O futuro a Deus pertence 3

Escrito em 1981

Antes do término do mandato e em nome do mesmo povo, agora não consultado, os governantes eram depostos.

E o país ia seguindo em frente. Comprava-se o que não se precisava, exportava-se a matéria prima para adquiri-la industrializada, incentivava-se a industrialização importando indústrias, investia-se em conhecimento copiando modelos externos, etc. etc.; e isto continua até os dias de hoje.

Além disso a industrialização começava a reduzir a produção agrícola. E Bral-Búrdia trocou de patamar, acreditavam muitos. Fabricamos veículos! Construímos uma nova capital no centro do país! Gritavam todos. A indústria automobilística bral-gunciana começa a ganhar vulto. O júbilo patriótico cresce.

Volkswagen, Ford, General Motors, Mercedez-Benz (Daimler-Benz) faziam os balbúrdios vibrar. E ninguém notou que os nomes das empresas nada tinham de bral-gunciano. Mas, bradavam os entusiastas, para que “inventar a roda” se já existem aqueles que têm experiência na fabricação de veículos? Vamos trazê-los para construir veículos para nós, com nossa mão-de-obra. E, mais uma vez recebemos ajuda externa, agora de empresas ao invés de pessoas, que como no passado interessavam-se em trazer aos balbúrdios uma cultura tecnológica avançada e conceitos modernos de produção, sem nada exigir em troca; nada além dos direitos dos projetos, royalties, enviados para a matriz e preços muito acima do cobrado para os mesmos veículos comercializados no exterior. O governo, sempre ávido por mais dinheiro, impôs taxações elevadíssimas sobre os veículos e manteve a extorsão nos preços de venda dos veículos.

A capital ficou pronta em tempo recorde, ou quase, e foi inaugurada como o novo orgulho dos balbúrdios. Na inauguração encerrava-se também o período de gestação do que viria a ser o melhor amigo dos senhores da terra, a INFLAÇÃO.

O povo, convocado às urnas elegeu presidente e vice com votações espantosas. Em uma ação de inteligência extrema, alguém havia feito ser aprovada a possibilidade de serem votados e eleitos presidente e vice de partidos antagônicos. E isto aconteceu. O presidente eleito prometeu um governo inovador, ágil e criativo. Agilmente usou a sua criatividade para inovar; oito meses depois da posse abandonava o cargo. Consta que o seu objetivo era de ser aclamado ditador, mas deu azar.

A época era ruim. Loquazes por natureza, os balbúrdios deliciavam-se com o poder do rádio e o poder emergente da TV. Quantas informações para se cacarejar a respeito! Todos falavam de tudo e de todos, principalmente os políticos.

O vice, chamado a não assumir a presidência, recusou. Depois de idas e vindas, tomou posse o vice-presidente, de tendências esquerdistas e contra a vontade dos anticomunistas. Talvez o vice tenha recebido tal caracterização, esquerdista, por ser canhoto ou algo semelhante. E a inflação crescia.

Os políticos manobraram. Tentaram, inventaram, mudaram a constituição, pariram o parlamentarismo, mudaram a constituição de novo, enterraram o parlamentarismo. Haja criatividade inútil. Não deu mais. Cerca de quatro anos depois das eleições e em nome do povo, mas sem consulta-lo, o presidente foi apeado do poder. O movimento que derrubou o presidente e instalou o os militares no poder por cerca de 20 anos foi chamado de “Revolução de 31 de março”. Consta que muitos a veem mais como uma revolução de primeiro de abril.

A explicação para a mudança era simples. Inflação alta, descontrole governamental, ameaça à segurança nacional, falta de planejamento etc. etc. Os novos comandantes do país reduziram a falação, reorientaram a máquina governamental, empreenderam o desenvolvimento, dizem. Poucos entenderam e vários insistiam em ser contra. Comunistas, desejavam lançar a Bal-gunça no caos e tomar o poder, instalar um governo de partido único, controlar os demais poderes, eliminar os opositores e implantar uma ditadura. Exatamente o que acabara de ser feito. Os opositores tomaram em armas e tentaram seguir o modelo cubano, quando um punhado de homens em um iate invadiram a ilha e tomaram o poder com a ajuda do povo, dizem.

