Diálogos 10

Em Mudanças, de 27.12.15, apresentei as razões que me levaram aos Diálogos. Em Diálogos 1 – preâmbulo, de 10.1.16, iniciei a publicação dos diálogos escritos a partir de 29/3/82.

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Julho de 1982

P1. O tempo passou, o mundo continua o mesmo, sem grandes novidades …

 

P1. O tempo passou, o mundo continua o mesmo, sem grandes novidades. A monotonia começa a ser opressiva, sequer podemos reclamar da chuva irritante dos verões passados; não chove e o tempo está lindo. E para movimentar o pessoal do Instituto, nada. Nada além da já desinteressante matança no Oriente Médio. Só nos resta continuar o nosso diálogo.

P2. É isso aí, ainda mais depois da carta recebida ontem expondo as perspectivas futuras para o Brasil. Uma loucura, não achas? O que escreve ficou quase pirado, abalado com certeza!

P1. E hoje já desandou a estudar como um doido. Parece trouxa, tentando recuperar o tempo desperdiçado. Não sei porque ele fica tão indeciso em partir para o trabalho.

P2. Fale baixo senão ele escreve em vermelho! Mas, respondendo a sua dúvida, acredito que agora vai.

P1. Espero! Quanto a falar baixo, não há problema. O trouxa tomou uma cerveja e está com sono. Ele agora escreve o que dissermos, sem pensar muito a respeito.

P2. Mesmo assim. Mas você viu como anda a situação no Brasil? A coisa anda feia!?

P1. Que coisa? A política? A economia? O desemprego? A sem-vergonhice? A manipulação? A pobreza? Tudo e mais alguma coisa? O que?

P2. Agressividade desnecessária. Tudo, absolutamente tudo, como também cada coisa em separado. A política, por exemplo, está parecendo uma piada. Pelo menos vista daqui da Alemanha.

P1. De perto deve estar parecendo duas piadas.

P2. Todos fazem convenções, todos fazem festas, o governo trapaceia, a oposição não se entende. O povo, incapaz de se interessar por algo tornado propositalmente desinteressante para não atrair o seu interesse, não está nem aí. Até me lembra versos do Juca Chaves:

Todos falam

Poucos ouvem

A verdade é sempre igual

É que existe um só …

Para mil …

P1. O que significam os pontinhos? Na letra original tem-se Beethoven inicialmente e Carlos Imperial a seguir. Isto é, um ótimo e um péssimo compositor.

P2. É que eu queria dois políticos para as reticências, mas não é fácil achar um bom exemplo entre eles, ainda que rime com ouvem.

P1. Mas maus exemplos que rimem com igual temos aos montes.

P2. Sem mais. Temos maus exemplos para rimar com qualquer coisa. Desde canivete, que rima com “virgem Margareth” (Margareth Thatcher) até balde, que rima com “cowboy Ronald” (Ronald Reagan).

P1. As rimas são criminosas, mas até que vão bem.

Por exemplo:

O presidente dos Estados Unidos

É uma merda, um balde

É o cowboy Ronald

Melhor se em mineirês:

U presidentchi duis Estados Unidos

É ua méuda, um baudgi

É o couboi Ronaudgi.

P2. Também um crime os seus versinhos. Mudando de assunto, o que você pensa sobre a criminalidade no Brasil?

Continua

 

 

Nota: Em algumas frases são referenciadas situações políticas, trajes, comportamentos e posturas típicas da época em que os diálogos foram escritos, primeira metade da década de 1980. Algumas delas tornaram-se moda, como barba mal aparada, uso de óculos Ray-Ban, governantes incompetentes. Outras, como bons modismos, desapareceram com o passar do tempo ou passaram a ser aceitos devido às mudanças de costumes.

 

Saúde e alegria a todos

Enganações 2

Há muitas frases proferidas por Luiz Inácio Lula da Silva. Abaixo são encontradas algumas (1).

Tem gente que não gosta do meu otimismo, mas eu sou corintiano, católico, brasileiro e ainda sou presidente do país. Como eu poderia não ser otimista?

 Mais do que nunca, sou um homem de uma causa só. E esta causa se chama Brasil.

 Se tem uma coisa que eu me orgulho, neste país, é que não tem uma viva alma mais honesta do que eu.

 Gostaria de poder fazer algo sobre a corrupção no país. Se dependesse de mim, todos estes deputados corruptos estariam na cadeia.

 Olha para a minha cara para ver se eu estou preocupado.

 Ninguém neste país tem mais autoridade moral e ética do que eu para fazer o que precisa ser feito.

 Se tem um governo que tem sido implacável no combate à corrupção, desde o primeiro dia, é o meu governo.

 Um Lulinha incomoda muita gente, uma Dilminha incomoda muito mais. (esta não é mentira)

Há um sem número de frases atribuídas a Abraham Lincoln. A seguir, uma delas (1).

abraham_lincoln_pode_se_enganar_a_to_nl

 

 

(1) http://pensador.uol.com.br/

(2) http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/03/160304_entenda_investigacao_lula_lgb

Saúde e alegria a todos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Enganações 1

Há um sem número de frases atribuídas a Abraham Lincoln. Esta abaixo é uma delas (1).

