Diálogos 21 (o último?)

Em Mudanças, de 27.12.15, apresentei as razões que me levaram aos Diálogos. Em Diálogos 1 – preâmbulo, de 10.1.16, iniciei a publicação dos diálogos escritos a partir de 29/3/82.

 

Posts anteriores relacionados:                 Mudanças          Diálogos 1          Diálogos 2          Diálogos 3      Diálogos 4        Diálogos 5    Diálogos 6        Diálogos 7    Diálogos 8    Diálogos 9    Diálogos 10     Diálogos 11    Diálogos 12      Diálogos 13     Diálogos 14      Diálogos 15      Diálogos 16      Diálogos 17      Diálogos 18      Diálogos 19      Diálogos 20

 

 P2. CLAP, CLAP, CLAP, CLAP.

P1. Agradeço aos aplausos e considero a palestra encerrada. Boa noite!

 

P2. Por que noite? A palestra poderia ser realizada à tarde ou pela manhã!

P1. Minhas palestras para comunidades são realizadas sempre à noite.

P2. Ah! Se tomarmos a classificação acima aos acontecimentos no pós-guerra a coisa fica feia para os políticos em geral. O buraco para onde a economia mundial foi levada por eles e as soluções propostas e tentadas são uma triste prova de termos sido conduzidos por chefetes e gritões.

P1. Estamos em 1984, você já pensou sobre o futuro? Como as coisas se desenvolverão? O que existirá em alguns anos à frente? Como viverão as pessoas, quais serão as condições de vida, qual o relacionamento entre elas, qual a situação da sociedade? Você já pensou se o sistema consumista em que vivemos leva a a algum futuro, se é um modelo para muitos anos mais?

P2. Já. Mas continue.

P1. Quais as perspectivas futuras para um país como o Brasil ou para os países africanos mais desenvolvidos ou para a China, que começa a copiar os mais desenvolvidos? Como brasileiro analiso o nosso caso. Esquecido o passado, já que não adianta chorar o tempo perdido, a situação atual poderia ser considerada pouco aceitável. Acrescido o fato de o país estar endividado até o limite, parece-me interessante aproveitar o momento e tentar transportar o país do final do século 19 para o final do século 20, onde cronologicamente já estamos. A forma de implantar mudanças, porém, deve ser progressiva como se pretendeu implantar a democracia, porém com sensibilidade e capacidade de análise dos seus efeitos. Exatamente o contrário do que está sendo feito com a democracia.

P2. Para tanto, precisaríamos de um líder no comando, ou pelo menos de um bom chefe. Alguém com capacidade, sensibilidade e coragem, mas com ambições apenas históricas, satisfeito apenas com o oferecido pelo cargo.

P1. Tal estadista deveria escolher uma equipe de assessores que queiram e possam apenas ser, e deixá-los ser. Cada um dos assessores deve ter afinidade com a área de ação ou então capacidade suficiente para familiarizar-se com a sua área de atuação. Paralelamente deve-se permitir ao povo participar das decisões a serem tomadas, na medida em que se use adequadamente os meios de comunicação para mantê-lo devidamente informado e esclarecido. Sendo cada assessor responsável pela sua e apenas a sua área e existindo um plano de governo, que deve ter levado o estadista à sua posição por meio de eleições, a probabilidade de se obter resultados aceitáveis é boa.

P2. Como faremos para iniciar o processo em meio da confusão absoluta de leis, decretos, decretos-lei e tudo o mais?

 

E a reta final da tese de doutorado calou os dois debatedores.

Durante o período entre meados do ano de 1984 e o final de junho de 1985, tudo o que fiz foi finalizar cálculos, redigir e revisar o escrito em alemão e, com a ajuda de Roberto Campanelli, que fez a maioria dos desenhos e de Werner Braitsch, que fez a adequação final do redigido para a língua alemã, depositei a tese ao início de julho de 1985. Em tempo para saber que a apresentação somente poderia acontecer ao início de 1986.

Voltamos para o Brasil ao final de julho de 1985. Iniciei as aulas em agosto. Voltei para Munique ao final de janeiro e apresentei o trabalho na primeira semana de fevereiro de 1986. Retornei ao Brasil ao final de fevereiro e não mais tive a oportunidade de dialogar com P1 e P2.

 

Hoje, 5.3.2019, setenta e um ano completos, aposentado quatro dias por semana, talvez volte a dialogar com P1 e P2, ambos em condições idênticas às minhas. Preocupa-me apenas o fato de eles, como eu, estarem mais críticos e radicais do que éramos há cerca de 35 anos. Conseguirei suportar-nos?

 

Continua ?

 

Nota: Em algumas frases são referenciadas situações políticas, trajes, comportamentos e posturas típicas da época em que os diálogos foram escritos, primeira metade da década de 1980. Algumas delas tornaram-se moda, como barba mal aparada, uso de óculos Ray-Ban, governantes incompetentes. Outras, como bons modismos, desapareceram com o passar do tempo ou passaram a ser aceitos devido às mudanças de costumes.

 

Saúde e alegria a todos

Diálogos 20

Em Mudanças, de 27.12.15, apresentei as razões que me levaram aos Diálogos. Em Diálogos 1 – preâmbulo, de 10.1.16, iniciei a publicação dos diálogos escritos a partir de 29/3/82.

 

Posts anteriores relacionados:                 Mudanças          Diálogos 1          Diálogos 2          Diálogos 3      Diálogos 4        Diálogos 5    Diálogos 6        Diálogos 7    Diálogos 8    Diálogos 9    Diálogos 10     Diálogos 11    Diálogos 12      Diálogos 13     Diálogos 14      Diálogos 15      Diálogos 16      Diálogos 17      Diálogos 18      Diálogos 19

 

  … A AIA, Associação do Incapazes Anônimos, tem a honra de poder trazer-lhes a aplaudida palestra “Classificação da liderança política mundial”, proferida pelo renomado pensador e filósofo P1.

