O futuro a Deus pertence 4.1

Escrito em 1981

A segurança nacional voltou a ser ameaçada, não mais pelos opositores internos ou por potências estrangeiras. A maior ameaça à segurança nacional tornou-se o próprio governo.

E agora? O futuro a Deus pertence!

Escrito em 2016

A ameaça governamental ao país passou a ser combatida internamente. Os cassados de 1968 estavam com seus direitos restituídos, muitos dos opositores que haviam deixado o país já haviam retornado. A economia ia mal, muito mal, ao início da década de 80. A situação política estava insustentável. A democracia plena de quase ditadura, dubiedade inexplicável comum em Bal-Gunça, associada ao pragmatismo dos ba-gunços do século XVI e dos balbúrdios atuais, tornou-se convenientemente intolerável. Os ventos terríveis de meados dos anos 70 continuavam a soprar.

Pausa: Esses ventos terríveis, econômicos ou não, não param de encher o saco desta bendita terra. E nenhum pai da pátria ainda se preocupou com eles!? Ou eles são convenientes?

O então dono do poder começou o que foi chamado de retorno lento e gradual à democracia. Retorno lento e gradual o suficiente para fazer o seu sucessor. Este, aparentemente feliz por poder cuidar de seus cavalos, dos quais dizia gostar mais que do povo, indicava tendências a devolver a Bral-Gunça a todos os balbúrdios ao final de seu mandato. Ao final de 1979 o bipartidarismo foi abolido e voltou-se ao regime multipartidário. O multipartidarismo permitiu a criação de partidos suficientes para acomodar as várias tendências políticas, que em Bral-Gunça beiram o infinito e variam de acordo com interesses específicos e de momento. Com isso, a quantidade de interesses em jogo e a quantidade de interessados em tantos e diversos interesses impedia qualquer entendimento; o que permanece até os nossos dias.

Paralelamente, a industrialização crescia, a produção agrícola acelerava. E Bral-Búrdia firmou-se em um novo patamar, acreditavam muitos. Fabricamos veículos! Construímos uma nova capital no centro do país! Gritavam todos. A indústria automobilística bral-burdiana começa a ganhar vulto. O júbilo patriótico crescia. Exportamos veículos, bradavam alguns. Para o Iraque, retrucavam outros. Consta que parte dos Passat exportados para o Iraque não foram pagos. Consta ainda que o calote aplicado pelo governo de Sadam Hussein ao Brasil não foi uma das causas das duas guerras do Golfo.

Na política a grande dúvida era pequena: como fazer a devolução da Bral-búrdia aos bagunços? Os opositores, agora mais livres, passaram a exigir eleições diretas. Por que? Porque apesar de o golpe de 1964 ter sido feito também em nome do povo, este passou todo o tempo sem poder escolher os seus governantes. E criou-se o movimento “DIRETAS JÁ”. A genialidade de presidente e vice poderem ser de partidos antagônicos havia sido abolida. Durante o regime militar, Tancredo Neves (1) havia pertencido ao partido da oposição, MDB, e José Sarney (2) ao da situação, ARENA. E, em eleição indireta foram eleitos Tancredo Neves, opositor do regime militar, para presidente e José Sarney, apoiador do regime militar, para seu vice, ambos já em novos partidos, de oposição.

Em uma manobra do destino, Tancredo Neves morre antes de tomar posse.

Pausa: Homem de sorte! Tivesse governado, teria sido mais uma decepção dentre todos os demais. Tornou-se, porém, a solução da qual Deus não nos permitiu usufruir.

O que fazer? Aceitar um situacionista de oposição ou um opositor da situação como presidente por quatro anos? Se o presidente e o vice não tomaram posse, o vice é o seu sucessor?

Sucessor de um presidente que não tomou posse? Oh maravilha para os bagunços! Voltamos aos bons e velhos tempos! Loquazes por natureza, os balbúrdios deliciavam-se com o poder do rádio e o poder da TV. Quantas informações para se cacarejar a respeito! Todos falavam de tudo e de todos, principalmente os políticos.

E Sarney tomou posse como presidente eleito, ou vice-presidente eleito. E seu governo foi inacreditavelmente esquecível, a menos da inflação galopante. Quatro anos depois, 1989, o povo foi chamado a escolher o seu sucessor. Candidatos, muitos.

Dentre os muitos candidatos um líder nato, homem de origem humilde, nordestino, trabalhador metalúrgico, mutilado no trabalho, presidente de sindicato, opositor do regime militar, fundador de partido político de ideologia clara e definida, batalhador pelas causas dos pobres e mais; Luiz Inácio Lula da Silva, o Lula, que em 1982 havia incorporado o apelido ao seu nome. Do outro lado Fernando Collor de Mello, alagoano nascido no Rio de Janeiro, filho de político federal, representante legítimo do sistema feudal vigente no nordeste brasileiro. Jovem, boa aparência, ousado, motociclista, rico, esposa jovem e atraente, o antagonista perfeito para Lula.

E Lula iniciou aí a sua peregrinação rumo à desmoralização explícita; perdeu.

Fernando Collor de Mello, duas vezes consoante dupla no seu nome! Uau! Teria sido ele a inspiração para a sanha dos pais brasileiros em duplicar consoantes nos nomes dos seus filhos? Nada consta a respeito. E ele chegou arrebentando. O caçador de marajás. O macho de motocicleta. O dono do cofre. O “que tinha aquilo roxo”! Dizem alguns que “aquilo roxo” jamais foi apresentado para confirmação de tonalidade. Dizem outros que aquilo roxo foi consequência de uma queda sobre uma cerca de fazenda. De qualquer forma, após dois anos o caçador ou Fernando I, o Breve, acabou apeado do poder e cassado por corrupção, denunciado por seu próprio irmão (1). No curto reinado, algumas trapalhadas econômicas, tentativas frustradas de reduzir a inflação e outros fracassos.

E o país ia seguindo em frente. Comprava-se o que não se precisava, exportava-se a matéria prima para adquiri-la industrializada, incentivava-se a industrialização importando indústrias, investia-se em conhecimento copiando modelos externos, etc. etc.

Pausa: Alguém pode estranhar a grafia variável do nome da terra sobre a qual se escreve. Afinal escreve-se Bal-gunça ou Bral-Gunça, bagunços ou ba-gunços ou Bal-búrdia ou …? Irrelevante se com esse ou com ze, se com jota ou com gê. Em Bral-Gunça, o que vale é o som. Como se escreve é secundário. Se no futuro alguém irá entender os escritos, sabe-se lá o que é futuro. O futuro a Deus pertence, não?

continua

(1) http://acervo.oglobo.globo.com/fatos-historicos/presidente-collor-sofreu-impeachment-em-1992-foi-cassado-pelo-senado-9239073

Saúde e alegria a todos

Dear Mister President 1

O título surgiu instantaneamente em minha mente ao ler na Internet a manchete da Folha citada adiante. O tom a ser dado poderia ser de desalento ou de surpresa ou qualquer outro, mas deve ser efetivamente nenhum. Acredito que para pessoas com a nossa idade estas três palavras tragam lembranças significativas. Aos que não conviveram com tal período explico terem sido as três palavras acima proferidas de forma fortemente sensual e amorosa por Marilyn Monroe ao iniciar a sua participação em uma festa de aniversário de John F. Kennedy. Ela então símbolo sexual máximo de Hollywood nos anos 50-60, ele presidente dos EUA. Ambos tidos como amantes à época.  Faltou acrescentar ao título as palavras “do Brasil”.

Não tenho a pretensão de que o senhor ou um de seus auxiliares venha a ler o que está escrito. Mas, se tal frase chegasse aos seus ouvidos, na forma como está no título, as lembranças fariam o vosso ego inflar ainda mais.