 

 

Há um sem número de frases proferidas por Luiz Inácio Lula da Silva. Acima está uma delas (1).

Esta frase pode ser atualizada da seguinte forma:

“No Brasil é assim: quando um pobre rouba, vai para a cadeia, mas quando um rico rouba ele vira ministro (Lula, 1988), ou não (STF, 2016)”.

 

(1) http://pensador.uol.com.br/

Saúde e alegria a todos

 

 

Diálogos 9

Em Mudanças, de 27.12.15, apresentei as razões que me levaram aos Diálogos. Em Diálogos 1 – preâmbulo, de 10.1.16, iniciei a publicação dos diálogos escritos a partir de 29/3/82.

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P2. Sinto-me povo! SINTO-ME POVO! SOU POVO!

P1. Lógico que você é povo; qual outra coisa poderias ser?

Você é político? Não!                    Você é militar? Não!

Você tem parente bem situado? Não!                 Você tem parente político? Não!

Você é jogador de futebol? Não!            Você é técnico de futebol? Não!

Você é dirigente de time de futebol? Não!                     Você é juiz de futebol? Não!

Você é candidato a alguma coisa? Não!                          Você é parente de candidato? Não!

Você foi candidato a alguma coisa? Não!                        Você foi parente de candidato? Não!

Você é funcionário público não concursado? Não!

Você é parente de não concursado? Não?! INCRÍVEL!!!!

Em caso de problemas, você tem quem dê um jeitinho? Não!

Você é artista? Não!                      Você é cantor? Não!

Você é compositor? Não!                           Você é festivo? Não!

ÚLTIMA CHANCE             Você é BAIANO? NÃO!!!!!!

Então você é nada, ABSOLUTAMENTE NADA!

P2. Sou povo! Sou povo! Sou povo! Azar nosso, não é?

P1. Porque azar nosso? Temos liberdade de pensamento, temos liberdade para expressar a nossa opinião, temos liberdade de ir e vir. O que mais precisamos?

P2. E quando a coisa não funciona bem, isto é, não funciona como ele quer, o que escreve nos manda calar a boca em vermelho. E na versão digitada, em vermelho e com fonte diferenciada! (Diálogos 8)

P1. Não se preocupe, se o diálogo for publicado, a participação dele será censurada. Censores não gostam da cor vermelha. Ele não aparecerá.

P2. Não sei não, ele não é povo, sabia?

P1. É? E o que ele tem dos pré-requisitos acima para não ser povo?

P2. Muito, muito. Ele não pertence a qualquer instituição acima da lei, mas dizem que ele tem amigos influentes. Sabe, aquele pessoal que na hora do aperto ajuda a soltar o cinto?

P1. Conversa, ele é um reles professorzinho. Mas mesmo assim é melhor não ficar tendo ideias bobas em voz alta. Se ele entender que o vermelho pode complicar, ele passa a escrever os nossos diálogos em vermelho.

P2. Você percebeu que nós falamos, falamos, falamos, e ainda não comentamos a nossa situação atual?

P1. Qual situação atual?

P2. Esta situação que vivemos aqui. O Raabe, a Alemanha, o trabalho, o desânimo, o desinteresse, tudo.

P1. Melhor nem comentar. Se não falamos a respeito as coisas permanecem na penumbra; a tristeza continuará latente, mas não presente, apenas alfinetando de quando em vez, mas sem sangrar. Se começamos a falar muito a depressão poderá atingir limites insuportáveis. Deixa para mais tarde.

P2. É isso. Chega por hoje?!

 

Julho de 1982

 

P1. O tempo passou, o mundo continua o mesmo, sem grandes novidades …

 

Continua

 

Nota: Em algumas frases são referenciadas situações políticas, trajes, comportamentos e posturas típicas da época em que os diálogos foram escritos, primeira metade da década de 1980. Algumas delas tornaram-se moda, como barba mal aparada, uso de óculos Ray-Ban, governantes incompetentes. Outras, como bons modismos, desapareceram com o passar do tempo ou passaram a ser aceitos devido às mudanças de costumes.

 

Saúde e alegria a todos

Diálogos 8

Em Mudanças, de 27.12.15, apresentei as razões que me levaram aos Diálogos. Em Diálogos 1 – preâmbulo, de 10.1.16, iniciei a publicação dos diálogos escritos a partir de 29/3/82.

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P1. Mesmo ideias nada tendo a ver com goiabada.

 

P2. Falou-se, falou-se, falou-se e não se chegou a alguma conclusão. Muda-se o bendito tracinho ou acaba-se com ele? (originalmente foram colocados travessões indicativos de fala, abandonados na digitalização, e os debatedores eram identificados por 1 e 2)

P1. Exijo um plebiscito, algo mais democrático que um plebiscito não existe.

P2. Objeção levantada. Temos duas pessoas envolvidas e um plebiscito entre duas pessoas pode levar a um empate, um a um. E daí o que fazer? Continuaremos sem solução, enquanto os tracinhos permanecem.

P1. Convocamos um árbitro e ele dará a solução final.