Os novos donos do poder sentiram-se desafiados. Permitir a vitória dos revoltosos seria permitir banhar de sangue o deserto verde e líquido. E reagiram. Aparentemente os revoltosos desconheciam certas peculiaridades de Bal-Gunça e dos balbúrdios.. Bal-Gunça não era uma ilha, visto que o nome Ilha de Santa Cruz havia sido abandonado há séculos atrás, depois de os colonizadores terem pressentido que a área da então Bral-Búrdia era relativamente elevada. Eles também não deviam entender muito de logística e, principalmente, desconheciam o pragmatismo dos balbúrdios e também a peculiaridade de seu caráter. Estes, sob ameaça abriam mão de suas crenças e também faziam o que bem entendiam, preocupando-se apenas consigo mesmo, como outrora constatado pelos colonizadores (O futuro a Deus pertence 1).

Os revoltosos perderam, como era de se esperar, menos por eles.

Durante o combate à contrarrevolução os novos governantes fecharam todos os partidos, colocaram o legislativo e o judiciário a serviço do povo, representado por eles mesmos, perseguiram os que pensavam diferente, cassaram direitos políticos e canalizaram o banho de sangue para os esgotos, mantendo o deserto verde e líquido quase limpo. Tempos depois uniram-se em um partido fictício, mas real e de sigla ARENA, aos políticos mais desclassificados, os que abriam mão de suas convicções à primeira ameaça e implantaram a democracia ditatorial de quase partido único.

A Bral-Gunça progredia. Comprava-se o desnecessário, exportava-se a matéria prima para adquiri-la industrializada, incentivava-se a industrialização importando indústrias e exportando dividendos, investia-se em conhecimento copiando modelos externos, etc. etc.; o que se vivencia até hoje.

A Bral-Gunça progredia. Ninguém falava e tinha-se a impressão de que todos prestavam atenção. Ao que? Certas coisas não devem ser perguntadas.

Pausa: Alguém pode estranhar a grafia variável do nome da terra sobre a qual escrevemos. Afinal escreve-se Bal-gunça ou Bral-Gunça, bagunços ou ba-gunços ou Bal-búrdia ou …? Irrelevante se com s ou com z. Em Bral-Gunca, o que vale é o som. Como se escreve é secundário. Se no futuro alguém irá entender os escritos, sabe-se lá o que é futuro. O futuro a Deus pertence, não?

Milagre, milagre, a inflação foi reduzida a míseros 15% ao ano. Milagre apenas explicado pela capacidade dos senhores da terra ora no poder.

O mundo recebeu ventos terríveis. O preço do petróleo duplicou, triplicou, quadruplicou. Não, quintuplicou. Decuplicou e mais. De US$ 2,00 o barril passou para US$ 30,00. O milagre começou a provar que os ba-gunços do século XVI tinham razão em aceitar apenas a quase-conversão. Milagres não são fabricados; acontecem?

A inflação disparou. As pessoas voltaram a falar, falar, falar e ninguém a ouvir.

O planejamento governamental foi reduzido a tapar hoje os buracos de ontem e o povo, sempre ele, foi chamado a pagar as dívidas contraídas em seu nome, sem a sua consulta e que pouco reverteram a seu favor. A segurança nacional voltou a ser ameaçada, não mais pelos opositores internos ou por potências estrangeiras. A maior ameaça à segurança nacional tornou-se o próprio governo.

E agora?

O futuro a Deus pertence!

 

 

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O futuro a Deus pertence 4 deverá ser publicado em algum momento, com a atualização das condições de Bal-gunça para os dias atuais. Não deverá ser difícil, pois continuam se repetindo os problemas de sempre. E o final do novo texto já está escrito; será a repetição  do texto acima, a partir de “O planejamento …”.

Saúde e alegria a todos

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