No que me diz respeito, jamais tive grandes esperanças em seu governo, ora provisório, em breve definitivo. De quem conviveu com a incompetência desonesta  do governo anterior, como parte integrante dele, distante ou não, haveria mesmo muito pouco do que se esperar. E o senhor e seus auxiliares não necessitaram de muito tempo para confirmar a minha desesperança. Em menos de uma semana de governo um de seus ministros mais fortes teve suas fraquezas expostas e, sob acusação de corrupção, precisou ser trocado. Outros, também acusados de corrupção, não tomaram posse ou tomaram posse e foram afastados a seguir. Os compromissos eram mesmo tão fortes ou o objetivo foi apresentar o novo governo em seu mais amplo espectro? Isto é, mostrar o novo governo como mais do mesmo.

Mas, então, porque demorou tanto para eu me manifestar? Para ser sincero, pouco me preocupei com as suas trapalhadas reveladoras, Afinal, para quem conviveu com os governos Lula e Dilma, mais trapalhadas não fazem diferença. Mais do mesmo. Para quem acompanha, mesmo de longe, as trapalhadas de vossos colegas ao redor do mundo, mais trapalhadas não fazem diferença. Mais do mesmo. Estou no Reino Unido, não como turista, mas como pai em visita a filha e acompanho a trapalhada, Brexit, feita pelos seus colegas políticos no berço da democracia moderna. Mais do mesmo.

Mas, então, porque este texto? Acessei a Folha de S. Paulo pela internet e cruzei com “Temer pede que indústria priorize formados no exterior” (1). O sub-titulo elucida: “Para peemedebista mão de obra pode trazer informações tecnológicas”. Mais do mesmo.

A velha e inútil malandragem brasileira, a que nos levou para onde estamos há muito; para lugar algum. O vazio de ideias, ideais, propostas, intenções, objetivos. Já que nada de novo conseguimos desenvolver, vamos nos aproveitar daquilo que os outros desenvolveram e nos entregarão de mão beijada. Mesmo?  Dá para acreditar nisso?

Nós não precisamos mais de malandragem, precisamos de competência. A competência que falta na maioria das decisões tomadas nos vários níveis de governo.

Precisamos de honestidade, esta que o senhor perdeu a oportunidade de defender ao propor a malandragem de se aproveitar do conhecimento alheio.

Precisamos que o mais alto mandatário do país mostre confiança e orgulho das estruturas e pessoas que estão sob sua liderança.

Ou o senhor desconhece que as universidades brasileiras formam os engenheiros que o senhor sugeriu relegar a segundo plano quando de seu “pedido aos empresários”?

Não acredito que o senhor conheça muito sobre engenharia, minha área de formação. Possivelmente conheça o tanto que eu conheço sobre direito, a vossa área de formação. Porém, por favor, evite ridicularizar-se mais do que já foi feito ao longo de sua breve estada no poder transitório.

O Brasil precisa de líderes que, mesmo sem cacoete para tal, mostrem confiança no país e em seus liderados. Talvez com isso os brasileiros possam voltar a acreditar e confiar em alguma coisa.

Esforce-se, por favor, para acabar com o trágico período de mais do mesmo que temos vivido nas últimas décadas. Segundo vossas próprias palavras, em dois anos e meio se encerra o seu período no poder. Esforce-se para ser lembrado como alguém que conseguiu ultrapassar a fronteira da mediocridade, algo que a maioria de seus antecessores não conseguiu e nem demonstrou vontade para conseguir.

(1) Temer pede a empresários que … Gustavo Uribe Machado da Costa, Brasília, Folha de São Paulo, 08/07/2016; 18:39.

Saúde e alegria para todos

Diálogos 14

Em Mudanças, de 27.12.15, apresentei as razões que me levaram aos Diálogos. Em Diálogos 1 – preâmbulo, de 10.1.16, iniciei a publicação dos diálogos escritos a partir de 29/3/82.

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Adendo

Nem sempre o que se escreve retrata a nossa crença. Às vezes retrata uma reação a um estado de coisas tornado inaceitável e que ao ser apresentado na forma de aberração objetiva demonstrar o desconforto de quem escreve. O que aqui se inicia retrata a minha crença de 1982, que se mantém em 2016 e se manterá para sempre. O que escrevi sobre o Esquadrão Herodes, a ser estruturado nos Diálogos 12 e 13, expresso pelo debatedor P1, corresponde exatamente às duas primeiras frases acima. O Esquadrão Herodes foi escrito em 1981 e é uma reação ao que se fazia à época e se mantém até hoje e que levou ao estado de insegurança plena em que agora vivemos, isto é, poderia muito bem ter sido escrito hoje. O Esquadrão é uma proposta de solução simples e absurda, típica dos desejos do poder constituído, melhor chamado de poder incompetente, a qual eu jamais apoiaria. Este poder incompetente não atua para resolver problemas, quaisquer que sejam eles, desde sempre. O problema de segurança, porém, deve ser computado quase integralmente aos omissos que governam o estado de São Paulo e os demais estados e o próprio Brasil desde a década de 1950. Os governadores de São Paulo estão nomeados em Diálogos 11.

Final

 Art. 12 – Revogadas todas as disposições em contrário.

P1. Qual a sua opinião a respeito do projeto?

P2. Prático, objetivo, lógico. A princípio parece um pouco estranho o Esquadrão Herodes ficar sob controle dos Departamentos de Limpeza Pública, mas os objetivos esclarecem a possível dúvida. Porque é proibido o uso de sirenes? Para não assustar as criancinhas?!

P1. Não só! Considere a possibilidade de o Esquadrão precisar agir em uma maternidade.

P3. Abjeto, porém, adequado para os governantes incompetentes, todos. Corre-se o risco de ter tal projeto proposto em alguma Assembleia Legislativa ou na própria Câmara Federal.

P2. (sussurrando) Você ouviu o que escreve?

P1. (sussurrando também) Esqueça, faça de conta que nada aconteceu.

P1. Não só! Considere a possibilidade de o Esquadrão precisar agir em uma maternidade. É uma hipótese remota, pois as famílias a serem higienizadas dificilmente têm acesso a maternidades. Mas, mesmo assim, considere a hipótese remotíssima de um Comando Pilatus ter de agir no Hospital Einstein, no Morumbi, ao lado do Palácio dos Bandeirantes; ou então na Maternidade São Paulo, na Bela Vista ao lado da avenida Paulista, ou na Pro-Mater, na mesma região ou … . O uso de sirenes poderia perturbar uma importantíssima reunião de conchavos no Palácio; o sono da comunidade bem acima de um salário mínimo per capita; o que seria abominável e desumano. Por outro lado, o uso de sirenes quando das incursões dos Comandos Pilatus em seu campo natural de ações, favela, periferia, bairros decadentes, poderia oferecer aos saneados sem senso de dever cívico a oportunidade de tentar obstruir o cumprimento de tão nobre tarefa.

P2. Mas como será possível saber do nascimento de crianças em condições de saneamento? Como muitas nascem em casa, os pais podem deixar de registrá-las e esconde-las até passar o mês previsto no projeto.

P1. Não irá funcionar. Criança não registrada é criança não nascida, não existe. A partir do registro ela nasce e começa a contar o tempo de vida.

P2. E se a criança for registrada com 1, 2, 10 ou 20 anos de vida?

P1. Após o registro a criança começa a viver para a sociedade e para a justiça. Se na época de seu nascimento social a renda familiar per capita estiver acima da mínima prevista, a criança adulta estará salva. Caso contrário a família gastará mais para o enterro.

P2. E se os pais se revoltarem e, com vizinhos e amigos resolverem resistir?