P2. Essa história de árbitros só acaba em guerras. Nem o papa consegue se apresentar como um árbitro acatável. Também a infalibilidade papal já foi para o buraco

P1. Votemos antes de continuar a discutir. Naquele canto podemos montar a cabine indevassável, apesar de aberta, e a urna para o voto secreto.

P2. Mas para que?. Somos dois e partindo-se do pressuposto que eu sei e não esquecerei do meu voto, o seu voto já me é conhecido. Ou se pratica democracia plena ou ela não existe. Democracia relativa é o mesmo que beber pinga para curar bebedeira; não funciona.

P1. Pronto, aqui estão e os envelopes. Você vá ao banheiro, escreva o seu voto no papel, coloque-o no envelope, volte e jogue o envelope nesta caixa.

P2. Tá bom; assim esse negócio acaba de vez … Pronto, e ainda aproveitei a ida ao banheiro. Sabe que para certas eleições o banheiro é o melhor lugar para a urna? Já votou?

P1. Como, se você estava ocupando a cabine indevassável? Já volto … Agora vamos às apurações. Um voto para retirar o travessão e um voto para manter o travessão; empatou.

P2. Ah! Então você votou para ficar o travessão?

P1. Como assim? Como assim? Como você chegou a essa conclusão?

P2. Ora! Eu votei para retirar o travessão e assim conheço o seu voto!

P1. Jamais! Isto é fraude, a urna indevassável foi devassada! Exijo anulação desta e realização de novas eleições. Isto é fraude, fraude! O voto é secreto, se-cre-to!

P2. Chega, faça o que quiser, chega!

P1. Jamais, não chamarei para mim a responsabilidade que devemos dividir igualmente.

P2. Chega. Ou muda o tema ou paro de dialogar já.

P1. Isto é coação, pressão, desonestidade!

P2. Eu vou embora, já!

P1. Certo! Certo! O travessão permanece. Mas, mesmo assim eu não …

P2. Tchau!

P1. Não! Não! Volte! Prossigamos! O assunto está encerrado.

P2. Pelo contrário, pode-se aprender alguma coisa com o ocorrido.

P1. Agora quem some sou eu!

P2. Muito pelo contrário! Mudaremos de assunto mantendo o mesmo tema.

P1. Maravilhoso, criativo, mas como?

P3. Chega de conversa fiada, quem manda aqui sou eu, o que escreve. Não vocês, simples pensadores inexpressivos!

P1. Viu? Viu? É isso aí, quem disse ser a espada mais forte que a pena? Quem escreve detém o poder, não o mais forte!

P2. Ainda mais quando além de escrever detém ainda o poder de coação! Quem faz detém o poder, não quem pensa!

P1. Você reparou que os tracinhos se foram? E nós passamos a ser numerados? Numerados como gado em curral, engordando para o matadouro. E o nosso plebiscito sequer foi considerado!

P2. Sinto-me povo! SINTO-ME POVO! SOU POVO!

P1. Lógico que você é povo; qual outra coisa poderias ser?

Você é político? Não!                    Você é militar? Não!

Continua

 

 

Nota: Em algumas frases são referenciadas situações políticas, trajes, comportamentos e posturas típicas da época em que os diálogos foram escritos, primeira metade da década de 1980. Algumas delas tornaram-se moda, como barba mal aparada, uso de óculos Ray-Ban, governantes incompetentes. Outras, como bons modismos, desapareceram com o passar do tempo ou passaram a ser aceitos devido às mudanças de costumes.

 

Saúde e alegria a todos

Eu só queria encher o copinho!

Há algo de errado comigo. Em condições normais cochilo em frente à TV depois de algum tempo tentando achar algo interessante. Nas condições atuais durmo pesado alguns segundos após sentar.

Devo fazer o exame de urina pós cirurgia, alguns dias após a retirada da sonda. As condições para exame são simples: duas horas sem urinar. Para crianças, adolescentes e adultos de todas as idades nenhum problema. Nenhum problema desde que não tenham menos de três anos ou tenham curtido sonda na bexiga. No segundo caso a bexiga trabalha sob fluxo contínuo; chegou passou. Retirada a sonda, a bexiga demora um pouco para entender que o fluxo não pode mais ser contínuo.

Planejo as ações com precisão. Devo sair de casa para o laboratório cerca de meia hora antes de completar as duas horas regulamentares. O trajeto até o laboratório demanda quinze minutos, mais quinze para fazer a ficha e mais uns cinco para ser chamado para a coleta. Perfeito!

