O futuro a Deus pertence 2

Escrito em 1981

Importou-se a mão de obra necessária! Novamente a grandiosidade da religião (deturpada) se impôs.

Na procura por povos adeptos do trabalho estimulado, isto é, sem recompensa além de chão para dormir e lavagem para comer, encontrou-se os ideais. Negros, assemelhados a macacos, só poderiam ter sido criados por deus para servir aqueles que pensassem por eles. Importem-nos!

E assim se fez. Ao longo do tempo sequestrados na África chegavam mais e mais negros estimulados a trabalhar por livre escolha para os bagunços em troca de chão, sobras de comida e chicote.

A Bral-Búrdia, agora rebatizada de Bal-Gunça em homenagem aos bagunços; poucos entenderam a razão do uso do ífem se a homenagem era aos sem ífem; ia de vento em popa. De vez em quando grupos pequenos de ba-gunços, que já haviam perdido até a elevada taxa de natalidade, eram exterminados. Outras vezes importava-se enxadas sem cabo e sem lâminas. Outras vezes ainda eram comprados navios de guerra especiais para guardar as fronteiras de Bal-Gunça com os países andinos, onde não existia mar ou rios de fronteira. Desnecessário escrever que tais práticas permanecem até os nossos tempos.

Ventos fortes agitaram a Bal-Gunça. O filho do chefe dos bagunços liberta a Bal-Gunça dos visitantes permanentes. Todos ficaram maravilhados esquecendo-se serem os bagunços os próprios visitantes permanentes. O chefe dos bagunços havia aconselhado seu filho para que, em caso de independência iminente, fosse ele o libertador para evitar que “um aventureiro lançasse mão” de tal ação e do país. Aparentemente até hoje o conselho do chefe dos bagunços foi ouvido apenas por seu filho lá por 1820. Cansado dos aventureiros o filho do chefe dos bagunços abdicou do trono de Bal-Gunça após poucos anos e retornou à origem. Deixou seu filho, ainda criança, como sucessor. E Bal-Gunça continuou prosperando, apoiada em uma agricultura ajudada por muitas terras férteis e muitos negros chicoteados.

O alto custo de manutenção dos negros, cansados das reuniões chicoteadas, chão para dormir e restos para comer, transformou-os em seres humanos e eles foram libertos. Todos, ou quase todos, ficaram maravilhados. Muitos se esqueceram que os negros, livres de serem malcuidados pelos seus senhores, de repente passariam a cuidar de si e a continuar trabalhando para os antigos donos. Tal desinteresse por consequências de ações oficiais, ou não, permanece até os dias de hoje.

As coisas políticas não iam bem em Bal-Gunça, a quantidade de interesses em jogo e a quantidade de interessados em tantos e diversos interesses impedia qualquer entendimento; o que permanece até os nossos dias. Essa do neto do chefe dos visitantes permanentes, mesmo sendo filho do libertador, mandar no país, não fazia sentido. Apeie-se o homem do poder e que seja dado ao povo o direito de escolher todos os seus dirigentes.

E um soldado de nobre estirpe, monarquista convicto, sobe em seu cavalo e proclama a república. Consta que o objetivo era apenas pressionar o Imperador por interesses de amigos e seus próprios. Mas a ação não deu certo e a Bal-Gunça virou república. Seu primeiro presidente, um marechal monarquista. O povo, pela primeira vez lembrado para a escolha de seus dirigentes; e daí até nossos dias só lembrado nessa época; já apresentava um caráter e comportamento peculiar. Fazia o que bem entendia, por influência dos ba-gunços, preocupando-se apenas consigo mesmo, influência dos bagunços, e ia tocando a vida.

O povo de Bal-Gunça, os balbúrdios, era composto por várias camadas de habitantes, cada uma com origens diferentes. Os estrangeiros em extinção, outrora chamados de ba-gunços; os senhores da terra, legítimos e únicos habitantes do país desde tempos imemoriais, outrora bagunços, e os visitantes, homens e mulheres que, chegados há pouco, estavam conhecendo o país permanentemente. O termo visitante permanente havia sido abolido pelos senhores da terra por ser “historicamente incorreto”.

E o país ia seguindo em frente. Comprava-se o desnecessário, vendia-se navios de matéria prima para com o auferido adquirir cestas de produtos industrializados com a matéria prima vendida, incentivava-se a industrialização importando indústrias, investia-se em conhecimento copiando modelos externos, etc. etc.; e isto continua até os dias de hoje.

Pausa: Alguém pode estranhar a grafia variável do nome da terra sobre a qual escrevemos. Afinal escreve-se Bal-gunça ou Bral-Gunça, bagunços ou ba-gunços ou Bal-búrdia ou …? Irrelevante se com s ou com z. Em Bral-Gunca, o que vale é o som. Como se escreve é secundário. Se no futuro alguém irá entender os escritos, sabe-se lá o que é futuro. O futuro a Deus pertence, não?

Os governos sucediam-se tranquilamente. O povo, chamado a votar para escolher os seus governantes, os escolhia por períodos fixos de cinco anos. Antes do término do mandato e em nome do mesmo povo, agora não consultado, os governantes eram depostos.

 

Continua

Saúde e alegria a todos

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