P1. Leia a proposta de projeto. Art. 6 Dos direitos do Esquadrão Herodes; art. 4 Do equipamento do Esquadrão Herodes; art. 8. Dos objetivos específicos do Esquadrão Herodes. Tudo planejado, tudo planejado.

P2. Mesmo assim, você acredita que a sociedade aceite este massacre infame?

P1. É fácil. Inicia-se o processo de implantação do projeto com uma série de filmes, propaganda barata, mostrando ações e consequências de ações de marginais. A seguir uma segunda série de filmes, do mesmo nível, pedindo a colaboração de todos no combate à criminalidade, entremeado por entrevistas com marginais em ações, com closes no prazer estampado em seus rostos. Só então entrarão em ação os comandos. Dois dias após o início dos trabalhos dos comandos, divulga-se secretamente boatos sobre a vida íntima de algum cantor, ator da Globo, ou coisa que o valha. Tal ação deve permanecer por cerca de vinte dias. Ao longo destes vinte dias a ação dos comandos, ao início presente nas manchetes de primeira página ou abertura de noticiários, após dois dias cairão para o rodapé da primeira página ou comentários rápidos nos noticiários. Enquanto isso a onda de fofocas, suposições, desmentidos, sobre o astro cresce. Fotos coloridas do astro passarão a ocupar as manchetes em substituição aos monótonos uniformes brancos com eventuais respingos vermelhos dos saneadores. Entrevistas na TV, defesas apaixonadas, ataques monstruosos; o astro é o foco das atenções gerais. Demonstrações de desagravo dos fã-clubes, demonstrações feministas, minoritárias do MSTerra, do MSTeto, dos vegetarianos, dos carnívoros, da Associação Mundial dos Protetores das Saúvas (AMPS). Tudo incitado pelo calvário a que o astro está sendo submetido.

E os comandos passaram para a página 8, terceira coluna, inferior.

Continua

Nota: Em algumas frases são referenciadas situações políticas, trajes, comportamentos e posturas típicas da época em que os diálogos foram escritos, primeira metade da década de 1980. Algumas delas tornaram-se moda, como barba mal aparada, uso de óculos Ray-Ban, governantes incompetentes. Outras, como bons modismos, desapareceram com o passar do tempo ou passaram a ser aceitos devido às mudanças de costumes.

Saúde e alegria a todos

O futuro a Deus pertence 3

Escrito em 1981

Antes do término do mandato e em nome do mesmo povo, agora não consultado, os governantes eram depostos.

E o país ia seguindo em frente. Comprava-se o que não se precisava, exportava-se a matéria prima para adquiri-la industrializada, incentivava-se a industrialização importando indústrias, investia-se em conhecimento copiando modelos externos, etc. etc.; e isto continua até os dias de hoje.

Além disso a industrialização começava a reduzir a produção agrícola. E Bral-Búrdia trocou de patamar, acreditavam muitos. Fabricamos veículos! Construímos uma nova capital no centro do país! Gritavam todos. A indústria automobilística bral-gunciana começa a ganhar vulto. O júbilo patriótico cresce.

Volkswagen, Ford, General Motors, Mercedez-Benz (Daimler-Benz) faziam os balbúrdios vibrar. E ninguém notou que os nomes das empresas nada tinham de bral-gunciano. Mas, bradavam os entusiastas, para que “inventar a roda” se já existem aqueles que têm experiência na fabricação de veículos? Vamos trazê-los para construir veículos para nós, com nossa mão-de-obra. E, mais uma vez recebemos ajuda externa, agora de empresas ao invés de pessoas, que como no passado interessavam-se em trazer aos balbúrdios uma cultura tecnológica avançada e conceitos modernos de produção, sem nada exigir em troca; nada além dos direitos dos projetos, royalties, enviados para a matriz e preços muito acima do cobrado para os mesmos veículos comercializados no exterior. O governo, sempre ávido por mais dinheiro, impôs taxações elevadíssimas sobre os veículos e manteve a extorsão nos preços de venda dos veículos.

A capital ficou pronta em tempo recorde, ou quase, e foi inaugurada como o novo orgulho dos balbúrdios. Na inauguração encerrava-se também o período de gestação do que viria a ser o melhor amigo dos senhores da terra, a INFLAÇÃO.

O povo, convocado às urnas elegeu presidente e vice com votações espantosas. Em uma ação de inteligência extrema, alguém havia feito ser aprovada a possibilidade de serem votados e eleitos presidente e vice de partidos antagônicos. E isto aconteceu. O presidente eleito prometeu um governo inovador, ágil e criativo. Agilmente usou a sua criatividade para inovar; oito meses depois da posse abandonava o cargo. Consta que o seu objetivo era de ser aclamado ditador, mas deu azar.

A época era ruim. Loquazes por natureza, os balbúrdios deliciavam-se com o poder do rádio e o poder emergente da TV. Quantas informações para se cacarejar a respeito! Todos falavam de tudo e de todos, principalmente os políticos.

O vice, chamado a não assumir a presidência, recusou. Depois de idas e vindas, tomou posse o vice-presidente, de tendências esquerdistas e contra a vontade dos anticomunistas. Talvez o vice tenha recebido tal caracterização, esquerdista, por ser canhoto ou algo semelhante. E a inflação crescia.

Os políticos manobraram. Tentaram, inventaram, mudaram a constituição, pariram o parlamentarismo, mudaram a constituição de novo, enterraram o parlamentarismo. Haja criatividade inútil. Não deu mais. Cerca de quatro anos depois das eleições e em nome do povo, mas sem consulta-lo, o presidente foi apeado do poder. O movimento que derrubou o presidente e instalou o os militares no poder por cerca de 20 anos foi chamado de “Revolução de 31 de março”. Consta que muitos a veem mais como uma revolução de primeiro de abril.

A explicação para a mudança era simples. Inflação alta, descontrole governamental, ameaça à segurança nacional, falta de planejamento etc. etc. Os novos comandantes do país reduziram a falação, reorientaram a máquina governamental, empreenderam o desenvolvimento, dizem. Poucos entenderam e vários insistiam em ser contra. Comunistas, desejavam lançar a Bal-gunça no caos e tomar o poder, instalar um governo de partido único, controlar os demais poderes, eliminar os opositores e implantar uma ditadura. Exatamente o que acabara de ser feito. Os opositores tomaram em armas e tentaram seguir o modelo cubano, quando um punhado de homens em um iate invadiram a ilha e tomaram o poder com a ajuda do povo, dizem.

Os novos donos do poder sentiram-se desafiados. Permitir a vitória dos revoltosos seria permitir banhar de sangue o deserto verde e líquido. E reagiram. Aparentemente os revoltosos desconheciam certas peculiaridades de Bal-Gunça e dos balbúrdios.. Bal-Gunça não era uma ilha, visto que o nome Ilha de Santa Cruz havia sido abandonado há séculos atrás, depois de os colonizadores terem pressentido que a área da então Bral-Búrdia era relativamente elevada. Eles também não deviam entender muito de logística e, principalmente, desconheciam o pragmatismo dos balbúrdios e também a peculiaridade de seu caráter. Estes, sob ameaça abriam mão de suas crenças e também faziam o que bem entendiam, preocupando-se apenas consigo mesmo, como outrora constatado pelos colonizadores (O futuro a Deus pertence 1).

Os revoltosos perderam, como era de se esperar, menos por eles.

Durante o combate à contrarrevolução os novos governantes fecharam todos os partidos, colocaram o legislativo e o judiciário a serviço do povo, representado por eles mesmos, perseguiram os que pensavam diferente, cassaram direitos políticos e canalizaram o banho de sangue para os esgotos, mantendo o deserto verde e líquido quase limpo. Tempos depois uniram-se em um partido fictício, mas real e de sigla ARENA, aos políticos mais desclassificados, os que abriam mão de suas convicções à primeira ameaça e implantaram a democracia ditatorial de quase partido único.

