Eu só queria encher o copinho!

Há algo de errado comigo. Em condições normais cochilo em frente à TV depois de algum tempo tentando achar algo interessante. Nas condições atuais durmo pesado alguns segundos após sentar.

Devo fazer o exame de urina pós cirurgia, alguns dias após a retirada da sonda. As condições para exame são simples: duas horas sem urinar. Para crianças, adolescentes e adultos de todas as idades nenhum problema. Nenhum problema desde que não tenham menos de três anos ou tenham curtido sonda na bexiga. No segundo caso a bexiga trabalha sob fluxo contínuo; chegou passou. Retirada a sonda, a bexiga demora um pouco para entender que o fluxo não pode mais ser contínuo.

Planejo as ações com precisão. Devo sair de casa para o laboratório cerca de meia hora antes de completar as duas horas regulamentares. O trajeto até o laboratório demanda quinze minutos, mais quinze para fazer a ficha e mais uns cinco para ser chamado para a coleta. Perfeito!

Laboratório mais cheio do que o normal e os quinze minutos para fazer a ficha se alongam e as duas horas se completam. À época o meu recorde entre dois atendimentos subsequentes de chamados líquidos da natureza estava em uma hora e meia, sem stress, ou duas horas com sérias ameaças de vazamento. Ficha feita, aguardo o chamado, não o da natureza, mas para a coleta. O tempo passa, a natureza brada cada vez mais alto, e apenas eu a ouve. Volto à atendente e explico-lhe ter tirado a sonda há poucos dias etc. etc…. Ela liga para o setor de coleta e expõe o meu caso. O tempo passa e a natureza brada mais alto ainda. Finalmente chamam o meu nome. O último entre cerca de dez outros. Mau sinal. Subo dois lances de escada sem problemas. Em caso de vazamento eu estava com um absorvente poderoso. Uma simpática jovem, de cara amarrada e visível mau humor e uma segunda, sorridente, fazem o trabalho de coleta, na maioria de sangue. O meu é urina. A jovem sorridente está sempre ocupada, a simpática, entre um e outro atendimento, desloca-se pela sala a passos de tartaruga perneta. A natureza informa que haverá problemas. Dirijo-me à simpática e explico-lhe o meu caso. Depois de uma careta de reprovação ela procura a minha ficha, etiqueta o frasco e me indica o banheiro. Desloco-me lentamente para o banheiro. A natureza informa que os passos não podem ser largos. Entro, fecho a porta e retiro o calção branco, lembre-se do branco, que eu vestia. Ouço um grito: LIBERDADE. Na condição de controle zero, lavo o chão do banheiro, o calção, minhas pernas, a sandália, paredes, mas encho o frasco. Visto um novo absorvente, subo o calção cinza, fecho o frasco e saio, cuidando para não escorregar. Sinto as pernas grudentas. Não vejo a simpática, a quem deveria devolver o frasco. Sorte dela, pois talvez eu o devolvesse aberto e sobre a sua cabeça. Azar da sorridente. Entro no cubículo onde ela iria iniciar mais uma coleta de sangue e disparo: Apesar de ter avisado, vocês conseguiram que eu urinasse sobre mim e lavasse o chão do banheiro. A sua colega sumiu e eu preciso entregar este frasco a alguém para poder ir para casa tomar banho! A cliente olhou, a sorridente parou de sorrir e em segundos foi ao cubículo da simpática e voltou com o recibo. E eu só queria encher o copinho!

Sete dias depois da coleta; houve o carnaval entre coleta e resultado; confirmou-se infecção urinária, comum devido aos dias com sonda.

Dez dias de antibiótico e seis dias após a finalização de sua ingestão fui para um novo exame de urina.

Voltei ao laboratório do primeiro exame. Nesta altura já não mais usava o absorvente poderoso e conseguia controlar a urina por mais de duas horas. Mantive o planejamento como da primeira vez. Havia um número menor de pessoas no laboratório, informei à atendente de minha condição de recém operado, ela ligou para o pessoal da coleta e aguardei. A natureza estava tranquila. Chamaram umas dez pessoas para se dirigir à coleta no segundo andar e meu nome não foi citado. Lá vamos nós, de novo?! Segundos depois pedem para eu me dirigir ao primeiro andar. O frasco está etiquetado me esperando e me indicam o banheiro do andar. Enchi o copinho sem inundações.

