Dear Mister President 2

Eu sei que não é proposital, mas no dia seguinte à triste sugestão para contratar técnicos formados no exterior, vossa excelência teve uma entrevista publicada na Folha de São Paulo (1) (2). Ou foi no mesmo dia?
Eu entendo que a vossa formação não é de negociador, diplomata ou assemelhados. Muito pelo contrário, a vossa formação é de bater o martelo e encerrar a conversa. Mas agora o senhor está na posição de líder do país. Goste ou não, aquele que precisa levantar a moral nacional. Não há outra maneia de sairmos do buraco.
Levantar a moral de um país cuja maioria dos cidadãos acreditou em alguém que se apresentou como o mais honesto dentre todos. E, como pretenso mais honesto de todos, os ludibriou até na indicação de sua sucessora. E eles a elegeram através dele, o mais honesto de todos, repetindo o que Paulo Maluf já havia feito quando da eleição de seu sucessor como prefeito de S. Paulo. Nem na sem vergonhice o mais honesto de todos foi original.
Tudo bem que o senhor entrou no vácuo e se elegeu vice. Mas, como já disseram outros, vice é nada, vice é vice. Bons tempos aqueles, não? Casa, comida, roupa lavada, viagens grátis e … mais nada! Sem a incompetência maliciosa à qual o seu partido se associou seriam oito anos numa boa.
Mas agora o senhor está na posição de líder do país. Aquele que precisa levantar a moral nacional. E ela está baixa mesmo. Nem o futebol nacional ajuda, apesar da nova troca de técnico. A coisa está tão ruim que a seleção faz com o seu técnico o oposto daquilo que o clube onde ela foi buscar o novo técnico faz com os seus. O Corinthians manteve os seus técnicos por muito tempo e muitos jogos, a seleção os troca a cada dois anos e uma dezena de jogos.
Mas agora o senhor está na posição de líder do país. Aquele que precisa levantar a moral nacional. E ela está baixa mesmo. A economia, que já gerou até milagres, também não ajuda. À época do mais honesto de todos ela até ajudou na eleição da sucessora dele, tendo permitido a ele, o mais honesto, dominar o tsunami internacional através do incentivo ao consumo. E a coisa foi tão bem feita que no Brasil o tsunami econômico virou marolinha. Talvez a marolinha tenha sido apenas o prenuncio do tsunami que levou o governo Dilma para o buraco. Ou ajudou a levá-lo ao buraco.
Mas agora o senhor está na posição de líder do país. Aquele que precisa levantar a moral nacional. E ela está baixa mesmo. E, então, lemos na entrevista da Folha que as coisas irão melhorar, a economia passará a melhorar a partir do próximo ano, se houver necessidade de mais impostos iremos impo-los mesmo contra a vontade etc. etc.
Desculpe-me, mas estas palavras apenas repetem tudo o que já foi feito, dito e repetido, explicado e enrolado, ao longo dos últimos quinhentos anos. Permita-me, com essa conversa a moral nacional nunca subiu. E não subiu, ou talvez tenha subido há uns quatrocentos anos atrás, mas depois viu-se que era conversa fiada, como tem sido sempre conversa fiada nos últimos cinquenta anos; e destes eu me lembro bem. Vender ativos como Congonhas e Santos Dumont é ótimo, pelo menos nos livramos da incompetência administrativa do poder público. Porém, para um déficit previsto de 136 bilhões, os cinco bilhões dos dois aeroportos não ajudam muito, ainda mais se for financiado pelo BNDES. E dizer que os Correios, por serem muito deficitários, e a Petrobras, por ter muita simbologia, não podem ser vendidos, me parece pouco demais.
Que o senhor não deseje passar por enganador ilusionista, concordo. Afinal é a sua primeira atividade executiva em posto de eleição majoritária. Mas “alguma coisinha” poderia ter sido dita no sentido de indicar o que se estará fazendo para minimizar a fragilidade da economia brasileira. Porque, a meu ver, esta “alguma coisinha” passa pelo caminho oposto às suas palavras e ao escolhido por todos os governos dos últimos cinquenta anos; e destes eu me lembro bem.
Alguma “outra coisinha” poderia ter sido dita com relação a melhorar o desempenho dos Correios, já que, em suas próprias palavras, eles são muito deficitários. Mais uma “terceira coisinha” poderia ter sido dita com relação ao empenho do seu governo na recuperação moral e técnica da Petrobras, que deteve e espero que ainda detenha, a melhor tecnologia para prospecção e extração de petróleo em águas profundas. Se nada for dito pode parecer que a Petrobras está entregue à sua própria sorte.
E, permita-me de novo, se a moral nacional não subir, continuaremos atolados nas águas da lagoa Rodrigo de Freitas das Olimpíadas de 2016. Águas que provam e comprovam que o político brasileiro não é apenas mentiroso, é principalmente irresponsável e desonesto. Desonestos por não se preocuparem com promessas e compromissos mentirosos e inexequíveis.
Senhor Presidente, aproveite a oportunidade para entrar na história como aquele que acordou um país tragicamente deitado em berço esplêndido e que, em cerca de meio mandato, conseguiu acertar o rumo do Brasil. Pois isto é possível.
A outra alternativa será a desculpa de não ter tido tempo suficiente. E ela não será original.
A escolha é vossa.

(1) Folha de São Paulo, domingo, 10 de julho de 2016, caderno mercado, pg. A21
(2) Na Internet: folha.com/no 1790059

Saúde e alegria a todos

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