Laboratório mais cheio do que o normal e os quinze minutos para fazer a ficha se alongam e as duas horas se completam. À época o meu recorde entre dois atendimentos subsequentes de chamados líquidos da natureza estava em uma hora e meia, sem stress, ou duas horas com sérias ameaças de vazamento. Ficha feita, aguardo o chamado, não o da natureza, mas para a coleta. O tempo passa, a natureza brada cada vez mais alto, e apenas eu a ouve. Volto à atendente e explico-lhe ter tirado a sonda há poucos dias etc. etc…. Ela liga para o setor de coleta e expõe o meu caso. O tempo passa e a natureza brada mais alto ainda. Finalmente chamam o meu nome. O último entre cerca de dez outros. Mau sinal. Subo dois lances de escada sem problemas. Em caso de vazamento eu estava com um absorvente poderoso. Uma simpática jovem, de cara amarrada e visível mau humor e uma segunda, sorridente, fazem o trabalho de coleta, na maioria de sangue. O meu é urina. A jovem sorridente está sempre ocupada, a simpática, entre um e outro atendimento, desloca-se pela sala a passos de tartaruga perneta. A natureza informa que haverá problemas. Dirijo-me à simpática e explico-lhe o meu caso. Depois de uma careta de reprovação ela procura a minha ficha, etiqueta o frasco e me indica o banheiro. Desloco-me lentamente para o banheiro. A natureza informa que os passos não podem ser largos. Entro, fecho a porta e retiro o calção branco, lembre-se do branco, que eu vestia. Ouço um grito: LIBERDADE. Na condição de controle zero, lavo o chão do banheiro, o calção, minhas pernas, a sandália, paredes, mas encho o frasco. Visto um novo absorvente, subo o calção cinza, fecho o frasco e saio, cuidando para não escorregar. Sinto as pernas grudentas. Não vejo a simpática, a quem deveria devolver o frasco. Sorte dela, pois talvez eu o devolvesse aberto e sobre a sua cabeça. Azar da sorridente. Entro no cubículo onde ela iria iniciar mais uma coleta de sangue e disparo: Apesar de ter avisado, vocês conseguiram que eu urinasse sobre mim e lavasse o chão do banheiro. A sua colega sumiu e eu preciso entregar este frasco a alguém para poder ir para casa tomar banho! A cliente olhou, a sorridente parou de sorrir e em segundos foi ao cubículo da simpática e voltou com o recibo. E eu só queria encher o copinho!

Sete dias depois da coleta; houve o carnaval entre coleta e resultado; confirmou-se infecção urinária, comum devido aos dias com sonda.

Dez dias de antibiótico e seis dias após a finalização de sua ingestão fui para um novo exame de urina.

Voltei ao laboratório do primeiro exame. Nesta altura já não mais usava o absorvente poderoso e conseguia controlar a urina por mais de duas horas. Mantive o planejamento como da primeira vez. Havia um número menor de pessoas no laboratório, informei à atendente de minha condição de recém operado, ela ligou para o pessoal da coleta e aguardei. A natureza estava tranquila. Chamaram umas dez pessoas para se dirigir à coleta no segundo andar e meu nome não foi citado. Lá vamos nós, de novo?! Segundos depois pedem para eu me dirigir ao primeiro andar. O frasco está etiquetado me esperando e me indicam o banheiro do andar. Enchi o copinho sem inundações.

Cinco dias depois, o resultado indica a presença de infecção com a mesma bactéria. Envio ao médico e ele me informa que o procedimento de praxe de realizar o antibiograma não foi feito. Devo repetir o exame, agora com pedido explícito de antibiograma. Ele sugere dois laboratórios de um mesmo grupo, que eu não havia procurado anteriormente apenas por comodidade e porque o anterior goza de bom nome. Ou gozava de bom nome, ao menos comigo.

Repito o planejamento, agora iniciando-o mais cedo por razões de distância. Acordei cedo, 5:00 da manhã. Havia dormido pouco e parecia que eu estava digerindo o boi, com chifre e tudo, que eu não havia comido às altas horas da noite anterior. Higiene pessoal, banho, frutas, pois o sabor de chifre queimado continuava na boca e estava pronto para encher o copinho, conforme o planejado. Última gota à 5:30, coleta às 7:30.

Olhei o relógio, cedo demais. Devo esperar para não chegar antes das portas se abrirem. Na TV o nada de sempre; séries óbvias, esporte em VT com futebol entre um time do Uzbequiristão do Norte ou de outro lugar e outro das Ilhas Fugir, com jogadores de terceira linha. Desligo e vou para o computador; sem vontade ou sem saber o que fazer, não por falta do que fazer, mas por falta de vontade de fazer. Há dias já havia voltado às condições de dormir pesado alguns segundos após sentar. Entre a indecisão de ver TV e ir ao computador, finalmente o relógio indica 6:45. Saio de casa com meia garrafinha de água. O trânsito não ajuda, seja por excesso de veículos, seja por falta de competência dos motoristas. Estaciono na porta do laboratório. Antes de sair do carro, chega-se a mim o manobrista e informa constrangido que a unidade estava sem sistema, a previsão de retorno era para as quatro horas da tarde e que eles estavam indicando a unidade do Metrô Carrão como alternativa. Metrô Carrão esquece, pensei eu, e engatei ré. Desisti. A natureza estava calma, mas já eram 7:45 e até eu chegar a algum lugar, poderia não dar tempo. Sai do carro entrei na unidade; ninguém, sejam funcionários, sejam clientes. Saí do banheiro. Três funcionárias a postos em frente aos monitores e dois clientes sentados. Perguntei se a previsão não era de retorno do sistema às quatro da tarde. Está lento, foi a resposta. Agora não adianta mais para mim, comentei. Afinal as duas horas sem urinar haviam se reduzido para dois minutos. Uma segunda atendente pergunta se eu havia comido algo, o que inviabilizaria muitos exames de sangue. Senti vontade de responder que sim, havia me dirigido ao banheiro para o café da manhã, mas apenas respondi que o exame era de urina. Saí e resolvi ir para a unidade de Santo André. Antes passei pelo trabalho, pois deveria fazer a coleta após as 9:45.

