Copa SP de futebol júnior.

Ainda no futebol, os goleadores são ótimos. Gol marcado distintivo beijado e, na semana seguinte, clube abandonado por mais dinheiro em algum canto do mundo. Amam a quem mais lhes pagam e pouco interessa se hoje jogam pelo Palmeiras e amanhã pelo Corinthians e na semana seguinte pelo São Paulo e depois pelo Santos. Pagou, levou. Tatuagens, brincos, entrevistas vazias, dedos para o céu, o de sempre. O lugar-comum de sempre.

Continua em 14.2.16

 

Saúde e alegria a todos

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