Diálogos 6

Em Mudanças, de 27.12.15, apresentei as razões que me levaram aos Diálogos. Em Diálogos 1 – preâmbulo, de 10.1.16, iniciei a publicação dos diálogos escritos a partir de 29/3/82.

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P1. … Era a confirmação da superioridade europeia sobre a incivilidade latino-americana. A arrogância e a prepotência inglesa, agravada pela inexpressividade do país nos últimos decênios atingiu limites extremos.

 P2. E você viu o que aconteceu dois dias depois: Um foguetinho francês de 60 mil dólares afundou um navio inglês de 250 milhões de dólares. E foram ouvidas na TV alemã (Heute e Tageschau de 5.5.1982) expressões do tipo:

– É, quem diria que eles conseguiriam acertar um navio dos nossos.

– Enquanto os franceses ficarem vendendo armas aos fascistas isso continuará acontecendo.

– Devemos bombardear os aeroportos no continente.

P1. Pois é, faltou apenas respeito para com os argentinos ao início da desavença e agora, premidos pelos fatos, a arrogância não permite aos ingleses e europeus aceitar que, de um lado o tempo dos Hamilton e Nelson já se foi e, de outro, que o inimigo não é tão incapaz quanto o imaginado.

P2. E ser convencido a ceder da forma como os ingleses estão sendo é bem mais doloroso ainda, não?

P1. E como! Pelo que parece a briguinha com a Argentina será o sepultamento definitivo do leão inglês, já desdentado, esclerosado e reumático, mas ainda pretensioso.

P2. E, no que me diz respeito, já não sem tempo. Como os ingleses acreditam que ainda devem manter os argentinos sob pressão, é capaz de perderem um dos dois porta-aviões já vendidos. O que seria mais uma contribuição dos conservadores para o afundamento da ilha na expressividade merecida.

P1. Mas hoje os argentinos capitularam, o que prova a superioridade inglesa.

P2. Talvez, mas o preço pago pela Inglaterra é alto demais. Eles foram para resolver o problema em horas e sem derramamento de sangue inglês ou perda de material bélico e acabaram perdendo navios modernos e muitos soldados. Apesar da capitulação argentina, a desmoralização inglesa é patente, ainda mais somada à falha de planejamento tático, colocando a Marinha como principal arma de ataque e se esquecendo da Aviação. E mais, a demora em levar a Argentina à capitulação depois do desembarque nas Ilhas, apesar da superioridade em equipamento, coloca em dúvida a capacidade inglesa no campo da OTAN. E, acima de tudo, para quem estava com graves problemas econômicos, o que acontecerá agora? Eles necessitam renovar a frota para cumprir o tratado da OTAN, necessitam arcar com os altos custos da guerra e manter o abastecimento das Ilhas.

P1. Mesmo assim foi uma vitória.

P2. Eu diria que os ingleses podem afirmar terem ganho a guerra da Malvinas-Falklands, como dizem que ganharam a II Guerra Mundial. Como a II Grande Guerra foi o início do fim para a Inglaterra, pode ser que as Falklands seja o final do fim. Pelo menos a estação intermediária já é.

 

Observações:

  1. A Guerra das Malvinas ou Falklands War se desenvolveu entre 2 de abril e 14 de junho de 1982 e envolvia a soberania sobre as Ilhas Malvinas ou Falklands, Geórgia do Sul e Sandwich do Sul. O arquipélago é reivindicado desde 1883 pela Argentina, ano em que a Inglaterra tomou posse dele. Saldo final da guerra: 649 soldados argentinos, 255 britânicos e 3 civis mortos (1).
  2. Em 1983 completaram-se 50 anos da chegada dos nazistas ao poder na Alemanha. A TV alemã apresentou durante todo o ano programas relativos ao nazismo e à II Guerra Mundial, em uma frequência de alguns por semana. Tive a oportunidade de assistir a quase todos. A partir de então tenho lido muito sobre a história dos países europeus mais envolvidos na II Guerra, Alemanha e Grã-Bretanha. Devo, a partir do conhecimento adquirido após a redação das palavras encontradas no texto acima, corrigi-las. Os ingleses não ganharam a II Guerra Mundial. Eles impediram, sozinhos, a vitória do nazismo, algo muito mais significativo. O conhecimento adquirido por mim sobre Alemanha e Grã-Bretanha levam-me a respeitá-los muito mais hoje do que o fazia ao início dos anos 80.
  3. Inexpressivos eram os militares golpistas argentinos da época, que enviaram adolescentes mal equipados para serem massacrados nas Malvinas-Falklands. Talvez convencidos pela “vitória militar” obtida contra os seus compatriotas desarmados ou mal armados quando do golpe militar, resolveram eles, os golpistas, invadir um arquipélago sem defesa na esperança de não haver reação do governo inglês. Erraram também aí.

continua

(1) https://pt.wikipedia.org/wiki/Guerra_das_Malvinas

Nota: Em algumas frases são referenciadas situações políticas, trajes, comportamentos e posturas típicas da época em que os diálogos foram escritos, primeira metade da década de 1980. Algumas delas tornaram-se moda, como barba mal aparada, uso de óculos Ray-Ban, governantes incompetentes. Outras, como bons modismos, desapareceram com o passar do tempo ou passaram a ser aceitos devido às mudanças de costumes.

 

Saúde e alegria a todos

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