A Bral-Gunça progredia. Comprava-se o desnecessário, exportava-se a matéria prima para adquiri-la industrializada, incentivava-se a industrialização importando indústrias e exportando dividendos, investia-se em conhecimento copiando modelos externos, etc. etc.; o que se vivencia até hoje.

A Bral-Gunça progredia. Ninguém falava e tinha-se a impressão de que todos prestavam atenção. Ao que? Certas coisas não devem ser perguntadas.

Pausa: Alguém pode estranhar a grafia variável do nome da terra sobre a qual escrevemos. Afinal escreve-se Bal-gunça ou Bral-Gunça, bagunços ou ba-gunços ou Bal-búrdia ou …? Irrelevante se com s ou com z. Em Bral-Gunca, o que vale é o som. Como se escreve é secundário. Se no futuro alguém irá entender os escritos, sabe-se lá o que é futuro. O futuro a Deus pertence, não?

Milagre, milagre, a inflação foi reduzida a míseros 15% ao ano. Milagre apenas explicado pela capacidade dos senhores da terra ora no poder.

O mundo recebeu ventos terríveis. O preço do petróleo duplicou, triplicou, quadruplicou. Não, quintuplicou. Decuplicou e mais. De US$ 2,00 o barril passou para US$ 30,00. O milagre começou a provar que os ba-gunços do século XVI tinham razão em aceitar apenas a quase-conversão. Milagres não são fabricados; acontecem?

A inflação disparou. As pessoas voltaram a falar, falar, falar e ninguém a ouvir.

O planejamento governamental foi reduzido a tapar hoje os buracos de ontem e o povo, sempre ele, foi chamado a pagar as dívidas contraídas em seu nome, sem a sua consulta e que pouco reverteram a seu favor. A segurança nacional voltou a ser ameaçada, não mais pelos opositores internos ou por potências estrangeiras. A maior ameaça à segurança nacional tornou-se o próprio governo.

E agora?

O futuro a Deus pertence!

 

 

———————————————————————–

O futuro a Deus pertence 4 deverá ser publicado em algum momento, com a atualização das condições de Bal-gunça para os dias atuais. Não deverá ser difícil, pois continuam se repetindo os problemas de sempre. E o final do novo texto já está escrito; será a repetição  do texto acima, a partir de “O planejamento …”.

Saúde e alegria a todos

Diálogos 13

Em Mudanças, de 27.12.15, apresentei as razões que me levaram aos Diálogos. Em Diálogos 1 – preâmbulo, de 10.1.16, iniciei a publicação dos diálogos escritos a partir de 29/3/82.

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 Adendo

Nem sempre o que se escreve retrata a nossa crença. Às vezes retrata uma reação a um estado de coisas tornado inaceitável e que ao ser apresentado na forma de aberração objetiva demonstrar o desconforto de quem escreve. O que aqui se inicia retrata a minha crença de 1982, que se mantém em 2016 e se manterá para sempre. O que escrevi sobre o Esquadrão Herodes, a ser estruturado nos Diálogos 12 e 13, expresso pelo debatedor P1, corresponde exatamente às duas primeiras frases acima. O Esquadrão Herodes foi escrito em 1981 e é uma reação ao que se fazia à época e se mantém até hoje e que levou ao estado de insegurança plena em que agora vivemos, isto é, poderia muito bem ter sido escrito hoje. O Esquadrão é uma proposta de solução simples e absurda, típica dos desejos do poder constituído, melhor chamado de poder incompetente, a qual eu jamais apoiaria. Este poder incompetente não atua para resolver problemas, quaisquer que sejam eles, desde sempre. O problema de segurança, porém, deve ser computado quase integralmente aos omissos que governam o estado de São Paulo e os demais estados e o próprio Brasil desde a década de 1950. Os governadores de São Paulo estão nomeados em Diálogos 11.

Final

PROJETO: ESQUADRÃO HERODES (continuação)

(ou ide a ele as criancinhas ou que pelo menos sumam daqui)

Art. 1

Art. 2

Art. 3

Art. 4

 4 – Dos meios de comunicação dos Comandos Pilatus (CP);

I – Três rádios de longo alcance para comunicações a distâncias de até 500 km (quinhentos quilômetros), um para cada saneador, com, no mínimo 5 (cinco) baterias de reserva);

II – Três “walkie-talkie”, um para cada saneador, com, no mínimo 5 (cinco) baterias de reserva);

III – Um alto falante com alcance de, no mínimo, 200 m (duzentos metros).

Art. 5 –  Das condições de trabalho do Esquadrão Herodes (EH);

  • 1 – Todos os saneadores terão uma jornada de trabalho de 8 (oito) horas diárias, 5 (cinco) dias por semana, com dois dias de descanso;

I – As jornadas de trabalho dos vários Comandos Pilatus (CP) serão organizadas pelo superintendente do Esquadrão Herodes (EH) local, de tal forma que haja sempre, ao menos, 10 (dez Comandos Pilatus (CP) de plantão durante as 24 (vinte e quatro) horas do dia, todos os dias da semana.

II – Cada saneador poderá ser convocado para ações extraordinárias a qualquer m0mento, estando ou não em seu horário de trabalho.

  • 2 – Cada saneador receberá um salário fixo equivalente a 8 (oito) salários mínimos locais;

I – Cada saneador terá direito a um prêmio mensal de produtividade a ser acrescido ao salário e equivalente a 1/3 (um terço) do prêmio de produtividade de seu Comando Pilatus (CP);

  • 3 – Os uniformes serão fornecidos pelos Departamentos de Limpeza Pública (DLP), devendo ser trocados semanalmente e renovados semestralmente. Em casos de dedicação extrema ao trabalho, os uniformes poderão ser trocados a qualquer tempo.

Art. 6 – Dos direitos dos Esquadrões Herodes (EH)

Todos. Isto significa terem os Esquadrões Herodes (EH) e os Comandos Pilatus (CP) total liberdade para agir conforme as situações de trabalho assim o exigirem.

Art. 7 – Dos sistemas de apoio dos Esquadrões Herodes (EH)

Quando em cumprimento do dever, cada saneador componente de um Comando Pilatus (CP) tem o direito de requisitar os recursos que julgar necessário para a boa execução de sua tarefa saneadora. Os que porventura se recusarem a acatar as requisições dos saneadores serão processados por obstrução da justiça.

Art. 8 – Dos objetivos específicos dos Esquadrões Herodes (EH)

Os esquadrões Herodes (EH) serão mobilizados para ações de saneamento a serem aplicadas em favor de recém-nascidos ou crianças até um mês de vida provenientes de lares onde a renda líquida mensal per capita seja igual ou inferior a um salário mínimo local. A idade deverá ser comprovada por certidão de nascimento original, autenticada. O objetivo primordial da mobilização do Esquadrão Herodes (EH) é poupar a estas crianças uma vida de privações e infelicidade e indiretamente possibilitar a melhoria do nível de vida e segurança a todos os demais e também livrar o poder incompetente do lastro de tentar enganar o povo fingindo estar interessado em resolver o problema de segurança pública.

Art. 9 – Das condecorações específicas do Esquadrão Herodes (EH)

Em casos de dedicação acima do dever, o superintendente poderá, a partir de testemunhos idôneos, atribuir aos saneadores as seguintes condecorações, por ordem crescente de mérito.

I – Chupeta de bronze;

II – Chupeta de prata;

III – Chupeta de ouro, segundo grau;

IV – Chupeta de ouro, primeiro grau;

V – Cavaleiro da Ordem do Bercinho.

