O que é bom para … 2

O que é bom para um cidadão é bom para o país ou o que é bom para um país é bom para os seus cidadãos? A discussão foi iniciada na publicação O que é bom para …1, de 28.2.16.

A resposta a esta frase é, a meu ver, fundamental para países e seus cidadãos. A partir da resposta, simples, porque as duas alternativas possíveis são auto excludentes, pode-se identificar o relacionamento vigente em qualquer comunidade, de pequeno, médio ou grande porte.

Em uma pequena coletividade, uma família estruturada, por exemplo, torna-se fácil gerenciar a prática do bem individual e, por consequência, o coletivo. Pequenos ajustes levam à satisfação de todos, desde que haja um relacionamento aberto entre as partes. O bem individual pode se transformar no bem coletivo e, assim, todos estarão satisfeitos. Nestas condições torna-se desnecessária a presença de um único ser dominante, aquele que proferirá a palavra final; todos participarão das decisões em condições de igualdade e satisfação pessoal.

Em uma família parcial ou integralmente desestruturada, o ser dominante se torna necessário devido ao relacionamento inadequado entre as partes constituintes do grupo. O ser dominante, definido por usos e costumes ou predominância natural ou autoimposição, acabará se tornando despótico. A forma de uma família se desfazer do despotismo é pela separação das partes, o que pode acontecer por diversas formas. Os filhos podem se afastar da moradia comum para se afastar do despotismo. Os formadores da família se separam e os descentes, que normalmente acompanham a mãe, se tiverem sorte se livram do déspota, caso contrário, continuam convivendo com a déspota.

Pausa gramatical: Considerando-se o esforço desenvolvido pela nossa presidente para ser chamada de presidenta, não seria correto chamar o déspota de o déspoto? Afinal, direitos iguais devem ser direitos iguais.

Quando em um país o bom para um cidadão é bom para o país tem-se nada mais do que uma ditadura. Parece-me que, de todas as ditaduras que pelas mais diversas formas tentaram se eternizar no poder, nenhuma deu certo. Se verdadeira, tal constatação indica ser impossível a dominação despótica de um país por longo tempo, seja por um outro país, seja por um grupo específico de cidadãos do próprio local. Jamais existiram ditaduras boas, no sentido de terem sido implantadas e se imposto sem o uso de força. Quando se força alguns ou muitos a aceitar algo contra as suas convicções, planta-se as reações futuras. O uso da força para manutenção do poder cultiva as reações plantadas quando do uso da força para a da tomada do poder. A consequência, em um futuro mais ou menos distante, será a reação à dominação.

Dominar um país é muito mais difícil do que dominar uma família. Para a família basta um déspota.

Nas situações de democracia a escolha entre as alternativas se complica. Quando se consegue identificar a fonte do despotismo a identificação do mal é facilitada. Em uma democracia, ou pretensa democracia, o despotismo centralizado cria, inevitavelmente, o despotismo difuso. Ao invés de apenas um déspota identificado e fonte maior dos conceitos despóticos, o despotismo difuso é viabilizado por centenas ou milhares de chefetes de alguma coisa, pequenos déspotas que se espelham no déspota maior para usar de seu poder mínimo e localizado para implantar conceitos, regras e exigências que lhes bem aprouverem. Por esta razão, democracias despóticas existem, obrigatoriamente, em sociedades desorganizadas. A desorganização cria, alimenta e eterniza os chefetes.

A única forma de se sobreviver sob despotismo é gastar tempo e esforço para conseguir contornar as dificuldades do dia-a-dia. O trabalho para se sobreviver sob despotismo difuso implantado há muito tempo é imenso. O sem número de pequenos déspotas exige dos seus milhares ou milhões de vítimas ações específicas para cada caso. Se os desmandos arbitrários estão encadeados, então, a chance de se conseguir ultrapassá-los demanda ajuda externa. O despotismo difuso é o pai da prestação de serviços não produtivos. Cansadas de investir mais tempo em buscar meios de contornar os obstáculos do que no seu próprio trabalho, produtivo ou não, as vítimas deixam de confiar em governos e chefes e passam a recorrer a pessoas cujas habilidades se restringem a conhecer os meandros das dificuldades criadas pelos chefetes. O entulho burocrático viabiliza, assim, o aparecimento de profissões especializadas em coisa alguma, ou melhor, em contornar armadilhas burocráticas.

Povos oprimidos, acovardados, desprezados e desrespeitados em seus direitos são a fonte de vida para o despotismo centralizado. Povos submetidos a tais condições são individualistas. Povos individualistas representam a fonte de vida do despotismo difuso. O despotismo difuso é filho do centralizado e não vive sem ele.

Continua

 

Saúde e alegria a todos

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