Lugar-comum 2

continuação de Lugar-comum 1

Os noticiários primam pelo lugar-comum da busca pela audiência, hoje violência, não pela informação. E como a população gosta de violência, o que se vê nos noticiários é apenas violência. Violência do homem contra o homem, da natureza contra o homem, do homem contra a natureza. E muitos programas dedicam-se unicamente à violência entre os irracionais, sejam estes animais ditos irracionais em sua batalha pela vida; sejam estes animais irracionais, ditos racionais, em sua batalha por dinheiro. Em filmes vê-se um homem armado com uma barra de aço, ou algo semelhante, desferir pancadas em um outro que, depois de chegar à beira da morte, se levanta e vence a batalha, em muitas das vezes tirando a vida do agressor com a sua própria arma. Alguns irracionais, porque não conseguem entender o sentido figurado da cena, presunçosamente apresentados como racionais, aplicam tais técnicas de autodefesa (?) para matar torcedores de times de futebol, em especial. Outros programas primam pelas cenas de sangue, como “os novos gladiadores” ou “os gladiadores modernos”, mais conhecidos como lutadores de MMA e uma outra sigla qualquer. Segundo os canais especializados nestas lutas, o esporte que mais cresce no mundo. Neste esporte (?) o lugar-comum para o lutador é a cara do adversário (a palavra rosto não se aplica) e para a assistência é o sangue. Ambos associados, cara ensanguentada, são oferecidos à assistência como um lugar-comum para mudar o lugar-comum do dia-a-dia e uma alternativa de reação violenta ao marasmo do seu dia-a-dia.

Desculpem-me a presunção de bancar o analista de comportamento, mas apenas consigo associar a onda de violência gratuita que grassa no mundo e em todas as áreas a uma reação irracional ao lugar-comum do dia-a-dia das pessoas.

Os políticos, sempre eles, amam o lugar-comum. O que os meus eleitores desejam? Guerra? Guerrearemos. Paz? Sempre foi o nosso objetivo, mesmo ao iniciarmos a guerra! Rompantes? Somos o maior sei lá o que do universo! Mentem para adoçar os ouvidos dos eleitores e receber a única coisa que lhes interessa, os doces votos. Eles conduziram o governo para uma situação difícil? Justificam os problemas pela conjuntura, nunca sendo eles os responsáveis e pedem a colaboração dos governados; o sacrifício do aumento dos impostos, a defesa da liberdade em guerras etc. E quando a situação está boa? Ora, eles preparam a situação ruim futura. Os menos ruins dentre os políticos, não os melhores, talvez por desagrado pessoal com o próprio comportamento público, alternam comportamentos sérios com eleitoreiros. No momento, Barack Obama talvez seja o melhor exemplo dentre todos. Nossa presidenta, Dilma, não sofre com o seu comportamento público. Acredito que ela tenta explicá-lo de vez em quando, mas ninguém consegue entender o que ela diz, ou pensa dizer, ou acredita dizer, ou. O último ou, desacompanhado e sem alternativas, é a melhor explicação para a presidenta.

O que os espertos fazem é dar às pessoas aquilo que consegue mantê-las desligadas da realidade e aparentemente elas agradecem, embevecidas. E manda lugar-comum.

A manada cresceu, de cerca de 4 bilhões de pessoas em 1970 para cerca de 7,2 bilhões em 2015 (1). Sabe-se que cerca de 75% da população mundial não tem acesso a drogas contra a dor (2), medicamentos de fácil acesso em certas regiões, o que revela a precariedade da vida destas pessoas. Sabe-se também que apenas cerca de 10% da população mundial tem acesso aos bens oferecidos à sociedade de consumo (3). Isto significa que apenas cerca de 10% da população mundial, algo como 400 milhões de adultos, têm acesso aos recursos de informação que poderiam formar e informar, mas ao invés disso, tentam controlar a todos e efetivamente controlam a muitos. Esses 400 milhões são hoje ou serão amanhã as pessoas que deverão mudar o mundo, ou tirá-lo do lugar-comum em que foi inserido. É possível viver em lugar-comum, aceitar viver no lugar-comum e identificar quão nefasto ele é?

 

(1) http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2011/10/111026_analise_populacao_ebc_rc.shtml

(2) http://www.rtp.pt/noticias/mundo/mais-de-75-da-populacao-mundial-nao-tem-acesso-a-drogas-contra-a-dor_n867083

(3) Design for the other 90% Simthsonian’s Cooper-Hewitt, National Design Museum, New York, 2007

 

Saúde e alegria a todos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s