Art. 10 – É vedada toda e qualquer contestação, recurso judicial ou qualquer questionamento às ações patrióticas dos Esquadrões Herodes (EH).

Art. 11 – Casos omissos devem ser regulamentados por legislação específica.

Art. 12 – Revogadas todas as disposições em contrário.

P1. Qual a sua opinião a respeito do projeto?

P2. Prático, objetivo, lógico. A princípio parece um pouco estranho o Esquadrão Herodes ficar sob controle dos Departamentos de Limpeza Pública, mas os objetivos esclarecem a possível dúvida. Porque é proibido o uso de sirenes? Para não assustar as criancinhas?!

P1. Não só! Considere a possibilidade de o Esquadrão precisar agir em uma maternidade.

P3. Abjeto, porém, adequado para os governantes incompetentes. Corre-se o risco de ter tal projeto proposto em alguma Assembleia Legislativa ou na própria Câmara Federal.

 

Continua

 

Nota: Em algumas frases são referenciadas situações políticas, trajes, comportamentos e posturas típicas da época em que os diálogos foram escritos, primeira metade da década de 1980. Algumas delas tornaram-se moda, como barba mal aparada, uso de óculos Ray-Ban, governantes incompetentes. Outras, como bons modismos, desapareceram com o passar do tempo ou passaram a ser aceitos devido às mudanças de costumes.

 

Saúde e alegria a todos

O futuro a Deus pertence 2

Escrito em 1981

Importou-se a mão de obra necessária! Novamente a grandiosidade da religião (deturpada) se impôs.

Na procura por povos adeptos do trabalho estimulado, isto é, sem recompensa além de chão para dormir e lavagem para comer, encontrou-se os ideais. Negros, assemelhados a macacos, só poderiam ter sido criados por deus para servir aqueles que pensassem por eles. Importem-nos!

E assim se fez. Ao longo do tempo sequestrados na África chegavam mais e mais negros estimulados a trabalhar por livre escolha para os bagunços em troca de chão, sobras de comida e chicote.

A Bral-Búrdia, agora rebatizada de Bal-Gunça em homenagem aos bagunços; poucos entenderam a razão do uso do ífem se a homenagem era aos sem ífem; ia de vento em popa. De vez em quando grupos pequenos de ba-gunços, que já haviam perdido até a elevada taxa de natalidade, eram exterminados. Outras vezes importava-se enxadas sem cabo e sem lâminas. Outras vezes ainda eram comprados navios de guerra especiais para guardar as fronteiras de Bal-Gunça com os países andinos, onde não existia mar ou rios de fronteira. Desnecessário escrever que tais práticas permanecem até os nossos tempos.

Ventos fortes agitaram a Bal-Gunça. O filho do chefe dos bagunços liberta a Bal-Gunça dos visitantes permanentes. Todos ficaram maravilhados esquecendo-se serem os bagunços os próprios visitantes permanentes. O chefe dos bagunços havia aconselhado seu filho para que, em caso de independência iminente, fosse ele o libertador para evitar que “um aventureiro lançasse mão” de tal ação e do país. Aparentemente até hoje o conselho do chefe dos bagunços foi ouvido apenas por seu filho lá por 1820. Cansado dos aventureiros o filho do chefe dos bagunços abdicou do trono de Bal-Gunça após poucos anos e retornou à origem. Deixou seu filho, ainda criança, como sucessor. E Bal-Gunça continuou prosperando, apoiada em uma agricultura ajudada por muitas terras férteis e muitos negros chicoteados.

O alto custo de manutenção dos negros, cansados das reuniões chicoteadas, chão para dormir e restos para comer, transformou-os em seres humanos e eles foram libertos. Todos, ou quase todos, ficaram maravilhados. Muitos se esqueceram que os negros, livres de serem malcuidados pelos seus senhores, de repente passariam a cuidar de si e a continuar trabalhando para os antigos donos. Tal desinteresse por consequências de ações oficiais, ou não, permanece até os dias de hoje.

As coisas políticas não iam bem em Bal-Gunça, a quantidade de interesses em jogo e a quantidade de interessados em tantos e diversos interesses impedia qualquer entendimento; o que permanece até os nossos dias. Essa do neto do chefe dos visitantes permanentes, mesmo sendo filho do libertador, mandar no país, não fazia sentido. Apeie-se o homem do poder e que seja dado ao povo o direito de escolher todos os seus dirigentes.

E um soldado de nobre estirpe, monarquista convicto, sobe em seu cavalo e proclama a república. Consta que o objetivo era apenas pressionar o Imperador por interesses de amigos e seus próprios. Mas a ação não deu certo e a Bal-Gunça virou república. Seu primeiro presidente, um marechal monarquista. O povo, pela primeira vez lembrado para a escolha de seus dirigentes; e daí até nossos dias só lembrado nessa época; já apresentava um caráter e comportamento peculiar. Fazia o que bem entendia, por influência dos ba-gunços, preocupando-se apenas consigo mesmo, influência dos bagunços, e ia tocando a vida.

O povo de Bal-Gunça, os balbúrdios, era composto por várias camadas de habitantes, cada uma com origens diferentes. Os estrangeiros em extinção, outrora chamados de ba-gunços; os senhores da terra, legítimos e únicos habitantes do país desde tempos imemoriais, outrora bagunços, e os visitantes, homens e mulheres que, chegados há pouco, estavam conhecendo o país permanentemente. O termo visitante permanente havia sido abolido pelos senhores da terra por ser “historicamente incorreto”.

E o país ia seguindo em frente. Comprava-se o desnecessário, vendia-se navios de matéria prima para com o auferido adquirir cestas de produtos industrializados com a matéria prima vendida, incentivava-se a industrialização importando indústrias, investia-se em conhecimento copiando modelos externos, etc. etc.; e isto continua até os dias de hoje.

Pausa: Alguém pode estranhar a grafia variável do nome da terra sobre a qual escrevemos. Afinal escreve-se Bal-gunça ou Bral-Gunça, bagunços ou ba-gunços ou Bal-búrdia ou …? Irrelevante se com s ou com z. Em Bral-Gunca, o que vale é o som. Como se escreve é secundário. Se no futuro alguém irá entender os escritos, sabe-se lá o que é futuro. O futuro a Deus pertence, não?

Os governos sucediam-se tranquilamente. O povo, chamado a votar para escolher os seus governantes, os escolhia por períodos fixos de cinco anos. Antes do término do mandato e em nome do mesmo povo, agora não consultado, os governantes eram depostos.

 

Continua

Saúde e alegria a todos

Diálogos 12

Em Mudanças, de 27.12.15, apresentei as razões que me levaram aos Diálogos. Em Diálogos 1 – preâmbulo, de 10.1.16, iniciei a publicação dos diálogos escritos a partir de 29/3/82.

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 Adendo

Nem sempre o que se escreve retrata a nossa crença.  Às vezes retrata uma reação a um estado de coisas tornado inaceitável e que ao ser apresentado na forma de aberração objetiva demonstrar o desconforto de quem escreve. O que aqui se inicia retrata a minha crença de 1982, que se mantém em 2016 e se manterá para sempre. O que escrevi sobre o Esquadrão Herodes, a ser estruturado nos Diálogos 12 e 13, expresso pelo debatedor P1, corresponde exatamente ao caso acima. O Esquadrão Herodes foi escrito em 1981 e é uma reação ao que se fazia à época e se mantém até hoje e que levou ao estado de insegurança plena em que agora vivemos, isto é, poderia muito bem ter sido escrito hoje. O Esquadrão é uma proposta de solução simples e absurda, típica dos desejos do poder constituído, melhor chamado de poder incompetente, a qual eu jamais apoiaria. Este poder incompetente não atua para resolver problemas, quaisquer que sejam eles, desde sempre. O problema de segurança, porém, deve ser computado quase integralmente aos omissos que governam o estado de São Paulo e os demais estados e o próprio Brasil desde a década de 1950. Os governadores de São Paulo estão nomeados em Diálogos 11.