E lá vamos nós, com a ajuda do Waze. Chego ao Hospital Brasil às 9:30. Deixo o carro com os manobristas e me dirijo ao laboratório. Prédio anexo ao hospital, novo ou recém reformado. Entro, pego a senha preferencial e olho em volta. Umas setenta cadeiras na sala de espera, ocupadas; muitas pessoas em pé. Preferenciais não faltavam, distribuídos entre idosos, recém-nascidos e futuras mães. Nas condições da sala de espera, preferenciais ou não, o tempo de espera seria longo. Levanto a cabeça e leio: Sistema com lentidão. Retornei ao estacionamento e paguei R$15,00 por 15 minutos.

Ainda havia uma esperança em Santo André, na avenida D. Pedro II. Lá fui eu, orientado pelo Waze. É do mesmo grupo e o sistema talvez seja o mesmo. Desisti. Retornei ao trabalho em São Caetano.

E eu só queria encher o copinho!

Dia seguinte volto cedo ao primeiro posto. Estaciono, saio e pergunto ao manobrista se o sistema está operacional. Estava. Ficha, recebimento do recipiente, coleta e devolução; quinze minutos. Enchi o copinho! E não será a última vez.

 

Saúde e alegria a todos

Diálogos 7

Em Mudanças, de 27.12.15, apresentei as razões que me levaram aos Diálogos. Em Diálogos 1 – preâmbulo, de 10.1.16, iniciei a publicação dos diálogos escritos a partir de 29/3/82.

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P1. Mesmo assim foi uma vitória.

P2. Eu diria que os ingleses podem afirmar terem ganho a guerra da Malvinas-Falklands, como dizem que ganharam a II Guerra Mundial. Como a II Grande Guerra foi o início do fim para a Inglaterra, pode ser que as Falklands seja o final do fim. Pelo menos a estação intermediária já é. [1]

P1. Relendo o que já foi escrito, pode-se dizer que dialogamos bastante.

P2. É verdade.

P1. Só que nisso tudo, duas coisas chamaram a minha atenção. Uma delas é que um de nós domina um assunto enquanto o outro pouco contribui para ele. Mudado o assunto, muda o dominador.

P2. Isto é o que se poderia chamar de “alternância no poder”. Base da democracia desejada publicamente por todos e odiada em silêncio pelas “situações” no poder.

P1. Engano! Os nossos diálogos podem simular uma alternância de poder, mas uma alternância falha, pois a participação da oposição é muito fraca.

P2. Perfeito. Este tipo de alternância de poder praticado nos nossos diálogos é o odiado publicamente pela oposição e desejado ardentemente e em silêncio pela situação. É uma prática comum em muitos lugares.

P1. Verdade. A outra coisa que não me agradou foi a quantidade de tracinhos à frente das nossas ideias. Parecem ideias traçadas. (originalmente foram colocados travessões indicativos de fala, abandonados na digitalização e os debatedores eram identificados por 1 e 2))

P2. Bom, a partir de agora não se escreve as ideias com travessão.

P1. Pronto já partiste para uma solução unilateral, antidemocrática, ditatorial, ao impor uma solução, a sua solução, para um problema levantado por mim. Já que nós dois trocamos ideias e são as nossas ideias escritas com travessão, nada melhor do que uma solução negociada entre os afetados pelo problema.

P2. Não precisa ser tão didático! Afinal a única solução para o teu problema é aquela que eu apresentei. Assim, não há necessidade de discutir o que quer que seja. Sendo única a solução, esta deve ser posta em prática imediatamente. Tempo é dinheiro e não se deve ficar discutindo o que está resolvido de antemão. Além disso, enquanto discutimos os tracinhos indesejados por você permanecem.

P1. E por falar em didatismo?! A sua solução não é única! Existe ainda a possibilidade de eu me convencer, ou ser convencido, a manter o tracinho, melhor dito, o travessão. Ou então podemos concluir que um outro símbolo ou texto seja melhor que os tracinhos. Dar nomes a nós dois e ao início de cada frase escrever a inicial de cada nome. Ou usar uma letra diferente, gótica por exemplo, para cada um. Ou eleger duas cores, verde e vermelho, e a contribuição de cada um seria redigida com a respectiva tinta colorida.  O grande mal da solução não pensada e não discutida é estar ela limitada ao conhecimento e criatividade de poucos, com chances de não ser a melhor.

P2. Certo, concordo, mea culpa, mea culpa, mea máxima culpa! Só que a proposta das cores, particularmente a vermelha, não é exatamente feliz. Se os nossos diálogos forem algum dia impressos, o escrito em vermelho poderá ser censurado e eliminado independentemente do conteúdo. Uma má embalagem prejudica o produto.

