O futuro a Deus pertence 1

Escrito em 1981

Há muito tempo, em um lugar chamado Bral-Búrdia, perdido nos confins da Arábia, daí seu nome, entre as montanhas posteriormente conhecidas como Andes e a grande água, posteriormente conhecida como Oceano Atlântico, viviam povos nômades dispersos por um deserto de árvores e rios caudalosos.

Estes nômades formavam um grupo curioso de nômades. Enquanto os nômades de outros lugares viviam a andar sem se fixar em lugar algum, os nômades de Bral-Búrdia mantinham-se fixos sem se deslocar a lugar algum.

O fator geográfico, desertos verdes com rios caudalosos, aliado à peculiaridade do povo, nômades fixos, conferia ao lugar características únicas entre seus vizinhos. Os habitantes de Bral-Búrdia, chamados de ba-gunços, viviam contentes e produziam o suficiente, o suficiente para manter a taxa de natalidade de Bral-Búrdia como uma das mais altas entre seus vizinhos.

Certo dia as coisas mudaram. Bral-Búrdia foi descoberta. E as coisas deixaram de ser fáceis para os ba-gunços. Logo após o descobrimento chegaram os colonizadores, pessoas cujo único interesse era trazer aos ba-gunços uma cultura avançada e uma religião moderna, monoteísta, sem nada exigir em troca; nada além de tudo o que de bom e de melhor Bral-Búrdia pudesse ter.

Pouco tempo passou e os colonizadores constataram que os ba-gunços não eram muito chegados ao trabalho. Os compreensivos visitantes, que com o tempo passaram a ser conhecidos como visitantes permanentes, concluíram que, face à situação de momento e com os piedosos ensinamentos da religião moderna recém trazida, estava na hora de ensinar os ba-gunços a trabalhar, na porrada. Mantida a situação vigente, os ba-gunços não teriam chance de sobrevivência no mundo que os piedosos visitantes permanentes começavam a impor.

Aproveitando a quase conversão dos ba-gunços à religião moderna, tentou-se durante reuniões conjuntas convencer os ba-gunços que uma enxada na mão ajudava a abrir caminho para o paraíso. O sucesso da tentativa não foi estrondoso, longe disso. Os ba-gunços não conseguiam se convencer das vantagens de se trocar uma cadeira de balanço por uma enxada e, além disso argumentavam descaradamente: – Mim só quase convertido, essa de paraíso mim ainda não entende.

Piedosos, magnânimos, altruístas e interessados em ter empregados que trabalhassem em seu lugar e a custo zero, os visitantes, cada vez mais permanentes, conseguiram finalmente conscientizar os ba-gunços. Estes, de boa vontade e com os arcabuzes às suas costas, resolveram aplainar o caminho para o paraíso com a enxada oferecida pelos visitantes a ir para o inferno mais cedo. Séculos depois este pragmatismo permanece como uma das principais características dos habitantes da outrora Bral-Búrdia.

E assim foi feito. Mas por pouco tempo. Os visitantes permanentes, já quase convencidos de serem os verdadeiros donos da terra, perceberam que os ba-gunços não haviam mesmo nascido para o trabalho, situação que em algumas regiões da outrora Bral-Búrdia permanece até os nossos dias. Obrigados a trabalhar, morriam cedo, na boa vida viviam muito mais tempo. De uma forma ou de outra, não eram produtivos.

Os visitantes permanentes, já autodenominados bagunços, sem ífem para se diferenciarem dos invasores ba-gunços, resolveram importar mão de obra.

Nesta época já existiam alguns estudiosos interessados no que acontecia em Bral-Búrdia. Bral-Búrdia mesmo não tinha estudioso algum, situação que os órgãos públicos procuram manter até hoje. Cientistas e estudiosos de países distantes, alguns sem sequer saber escrever o próprio nome, viajavam para Bral-Búrdia com o objetivo de contribuir para o desenvolvimento da região, ampliar os seus próprios conhecimentos e as suas posses, situação que permanece até os nossos dias. Um desses estudiosos, vindo de uma região distante, apavorado com a incultura, barbárie e incivilização tanto dos invasores ba-gunços, quanto dos habitantes bagunços, jurou que voltaria imediatamente à sua terra, assim que se tornasse milionário. O sábio acrescentou estar ainda decepcionado com o céu noturno de Bral-Búrdia, com um número muito menor de estrelas a iluminar a noite bralburdiana, do que o que ocorria no hemisfério norte.

Outro estudioso, no considerado primeiro trabalho científico sério sobre Bral-Búrdia, escreveu: “É uma terra curiosa, a Bral-Búrdia. O deserto rico em rios caudalosos e vegetação exuberante, o povo nômade fixo desde o início dos tempos, os visitantes permanentes que tomaram o controle total da vida no país, tornam esta terra difícil de se entender. Mas, mesmo assim, devido à sua riqueza em matérias primas e facilidade de adaptação às sugestões impostas pelos bagunços aos ba-gunços e pelos estrangeiros aos bagunços, acredito ser este o país do futuro; frase ouvida até os nossos dias.

Importou-se a mão de obra necessária! Novamente a grandiosidade da religião (deturpada) se impôs.

Continua

 

Saúde e alegria a todos

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