Cinco dias depois, o resultado indica a presença de infecção com a mesma bactéria. Envio ao médico e ele me informa que o procedimento de praxe de realizar o antibiograma não foi feito. Devo repetir o exame, agora com pedido explícito de antibiograma. Ele sugere dois laboratórios de um mesmo grupo, que eu não havia procurado anteriormente apenas por comodidade e porque o anterior goza de bom nome. Ou gozava de bom nome, ao menos comigo.

Repito o planejamento, agora iniciando-o mais cedo por razões de distância. Acordei cedo, 5:00 da manhã. Havia dormido pouco e parecia que eu estava digerindo o boi, com chifre e tudo, que eu não havia comido às altas horas da noite anterior. Higiene pessoal, banho, frutas, pois o sabor de chifre queimado continuava na boca e estava pronto para encher o copinho, conforme o planejado. Última gota à 5:30, coleta às 7:30.

Olhei o relógio, cedo demais. Devo esperar para não chegar antes das portas se abrirem. Na TV o nada de sempre; séries óbvias, esporte em VT com futebol entre um time do Uzbequiristão do Norte ou de outro lugar e outro das Ilhas Fugir, com jogadores de terceira linha. Desligo e vou para o computador; sem vontade ou sem saber o que fazer, não por falta do que fazer, mas por falta de vontade de fazer. Há dias já havia voltado às condições de dormir pesado alguns segundos após sentar. Entre a indecisão de ver TV e ir ao computador, finalmente o relógio indica 6:45. Saio de casa com meia garrafinha de água. O trânsito não ajuda, seja por excesso de veículos, seja por falta de competência dos motoristas. Estaciono na porta do laboratório. Antes de sair do carro, chega-se a mim o manobrista e informa constrangido que a unidade estava sem sistema, a previsão de retorno era para as quatro horas da tarde e que eles estavam indicando a unidade do Metrô Carrão como alternativa. Metrô Carrão esquece, pensei eu, e engatei ré. Desisti. A natureza estava calma, mas já eram 7:45 e até eu chegar a algum lugar, poderia não dar tempo. Sai do carro entrei na unidade; ninguém, sejam funcionários, sejam clientes. Saí do banheiro. Três funcionárias a postos em frente aos monitores e dois clientes sentados. Perguntei se a previsão não era de retorno do sistema às quatro da tarde. Está lento, foi a resposta. Agora não adianta mais para mim, comentei. Afinal as duas horas sem urinar haviam se reduzido para dois minutos. Uma segunda atendente pergunta se eu havia comido algo, o que inviabilizaria muitos exames de sangue. Senti vontade de responder que sim, havia me dirigido ao banheiro para o café da manhã, mas apenas respondi que o exame era de urina. Saí e resolvi ir para a unidade de Santo André. Antes passei pelo trabalho, pois deveria fazer a coleta após as 9:45.

E lá vamos nós, com a ajuda do Waze. Chego ao Hospital Brasil às 9:30. Deixo o carro com os manobristas e me dirijo ao laboratório. Prédio anexo ao hospital, novo ou recém reformado. Entro, pego a senha preferencial e olho em volta. Umas setenta cadeiras na sala de espera, ocupadas; muitas pessoas em pé. Preferenciais não faltavam, distribuídos entre idosos, recém-nascidos e futuras mães. Nas condições da sala de espera, preferenciais ou não, o tempo de espera seria longo. Levanto a cabeça e leio: Sistema com lentidão. Retornei ao estacionamento e paguei R$15,00 por 15 minutos.

Ainda havia uma esperança em Santo André, na avenida D. Pedro II. Lá fui eu, orientado pelo Waze. É do mesmo grupo e o sistema talvez seja o mesmo. Desisti. Retornei ao trabalho em São Caetano.

E eu só queria encher o copinho!

Dia seguinte volto cedo ao primeiro posto. Estaciono, saio e pergunto ao manobrista se o sistema está operacional. Estava. Ficha, recebimento do recipiente, coleta e devolução; quinze minutos. Enchi o copinho! E não será a última vez.

 

Saúde e alegria a todos

3 comentários sobre “Eu só queria encher o copinho!

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