Final

P2. Mas então só com controle de natalidade!

P1. Explico o projeto em detalhes. Ele poderia até ser lançado como um dos famosos projetos IMPACTO, que consagraram o milagre brasileiro do primeiro período Delfim Neto. Rádio, TV e jornal à disposição do governo para a grande campanha nacional de imobilização dos pobres e paupérrimos.   A SOLUÇÃO PARA O BURACO BRASILEIRO!

 

PROJETO: ESQUADRÃO HERODES

(ou ide a ele as criancinhas ou que pelo menos sumam daqui)

Art. 1 – Dissolvam-se os esquadrões da morte (EM) e congêneres em todos os estados da federação. Seus nobres integrantes serão colocados à disposição dos respectivos Departamentos de Limpeza Pública (DLP) das prefeituras municipais.

Art. 2 – Crie-se o Esquadrão Herodes (EH). Os membros desta força de elite serão recrutados entre os membros dos recém extintos EM, agora à disposição dos DLP.

Art. 3 – Da organização do Esquadrão Herodes (EH);

  • 1 – Os EH serão subordinados aos DLP;
  • 2 – O comando do EH de cada município ficará a cargo de um superintendente (SEH), podendo este ser civil, militar ou general;
  • 3 – Cada EH será composto por, no mínimo 200 (duzentos) comandos independentes, denominados Comandos Pilatus (CP), subordinados diretamente ao superintendente (SEH) do Esquadrão Herodes (EH) do respectivo município;

I – A identificação de cada Comando Pilatus (CP) será feita com numeração em algarismos romanos, em homenagem ao romano Poncius Pilatus, conforme Comando Pilatus Quinze: CP-XV; Comando Pilatus cento e oitenta e oito: CP-CLXXXVIII;

  • 4 – O cargo de superintendente (SEH) dos EH será de confiança do atual dono da pátria ou, em caso de delegação especial deste, do atual dono do estado ou, em caso de delegação especial deste, do atual dono do município ou, em caso de delegação especial deste, de um seu amigo.
  • 5 – Cada Comando Pilatus (CP) será constituído por 3 (três) membros, denominados saneadores;
  • 6 – Em cada Comando Pilatus (CP) haverá um comandante, o saneador mor (SM) e dois assessores, os saneadores juniores (SJ).

Art. 4 – Do equipamento de trabalho dos Esquadro Herodes (EH);

  • 1 – Do material rodante dos Comandos Pilatus;

I – Um veículo blindado sobre pneus modelo Cascavel ou similar;

II- Três motocicletas de, no mínimo, 400 cc (quatrocentas cilindradas), uma para cada saneador;

III – Um carro funerário cinza, modelo Ford Belina ou similar;

IV – Uma carreta acoplável à traseira do veículo blindado com dimensões suficientes para acomodar todo o equipamento encontrado em §2 e o veículo definido em §1 – III;

V – Em todos estes veículos é vedada a instalação de sirenes ou similares;

  • 2 – Do material de defesa pessoal dos Comandos Pilatus (CP);

I – Os equipamentos inerentes aos veículos blindados;

II – Três bazucas, uma para cada saneador, com farta munição;

III – Uma metralhadora pesada, de uso exclusivo do saneador mor (SM);

IV – Três pistolas automáticas calibre 45, uma para cada saneador, com farta munição;

V – Três revólveres calibre 38, cano curto, um para cada saneador, com farta munição;

VI – Três pistolas automáticas calibre 6,25, uma para cada saneador, com farta munição;

VII – Três revólveres oxidados calibre 22, um para cada saneador, com farta munição;

VIII – Três metralhadoras leves, portáteis e com baioneta, uma para cada saneador, com farta munição;

IX – Três punhais de lâmina longa, 30 cm (trinta centímetros), cromado e com bainha em couro natural, uma para cada saneador;

X – Três navalhas marca Solingen ou similar com cabo de madrepérola, uma para cada saneador;

XI – Bombas de gás lacrimogêneo e bombas de efeito moral em número suficiente para dispersar multidões de até 10 000 pessoas;

  • 2 – Do fardamento dos Comandos Pilatus (CP);

I – O fardamento, a ser chamado exclusivamente de Uniforme, será composto de calça, camisa, jaqueta, cinto, meias e sapatos brancos;

II – Ao lado esquerdo da camisa e da jaqueta será bordado o brasão de armas do Esquadrão Herodes;

III – O brasão de armas do Esquadrão Herodes será formado por uma caveira com uma chupeta na boca. Cruzando sobre a caveira, em ângulo de 45 graus, uma vassoura e uma pá de limpeza doméstica;

  • 2 – Dos meios de comunicação dos Comandos Pilatus (CP);

 

Continua

 

Nota: Em algumas frases são referenciadas situações políticas, trajes, comportamentos e posturas típicas da época em que os diálogos foram escritos, primeira metade da década de 1980. Algumas delas tornaram-se moda, como barba mal aparada, uso de óculos Ray-Ban, governantes incompetentes. Outras, como bons modismos, desapareceram com o passar do tempo ou passaram a ser aceitos devido às mudanças de costumes.

Saúde e alegria a todos

O futuro a Deus pertence 1

Escrito em 1981

Há muito tempo, em um lugar chamado Bral-Búrdia, perdido nos confins da Arábia, daí seu nome, entre as montanhas posteriormente conhecidas como Andes e a grande água, posteriormente conhecida como Oceano Atlântico, viviam povos nômades dispersos por um deserto de árvores e rios caudalosos.

Estes nômades formavam um grupo curioso de nômades. Enquanto os nômades de outros lugares viviam a andar sem se fixar em lugar algum, os nômades de Bral-Búrdia mantinham-se fixos sem se deslocar a lugar algum.

O fator geográfico, desertos verdes com rios caudalosos, aliado à peculiaridade do povo, nômades fixos, conferia ao lugar características únicas entre seus vizinhos. Os habitantes de Bral-Búrdia, chamados de ba-gunços, viviam contentes e produziam o suficiente, o suficiente para manter a taxa de natalidade de Bral-Búrdia como uma das mais altas entre seus vizinhos.

Certo dia as coisas mudaram. Bral-Búrdia foi descoberta. E as coisas deixaram de ser fáceis para os ba-gunços. Logo após o descobrimento chegaram os colonizadores, pessoas cujo único interesse era trazer aos ba-gunços uma cultura avançada e uma religião moderna, monoteísta, sem nada exigir em troca; nada além de tudo o que de bom e de melhor Bral-Búrdia pudesse ter.

Pouco tempo passou e os colonizadores constataram que os ba-gunços não eram muito chegados ao trabalho. Os compreensivos visitantes, que com o tempo passaram a ser conhecidos como visitantes permanentes, concluíram que, face à situação de momento e com os piedosos ensinamentos da religião moderna recém trazida, estava na hora de ensinar os ba-gunços a trabalhar, na porrada. Mantida a situação vigente, os ba-gunços não teriam chance de sobrevivência no mundo que os piedosos visitantes permanentes começavam a impor.

Aproveitando a quase conversão dos ba-gunços à religião moderna, tentou-se durante reuniões conjuntas convencer os ba-gunços que uma enxada na mão ajudava a abrir caminho para o paraíso. O sucesso da tentativa não foi estrondoso, longe disso. Os ba-gunços não conseguiam se convencer das vantagens de se trocar uma cadeira de balanço por uma enxada e, além disso argumentavam descaradamente: – Mim só quase convertido, essa de paraíso mim ainda não entende.