P1. Mesmo ideias nada tendo a ver com goiabada.

Continua

[1] Ao final de Diálogos 6 são encontradas três observações relativas ao escrito no período da guerra das Malvinas; a segunda observação está transcrita a seguir, para corrigir o redigido em 1982.

2. Em 1983 completaram-se 50 anos da chegada dos nazistas ao poder na Alemanha. A TV alemã apresentou durante todo o ano programas relativos ao nazismo e à II Guerra Mundial, em uma frequência de alguns por semana. Tive a oportunidade de assistir a quase todos. A partir de então tenho lido muito sobre a história dos países europeus mais envolvidos na II Guerra, Alemanha e Grã-Bretanha. Devo, a partir do conhecimento adquirido após a redação das palavras encontradas no texto acima, corrigi-las. Os ingleses não ganharam a II Guerra Mundial. Eles impediram, sozinhos, a vitória do nazismo, algo muito mais significativo. O conhecimento adquirido por mim sobre Alemanha e Grã-Bretanha levam-me a respeitá-los muito mais hoje do que o fazia ao início dos anos 80.

Nota: Em algumas frases são referenciadas situações políticas, trajes, comportamentos e posturas típicas da época em que os diálogos foram escritos, primeira metade da década de 1980. Algumas delas tornaram-se moda, como barba mal aparada, uso de óculos Ray-Ban, governantes incompetentes. Outras, como bons modismos, desapareceram com o passar do tempo ou passaram a ser aceitos devido às mudanças de costumes.

Saúde e alegria a todos

O que é bom para …3

O que é bom para um cidadão é bom para o país ou o que é bom para um país é bom para os seus cidadãos?  A discussão foi iniciada na publicação O que é bom para …1, de 28.2.16

A resposta a esta frase é, a meu ver, fundamental para países e seus cidadãos. A partir da resposta, simples, porque as duas alternativas possíveis são auto excludentes, pode-se identificar o relacionamento vigente em qualquer comunidade, de pequeno, médio ou grande porte.

Povos oprimidos, acovardados, desprezados e desrespeitados em seus direitos são a fonte de vida para o despotismo centralizado. Povos submetidos a tais condições são individualistas. Povos individualistas representam a fonte de vida do despotismo difuso. O despotismo difuso é filho do centralizado e não vive sem ele.

E chegamos ao Brasil. O que é bom para cada brasileiro é bom para o Brasil?

O Brasil é despótico desde a proclamação da República. Antes da República havia um Imperador, um possível déspota legalizado. Antes do Império, havia o colonizador, despótico por necessidade. Depois da proclamação alternamos períodos de despotismo centralizado explícito, ou não democrático, com períodos de despotismo centralizado latente ou semidemocrático, com o despotismo difuso sempre presente. O brasileiro é individualista no que tange aos seus interesses, em grande parte por ter sido treinado para se safar das armadilhas dos vários chefões, chefinhos e chefõezinhos ao longo dos vários períodos de democracia incipiente e ditadura pelos quais o país se arrasta desde 1822, ou 1500 se quisermos ir mais longe.

No Brasil isto pode ser confirmado pelo número de constituições federais produzidas a partir da independência: 1. Constituição Luso-Brasileira de 1822; Constituições brasileiras de: 2. 1824, 3. 1891, 4. 1934; 5. 1937, 6. 1946, 7. 1967; 8. 1969; (1). Oito constituições diferentes, seis no período da República para se chegar à nona versão de 252 páginas e 250 artigos, mais 99 disposições transitórias, chamada de Constituição Cidadã de 1988 (2). Não sou advogado e jamais serei, mas penso que uma constituição deve definir as linhas gerais, os conceitos que regulam o funcionamento da sociedade. O detalhamento deve ficar por conta de leis. Na minha opinião de leigo, o número de artigos e o seu nível de detalhes dificulta a condução e o respeito à constituição. Mais um produto do despotismo difuso que comanda e confunde o Brasil desde sempre. Boa parte dos artigos aguarda regulamentação até hoje e os regulamentados já geraram um número imenso de leis, decretos, leis que alteram leis que alteram leis já alteradas por leis etc.

Para não ficar atrás, a Constituição do Estado de São Paulo tem 297 artigos, mais 62 correspondentes às disposições transitórias (2).

Não são constituições, são tentativas de colocar a vida de cada um sob o pleno controle do Estado, como se isso fosse possível. Tentativas frustradas que mantêm o estado como um paquiderme sedado pela quantidade crescente de bobagens burocráticas produzidas pelos chefinhos, sob inspiração, incentivo e apoio dos chefões..

Como um exemplo do ridículo constitucional tem-se uma das disposições constitucionais transitórias do Estado de S. Paulo, 1989 (2): Art.46. No prazo de três anos, a contar da promulgação desta constituição, ficam os Poderes Públicos Estadual e Municipal obrigados a tomar medidas eficazes para impedir o bombeamento de águas servidas, dejetos e outras substâncias poluentes para a Represa Billings. Parágrafo único. Qualquer que seja a solução a ser adotada, fica o Estado obrigado a consultar permanentemente os Poderes Públicos dos Municípios afetados.

