Diálogos 18

Em Mudanças, de 27.12.15, apresentei as razões que me levaram aos Diálogos. Em Diálogos 1 – preâmbulo, de 10.1.16, iniciei a publicação dos diálogos escritos a partir de 29/3/82.

 

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… Passaram-se exatos 21 meses.

 P1. Voltando ao problema da ignorância e da incapacidade. Se a incapacidade do rei é provada apenas após a coroação, deve-se, pelo menos, tentar expô-la. Esse negócio de se ficar aceitando fatos consumados só acarreta catástrofes maiores. Pode-se arriscar o pescoço tentando brigar com o rei e seus lacaios, mas é a única forma se tentar mudar alguma coisa. O único fato consumado é a morte, e mesmo assim não absolutamente consumado, pois sempre existe uma segunda chance.

P2. É o caso do que escreve. Passou boa parte da vida protestando para si e para os próximos sem jamais levantar a voz a um tom audível. Como quem pensa, mas não fala, não pensa e da mesma forma, quem não aceita mas cala é a favor, só se conclui ter ele sido sempre a favor, apesar de jamais ter concordado.

Mas assim, vamos voltar a assunto já discutido há algum tempo: justifica brigar com moinhos de vento para defender a pureza do poluído?

P1. Não. Mas justifica lutar para o poluído ser tornado mais limpo. Caso contrário não se poderá lamentar jamais. Não basta ser um bom cidadão, ciente de suas obrigações, honesto, votante assíduo, enquanto o mundo desaba em volta. Sem dúvida é confortável, enquanto o mundo não desabar. E então?

P2. Uma bela pregação, mas onde isso acontece? E, quando enfim acontece, resolve alguma coisa?

Eu mesmo respondo. Jamais aconteceu, assim não se sabe se resolve.

P1. Isto significa, então, estar na hora de acontecer. O Brasil chegou perto, apesar da enorme distância, mas os tais coordenadores e incentivadores da campanha “diretas já” não foram honestos o suficiente. Faltou-lhes (parece=me à distância) esclarecer aos manifestantes que tanto eleições diretas para presidente, como também o novo presidente, seja quem fosse, iriam mudar muito pouco. É triste ler uma entrevista de morador de São Miguel Paulista dizendo que depois da eleição direta viria a felicidade. Não virá, pois as eleições serão indiretas e não viria se as eleições fossem diretas. A situação brasileira só poderá ser alterada muitos anos depois do início da implantação de mudanças profundas.

P2. Cuidado, ó meu, reformas profundas soam sempre como comunizantes. Na verdade, há muito pouco a reformar; há muito a formar. É impossível refazer o que não existe. Na verdade, falta alguém decente o suficiente para repetir a promessa de Winston Churchill aos ingleses em seu discurso de posse como primeiro ministro ao início da segunda guerra mundial: “Nada tenho a oferecer senão sangue, trabalho, lágrimas e suor”.

P1. Permanecendo no exemplo brasileiro. Talvez se houvesse um governo federal e governos estaduais, com ministros e secretários etc., as coisas até corressem melhor. O governo do João sem cara; vivia escondido atrás de óculos escuros; começou muito mal. O presidente não queria ser presidente e a partir do dia da posse começou a contar os dias faltantes para o final de mandato. Os ministros, porém, queriam e muito. O ministro da Agricultura queria ser governador de São Paulo, o da Previdência Social queria ser governador do Rio Grande do Sul, o ministro da Indústria e Comércio queria ser ministro da Fazenda, o da Fazenda queria (parece) ser decente, o de Planejamento queria cair fora. O ministro da Minas queria apenas ser ministro e, tendo conseguido, descansou (admitindo-se ser ele capaz). Os ministros do Interior e da Justiça queriam ser presidente da República. Os demais são apenas figurantes.

Nesse meio composto por homens que não são, mas gostariam de ser, ou que são o que não queriam ser, as consequências são claras e ruins.

 

continua

 

Nota: Em algumas frases são referenciadas situações políticas, trajes, comportamentos e posturas típicas da época em que os diálogos foram escritos, primeira metade da década de 1980. Algumas delas tornaram-se moda, como barba mal aparada, uso de óculos Ray-Ban, governantes incompetentes. Outras, como bons modismos, desapareceram com o passar do tempo ou passaram a ser aceitos devido às mudanças de costumes.

 

Saúde e alegria a todos

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