Piedosos, magnânimos, altruístas e interessados em ter empregados que trabalhassem em seu lugar e a custo zero, os visitantes, cada vez mais permanentes, conseguiram finalmente conscientizar os ba-gunços. Estes, de boa vontade e com os arcabuzes às suas costas, resolveram aplainar o caminho para o paraíso com a enxada oferecida pelos visitantes a ir para o inferno mais cedo. Séculos depois este pragmatismo permanece como uma das principais características dos habitantes da outrora Bral-Búrdia.

E assim foi feito. Mas por pouco tempo. Os visitantes permanentes, já quase convencidos de serem os verdadeiros donos da terra, perceberam que os ba-gunços não haviam mesmo nascido para o trabalho, situação que em algumas regiões da outrora Bral-Búrdia permanece até os nossos dias. Obrigados a trabalhar, morriam cedo, na boa vida viviam muito mais tempo. De uma forma ou de outra, não eram produtivos.

Os visitantes permanentes, já autodenominados bagunços, sem ífem para se diferenciarem dos invasores ba-gunços, resolveram importar mão de obra.

Nesta época já existiam alguns estudiosos interessados no que acontecia em Bral-Búrdia. Bral-Búrdia mesmo não tinha estudioso algum, situação que os órgãos públicos procuram manter até hoje. Cientistas e estudiosos de países distantes, alguns sem sequer saber escrever o próprio nome, viajavam para Bral-Búrdia com o objetivo de contribuir para o desenvolvimento da região, ampliar os seus próprios conhecimentos e as suas posses, situação que permanece até os nossos dias. Um desses estudiosos, vindo de uma região distante, apavorado com a incultura, barbárie e incivilização tanto dos invasores ba-gunços, quanto dos habitantes bagunços, jurou que voltaria imediatamente à sua terra, assim que se tornasse milionário. O sábio acrescentou estar ainda decepcionado com o céu noturno de Bral-Búrdia, com um número muito menor de estrelas a iluminar a noite bralburdiana, do que o que ocorria no hemisfério norte.

Outro estudioso, no considerado primeiro trabalho científico sério sobre Bral-Búrdia, escreveu: “É uma terra curiosa, a Bral-Búrdia. O deserto rico em rios caudalosos e vegetação exuberante, o povo nômade fixo desde o início dos tempos, os visitantes permanentes que tomaram o controle total da vida no país, tornam esta terra difícil de se entender. Mas, mesmo assim, devido à sua riqueza em matérias primas e facilidade de adaptação às sugestões impostas pelos bagunços aos ba-gunços e pelos estrangeiros aos bagunços, acredito ser este o país do futuro; frase ouvida até os nossos dias.

Importou-se a mão de obra necessária! Novamente a grandiosidade da religião (deturpada) se impôs.

Continua

 

Saúde e alegria a todos

Diálogos 11

Em Mudanças, de 27.12.15, apresentei as razões que me levaram aos Diálogos. Em Diálogos 1 – preâmbulo, de 10.1.16, iniciei a publicação dos diálogos escritos a partir de 29/3/82.

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 Adendo

Nem sempre o que se escreve retrata a nossa crença.  Às vezes retrata uma reação a um estado de coisas tornado inaceitável e que ao ser apresentado na forma de aberração objetiva demonstrar o desconforto de quem escreve. O que aqui se inicia retrata a minha crença de 1982, que se mantém em 2016 e se manterá para sempre. O que escrevi sobre o Esquadrão Herodes, a ser estruturado nos Diálogos 12 e 13, expresso pelo debatedor P1, corresponde exatamente ao descrito nas duas primeiras frases. O Esquadrão Herodes foi escrito em 1981 e é uma reação ao que se fazia à época e se mantém até hoje e que levou ao estado de insegurança plena em que agora vivemos, isto é, poderia muito bem ter sido escrito hoje. O Esquadrão é uma proposta de solução simples e absurda, típica dos desejos do poder constituído, melhor chamado de poder incompetente, a qual eu jamais apoiaria. Este poder incompetente não atua para resolver problemas, quaisquer que sejam eles, desde sempre. O problema de segurança, porém, deve ser computado quase integralmente aos omissos que governam o estado de São Paulo e os demais estados  e o próprio Brasil desde a década de 1950. Os governadores de São Paulo estão indicados a seguir. Jânio da Silva Quadros (1955-1959), Carlos Alberto de Carvalho Pinto (1959-1963), Ademar Pereira de Barros (1963-1966), Laudo Natel (1966-1967), Roberto de Abreu Sodré (1967-1971), Laudo Natel (1971-1975), Paulo Egydio Martins (1975-1979), Paulo Salim Maluf (1979-1982), José Maria Marin (1982-1983), André Franco Montoro (1983-1987), Orestes Quércia (1987-1991), Luis Antônio Fleury Filho (1991-1995), Mário Covas (1995-1999) (1999-2001), Geraldo Alckmin (2003-2006), Cláudio Lembo (2006-2007), José Serra (2007-2010), Alberto Goldman (2010-2011), Geraldo Alckmin (2011-2015) (2015 – em exercício) (1). O governador de São Paulo pleiteia candidatar-se à presidência do Brasil, o ex-governador Serra, hoje ministro das relações exteriores, também pleiteia a candidatura à presidência. O ex-governador de Minas Gerais, Aécio Neves, idem. O ex-presidente da República, Luís Inácio Lula da Silva pretendia. Estamos bem, Brasil.

Final

 

P2. Também um crime os seus versinhos. Mudando de assunto, o que você pensa sobre a criminalidade no Brasil?

 

P1. Incapacidade do governo, apenas. Recursos para acabar com o a criminalidade existem, tanto materiais quanto logísticos. Falta apenas um pouco de criatividade, só isso.

P2. Concordo em parte. Não há dúvida que falta criatividade ao governo, e muito mais, mas você não deve esquecer que a situação da economia brasileira é pouco confortável. Não há dinheiro disponível para obras sociais, o que há está disponível para pagar dívidas e juros de dívidas. Além disso os recursos; também para pagar viagens de ministros conseguirem novas dívidas, digo empréstimos, para pagar velhas dívidas, servem para pagar a propaganda para convencer o povo de que as dívidas foram feitas em seu benefício (do povo, não da propaganda). Com que dinheiro, então, resolver o problema? Não há dinheiro disponível para obras sociais, o que há está disponível para pagar dívidas internas, isto é, enriquecer mais e mais os bancos credores e os corruptos do Brasil (versão 2016).

P1. Calma! O problema da criminalidade no Brasil é para ser resolvido ao longo do tempo. Pelo menos em uma geração, cerca de 25 anos. Se correr tudo bem, os primeiros resultados serão sentidos em cerca de 10 anos a partir da implantação de meu projeto. E os gastos para colocar o projeto em movimento seriam insignificantes, pois toda a infraestrutura já está â disposição. E paralelamente uma série de outros benefícios sociais adviriam. Redução da pobreza, redução dos bairros periféricos, redução do índice de natalidade, aumento da renda per capita do país, aumento do número de veículos per capita no país, aumento do número de eletrodomésticos per capita no país, aumento do número de políticos per capita no país, aumento do número de tudo per capita no país, aumento até do per capita per capita no país. Uma maravilha!

P2. Você não deve se esquecer que o controle da natalidade é mal visto no Brasil.

P1. E que nós somos o maior país católico do mundo. E que a Igreja Católica condena o controle da natalidade. Eu sei! Mas o meu projeto não se relaciona com controle de natalidade, ou melhor, nada tem a ver com isso.

P2. A única forma de aumentar o qualquer coisa per capita é reduzir o número de capitas no país. Ou então aumentar o produto …

P1. Nada de aumentar o produto nacional bruto ou delicado ou o que quer que seja. O meu projeto objetiva reduzir o número de capitas.