A solução adotada foi simples, não mais se bombeia água do Rio Tiete para a Billings via Rio Pinheiros, pois está na constituição do estado; solução obtida em segundos. Bastou informar aos operadores das Estações Elevatórias de Traição e Pedreira que elas não mais deveriam operar bombeando ou cortar a energia para os motores das bombas. O que mudou? Nada, a poluição nos dois rios permanece até hoje.

Como exemplo de despotismo difuso, algo vivido por mim.

Sem entrar em detalhes, em uma das renovações de carteira de habilitação, fui informado que não poderia fazê-lo porque estava com a permissão de dirigir suspensa por quatro meses devido a multas recebidas há mais de cinco anos. Tais pontos não haviam sido computados porque recebidos muito próximo da renovação anterior.  Durante cinco anos nada me foi comunicado. Os pontos estavam corretos, mas o desempenho do Detran foi apenas desonesto. Entrei com recurso contra a ação desonesta de ocultar a informação e na semana seguinte fui ao Ciretran de São Bernardo do Campo. Ao tentar protocolar o pedido de renovação da carteira a atendente me informou não poder receber o pedido devido à suspensão que eu havia recebido. Mostrei o recurso, ainda não julgado. Ela não entendeu. Mostrei no Código Nacional de Trânsito, que havia baixado da Internet e tinha comigo, o artigo que repete a Constituição Brasileira e afirma que não se pode penalizar alguém se há recurso em trâmite acerca da penalidade. Ela pediu-me para aguardar e saiu. Voltou e solicitou que eu fosse conversar com o chefe do plantão, ou algo semelhante. Ele me informou que eu estava com a razão, porém não poderia liberar no sistema a renovação desejada, pois seria penalizado por desrespeitar uma norma do Detran de SP. Perguntei se normas de Detran se sobrepõem à Constituição Federal. Ele disse que não e pediu que eu aguardasse. Voltou e me propôs acompanhá-lo para conversar com o delegado diretor do Ciretran de SBC. A conversa se repetiu e o delegado afirmou que eu estava com a razão, porém a única maneira de eu conseguir fazer a renovação seria entrar com um mandado de segurança. Não entrei com o mandado; o recurso reduziu a minha pena de quatro para dois meses. Durante o período de penalização fiz o exame de reciclagem e não sentei ao volante por um instante sequer. A Alice é que sofreu, tendo de me levar para a USP às quartas, saindo de casa ás 6:00 da manhã. Por sorte eu conseguia carona na volta e ela só precisava me buscar na estação Jabaquara do metrô.

 Em terra desorganizada e despótica, cada um luta por si e todos são enganados por poucos, os poucos que se acomodam no poder. E estes poucos precisam do despotismo difuso para impedir a organização dos cidadãos, únicos com condições de mudar o país.

 (1) https://pt.wikipedia.org/wiki/Hist%C3%B3ria_da_Constitui%C3%A7%C3%A3o_do_Brasil

(2) http://www.imprensaoficial.com.br/PortalIO/download/pdf/Constituicoes_declaracao.pdf

 

Saúde e alegria a todos

Acidente fatal

Top chef destrói carreira promissora

Durante evento culinário reservado, o top chef Atr Palhado provocou um acidente fatal, tendo com isso encerrado bruscamente uma carreira promissora. Ao se movimentar elegantemente entre as centenas de utensílios usados para preparar os acepipes que deram a Atr Palhado renome internacional, um brusco movimento, inesperado pelos comensais presentes ao evento e surpreendente para os utensílios, levou o top chef a esbarrar suave e sutilmente em um copo americano que, desatento, tombou sobre a pia. Ainda desatento durante o tombo, o copo americano não expressou qualquer pedido de socorro e, por não ter alertado o top chef, dele não recebeu auxílio. Tristemente, o copo americano partiu-se em pedaços.

Ouvido pelos comensais, o abalado top chef estranhou que um copo americano não tivesse alertado sobre o risco iminente. Por ser originário dos EUA, país tão preocupado com a segurança de tudo e todos, o copo, americano, deveria, por dever de origem, ter emitido ao menos um HELP em alto e bom som. O top chef considera a possibilidade de abandonar a carreira face ao infausto evento do qual participou.

A família Americano agradece às manifestações de carinho face ao desaparecimento de um de seus componentes, Copo, e pede discrição nas manifestações anti-Dilma e pró-Lula. O local do velório não está definido, porém o enterro de Copo Americano será procedido pela Empresa de Coleta de Lixo do Município onde o evento culinário reservado aconteceu.

Indagado, um dos componentes da família Americano, Carro de Combate, afirmou que o seu parente Copo era ainda mais honesto do que o Lula, denominado pelos próximos (puxadores de saco) de o homem mais honesto do Brasil. Carro de Combate acrescentou ainda que Copo jamais aceitaria um ministério para fugir da justiça, pois jamais precisou disso.

Diálogos 6

Em Mudanças, de 27.12.15, apresentei as razões que me levaram aos Diálogos. Em Diálogos 1 – preâmbulo, de 10.1.16, iniciei a publicação dos diálogos escritos a partir de 29/3/82.

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P1. … Era a confirmação da superioridade europeia sobre a incivilidade latino-americana. A arrogância e a prepotência inglesa, agravada pela inexpressividade do país nos últimos decênios atingiu limites extremos.

 P2. E você viu o que aconteceu dois dias depois: Um foguetinho francês de 60 mil dólares afundou um navio inglês de 250 milhões de dólares. E foram ouvidas na TV alemã (Heute e Tageschau de 5.5.1982) expressões do tipo:

– É, quem diria que eles conseguiriam acertar um navio dos nossos.

– Enquanto os franceses ficarem vendendo armas aos fascistas isso continuará acontecendo.

– Devemos bombardear os aeroportos no continente.

P1. Pois é, faltou apenas respeito para com os argentinos ao início da desavença e agora, premidos pelos fatos, a arrogância não permite aos ingleses e europeus aceitar que, de um lado o tempo dos Hamilton e Nelson já se foi e, de outro, que o inimigo não é tão incapaz quanto o imaginado.

P2. E ser convencido a ceder da forma como os ingleses estão sendo é bem mais doloroso ainda, não?

P1. E como! Pelo que parece a briguinha com a Argentina será o sepultamento definitivo do leão inglês, já desdentado, esclerosado e reumático, mas ainda pretensioso.

P2. E, no que me diz respeito, já não sem tempo. Como os ingleses acreditam que ainda devem manter os argentinos sob pressão, é capaz de perderem um dos dois porta-aviões já vendidos. O que seria mais uma contribuição dos conservadores para o afundamento da ilha na expressividade merecida.

P1. Mas hoje os argentinos capitularam, o que prova a superioridade inglesa.

P2. Talvez, mas o preço pago pela Inglaterra é alto demais. Eles foram para resolver o problema em horas e sem derramamento de sangue inglês ou perda de material bélico e acabaram perdendo navios modernos e muitos soldados. Apesar da capitulação argentina, a desmoralização inglesa é patente, ainda mais somada à falha de planejamento tático, colocando a Marinha como principal arma de ataque e se esquecendo da Aviação. E mais, a demora em levar a Argentina à capitulação depois do desembarque nas Ilhas, apesar da superioridade em equipamento, coloca em dúvida a capacidade inglesa no campo da OTAN. E, acima de tudo, para quem estava com graves problemas econômicos, o que acontecerá agora? Eles necessitam renovar a frota para cumprir o tratado da OTAN, necessitam arcar com os altos custos da guerra e manter o abastecimento das Ilhas.

P1. Mesmo assim foi uma vitória.

P2. Eu diria que os ingleses podem afirmar terem ganho a guerra da Malvinas-Falklands, como dizem que ganharam a II Guerra Mundial. Como a II Grande Guerra foi o início do fim para a Inglaterra, pode ser que as Falklands seja o final do fim. Pelo menos a estação intermediária já é.

 

Observações:

  1. A Guerra das Malvinas ou Falklands War se desenvolveu entre 2 de abril e 14 de junho de 1982 e envolvia a soberania sobre as Ilhas Malvinas ou Falklands, Geórgia do Sul e Sandwich do Sul. O arquipélago é reivindicado desde 1883 pela Argentina, ano em que a Inglaterra tomou posse dele. Saldo final da guerra: 649 soldados argentinos, 255 britânicos e 3 civis mortos (1).
  2. Em 1983 completaram-se 50 anos da chegada dos nazistas ao poder na Alemanha. A TV alemã apresentou durante todo o ano programas relativos ao nazismo e à II Guerra Mundial, em uma frequência de alguns por semana. Tive a oportunidade de assistir a quase todos. A partir de então tenho lido muito sobre a história dos países europeus mais envolvidos na II Guerra, Alemanha e Grã-Bretanha. Devo, a partir do conhecimento adquirido após a redação das palavras encontradas no texto acima, corrigi-las. Os ingleses não ganharam a II Guerra Mundial. Eles impediram, sozinhos, a vitória do nazismo, algo muito mais significativo. O conhecimento adquirido por mim sobre Alemanha e Grã-Bretanha levam-me a respeitá-los muito mais hoje do que o fazia ao início dos anos 80.
  3. Inexpressivos eram os militares golpistas argentinos da época, que enviaram adolescentes mal equipados para serem massacrados nas Malvinas-Falklands. Talvez convencidos pela “vitória militar” obtida contra os seus compatriotas desarmados ou mal armados quando do golpe militar, resolveram eles, os golpistas, invadir um arquipélago sem defesa na esperança de não haver reação do governo inglês. Erraram também aí.

continua

(1) https://pt.wikipedia.org/wiki/Guerra_das_Malvinas

Nota: Em algumas frases são referenciadas situações políticas, trajes, comportamentos e posturas típicas da época em que os diálogos foram escritos, primeira metade da década de 1980. Algumas delas tornaram-se moda, como barba mal aparada, uso de óculos Ray-Ban, governantes incompetentes. Outras, como bons modismos, desapareceram com o passar do tempo ou passaram a ser aceitos devido às mudanças de costumes.

 

Saúde e alegria a todos