P2. Mas então só com controle de natalidade!

P1. Explico o projeto em detalhes. Ele poderia até ser lançado como um dos famosos projetos IMPACTO, que consagraram o milagre brasileiro do primeiro período Delfim Neto. Rádio, TV e jornal à disposição do governo para a grande campanha nacional de imobilização dos pobres e paupérrimos.   A SOLUÇÃO PARA O BURACO BRASILEIRO!

Continua

(1) https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_governadores_de_S%C3%A3o_Paulo

Nota: Em algumas frases são referenciadas situações políticas, trajes, comportamentos e posturas típicas da época em que os diálogos foram escritos, primeira metade da década de 1980. Algumas delas tornaram-se moda, como barba mal aparada, uso de óculos Ray-Ban, governantes incompetentes. Outras, como bons modismos, desapareceram com o passar do tempo ou passaram a ser aceitos devido às mudanças de costumes.

Saúde e alegria a todos

Era uma vez, outra vez

Em Era uma vez, iniciei a saga da Família, criada pelo Guru e comandada, na aparência, pela Matriarca. A primeira parte da saga, publicada em 5.12.15, encerrou-se com a frase:

Paro por aqui, o que aconteceu em 2015 fica para depois. Depois começa agora.

Antes das eleições de 2014, para o reinado 2015-2018, a investigação sobre corrupção em empresas da Família, que não eram da Família, mas que a Família tratava como suas, tomava vulto cada vez maior. E se começava a questionar a honestidade dos irmãos, aqueles que, apesar de não terem laços de sangue poderiam ser da Família, deixá-la e com isso deixar de ser irmão e posteriormente voltar a fazer parte dela, voltando a ser irmão. A pouca habilidade política da Matriarca, rainha reeleita, somada à sua pouca habilidade econômica, acrescida da gastança desenfreada, levaram o reino a uma condição de penúria. Menos de seis meses após a coroação as coisas estavam ruins; muito ruins.

Ainda no primeiro reinado, a rainha havia desenvolvido uma inimizade visceral com um irmão curioso. Este irmão não era irmão e jamais havia sido irmão e possivelmente jamais seria, por jamais haver pertencido à Família nem ter sido ungido pelo Guru, porém negociava com a Família e os irmãos; apesar do ódio mútuo entre ele e a Matriarca. O irmão, que não era nem havia sido irmão, será a partir de agora chamado de Oráculo, com o maiúsculo, por sua capacidade de intuir o futuro. Quando de uma eleição para príncipe de uma das casas legislativas, a Matriarca pretendeu eleger um irmão na ativa. Oráculo já se havia apresentado como candidato. E venceu. O ódio mútuo cresceu. Aproveitando-se de sua capacidade para intuir o futuro, Oráculo cercou-se de incompetentes na chefia da sua casa legislativa, como seria provado em futuro próximo.

Enfraquecida por sua pouca habilidade, a Matriarca isolava-se cada vez mais. A economia afundava. As investigações se aproximavam mais e mais dos luminares da Família, do Guru, da Matriarca. Em determinado momento a casa, ou o palácio ocupado pela Família, estremeceu. A Matriarca foi acusada de crime de responsabilidade, por haver feito o milagre de pagar duas dívidas com o mesmo recurso. Ela precisaria ser retirada da posição que ocupava. Para piorar, o processo contra a Matriarca caiu nas mãos do odiado Oráculo, que poderia, agora, devolver à Matriarca as gentilezas outrora recebidas. E a carroça chegou à ladeira, levada com competência, honestidade (incomum nele) e prazer pelo Oráculo.

Neste momento, o Guru estremeceu mais do que o palácio. O seu nome, o seu legado, as suas aspirações de substituir a Matriarca em futuro próximo, estavam em perigo. O desemprego aumentava, a economia afundava, as perspectivas futuras se desfaziam. E ninguém perguntou ao Guru onde ele havia visto a competência na Matriarca para impô-la à Família na condição de rainha.

O Guru pôs-se a campo e passou a governar no lugar da Matriarca. Passou a negociar com a classe política uma forma de manter a Matriarca que, naquele momento estava completamente perdida e isolada. A investigação sobre corrupção na empresa da Família, mas que não era dela, expõe que, apesar das negativas, o Guru faz parte sim da Família. São divulgadas propriedades de alto valor do Guru que não estão em seu nome. Tais posses são confirmadas por altos executivos de empresas envolvidas na corrupção das empresas da Família, mas que não eram dela. A partir daí o Guru passou a estar sob risco de prisão. Em um ato desvairado, a Matriarca nomeia o Guru ministro. Em um segundo ato desvairado, ou muito burro segundo alguns, ela liga para o Guru. Por meio de uma mensagem em código aberto, pois todos a entenderam, ela o informa que o termo de posse estava sendo levado para ele, mas somente poderia ser usado em caso de necessidade (prisão) (2). Ministros não podem ser presos pela polícia, pois gozam de “foro privilegiado” ou, como escreveu George Orwell “são mais iguais”. O texto abaixo corresponde ao telefonema entre a Matriarca e o Guru, onde ela, mais uma vez, mostra a sua dificuldade em se explicar por palavras.

Dilma: “Alô.”

Lula: “Alô.”

Dilma: “Lula, deixa eu te falar uma coisa.”

Lula: “Fala, querida. Ahn?”

Dilma: “Seguinte, eu tô mandando o ‘Bessias’ junto com o papel pra gente ter ele, e só usa em caso de necessidade, que é o termo de posse, tá?!”

Lula:  “Uhum. Tá bom, tá bom.”

Dilma: “Só isso, você espera aí que ele tá indo aí.”

Lula: “Tá bom, eu tô aqui, fico aguardando.”

Dilma: “Tá?!”

Lula: “Tá bom.”

Dilma: “Tchau.”

Lula: “Tchau, querida.”

No dia seguinte a gravação é divulgada, pois havia escuta da Polícia nos telefones dos envolvidos no caso das empresas, aquelas que eram, apesar de não serem. O Guru não toma posse.

A derrocada se acelera. Em mais uma tentativa desvairada, os membros da Família, em uníssono, bradam sem descanso que o processo de destituição da Matriarca é um golpe.

A casa legislativa, presidida por um Oráculo feliz, acata o processo de destituição. A Matriarca deixa o seu trono, o Guru desparece, a Família deixa o poder. Dias depois o Oráculo é destituído por corrupção e substituído pelo seu sucessor natural. O sucessor, para reafirmar a intuição do Oráculo (cercar-se de incompetentes), mostra absoluta incompetência desde o seu primeiro instante na presidência e anula a sessão da casa legislativa que acatou o processo de destituição da Matriarca. Horas depois ele anula a anulação.

Este texto foi escrito há cerca de 10 dias, hoje sendo 25.5. Estamos sob nova direção, como se lê em botecos, lojas e outros estabelecimentos comerciais quando da troca de proprietários. A matriarca esperneia, o Guru se mostra magoado. O novo rei, antigo vice-rei, melhorou em muito o nível da língua portuguesa no governo. Esperemos que não fique só nisso. Melhor esperar.

Sugestões: Acessem as referências (1) e (2) para ler e ouvir as conversas entre o Guru e a Matriarca e o Guru e alguns de seus fiéis seguidores.

 

 

(1) https://pt.wikipedia.org/wiki/Opera%C3%A7%C3%A3o_Lava_Jato

(2) http://g1.globo.com/pr/parana/noticia/2016/03/pf-libera-documento-que-mostra-ligacao-entre-lula-e-dilma.html

(3) http://g1.globo.com/politica/operacao-lava-jato/noticia/2016/03/grampo-de-lula-43-13h02.html

 

Saúde e alegria a todos