P1. Agradeço encarecidamente a calorosa recepção a mim oferecida e, inebriado pela honra do prestigioso convite e sem mais delongas, inicio:

  1. Homens de estado – aqueles que conseguem agir ao se antecipar aos acontecimentos e, assim influenciá-los, parcial ou completamente, antes da sua ocorrência;
  2. Políticos de nível – aqueles que conseguem reagir aos acontecimentos em tempo de atuar sobre suas consequências;
  3. Políticos – aqueles que reagem às consequências dos acontecimentos a tempo de tentar explica-los;
  4. Políticos normais – aqueles que reagem a fatos gerados pelas consequências dos acontecimentos com as palavras: Tenho plena confiança na capacidade de sacrifício de nosso povo;
  5. Políticos normais metidos a militares – aqueles que reagem a tudo com demonstrações de pretensa força objetivando encobrir as próprias fraqueza e incompetência;
  6. Militares metidos a líderes populares”.

P2. Faltou explicar o item 1. Militares metidos a líder popular.

P1. Impossível. Nem eles mesmos conseguem se explicar.

P2. Obrigado.

P1. Alguém mais na plateia teria perguntas?

P2. Alguém mais quem? Eu sou o único aqui.

P1. De forma alguma. Eu jamais apresentaria uma palestra para apenas um participante. Vou mais longe. Ninguém jamais me convidaria para uma exposição a apenas uma pessoa.

P2. Você mesmo se convidou e se apresentou!

P1. Detalhes insignificantes e além disso o tema da palestra é outro. Perguntas?

P2. Sim. Seria possível enunciar alguns exemplos?

P1. Sem dúvida! Nos itens 1. Homens de estado, 2. Políticos de nível e 3. Políticos, não existem exemplos vivos hoje (1984). Nos demais itens, hoje temos: 4. Políticos normais – Helmuth Kohl (Alemanha Ocidental), François Mitterand (França); 5. Políticos normais metidos a militares –  Ronald Reagan, (EUA), Margareth Tatcher (Reino Unido); 6. Militares metidos a líderes populares – a triste maioria. Mais perguntas?

P2. Eu estou só aqui, mas deixa para lá. Tal classificação restringe-se a chefes de estado ou de governo?

P1. Jamais! Não devemos nos esquecer que todo político ou dirigente de qualquer coisa, por mais insignificante, considera-se um líder. A classificação é válida para todo e qualquer líder.

P2. Então seria mais interessante generalizar a classificação. Se o prezado palestrante me permite, sugeriria as seguintes mudanças:

  1. Homens de estado Líderes – aqueles que consegue reagir antecipar-se aos acontecimentos e, assim influenciá-los, parcial ou completamente, antes da sua ocorrência;
  2. Políticos de nível Chefes – aqueles que conseguem reagir aos acontecimentos em tempo de atuar sobre suas consequências;
  3. Políticos Subchefes – aqueles que reagem às consequências dos acontecimentos a tempo de tentar explica-los;
  4. Políticos normais Chefetes – aqueles que reagem a fatos gerados pelas consequências dos acontecimentos com as palavras: Tenho plena confiança na capacidade de sacrifício de nosso povo;
  5. Políticos normais metidos a militares Gritões – aqueles que reagem a tudo com demonstrações de pretensa força objetivando encobrir as próprias fraqueza e incompetência;
  6. Militares metidos a líderes populares Ridículos.

Mais uma pergunta: Significa essa classificação a colocação de todos os militares na categoria 6.?

P1. Concordo com as sugestões, agradeço-as e adoto-as. Quanto à pergunta, NÃO. Algum dia, certamente, aparecerá novamente, em algum lugar da Terra, um militar também homem de estado, digo líder, ou chefe ou subchefe …

P2. CLAP, CLAP, CLAP, CLAP.

P1. Agradeço aos aplausos e considero a palestra encerrada. Boa noite!

continua

Nota: Em algumas frases são referenciadas situações políticas, trajes, comportamentos e posturas típicas da época em que os diálogos foram escritos, primeira metade da década de 1980. Algumas delas tornaram-se moda, como barba mal aparada, uso de óculos Ray-Ban, governantes incompetentes. Outras, como bons modismos, desapareceram com o passar do tempo ou passaram a ser aceitos devido às mudanças de costumes.

 

Saúde e alegria a todos

Diálogos 19

Em Mudanças, de 27.12.15, apresentei as razões que me levaram aos Diálogos. Em Diálogos 1 – preâmbulo, de 10.1.16, iniciei a publicação dos diálogos escritos a partir de 29/3/82.

 

Posts anteriores relacionados:                 Mudanças          Diálogos 1          Diálogos 2          Diálogos 3      Diálogos 4        Diálogos 5    Diálogos 6        Diálogos 7    Diálogos 8    Diálogos 9    Diálogos 10     Diálogos 11    Diálogos 12      Diálogos 13     Diálogos 14      Diálogos 15      Diálogos 16      Diálogos 17      Diálogos 18

 

 P1. … Os ministros do Interior e da Justiça queriam ser presidente da República. Os demais são apenas figurantes. Nesse meio composto por homens que não são, mas gostariam de ser, ou que são o que não queriam ser, as consequências são claras e ruins.

O do Planejamento queria ir e foi. O da Agricultura trocou de posto e para a Agricultura foi um que não deveria ir. O da Fazenda não conseguiu o que queria e, querendo ir, foi. Para a Fazenda foi outro que não deveria ter ido. O da Previdência Social financiou a sua eleição com dinheiro público e tornou-se o que queria ser. O da Agricultura, Fazenda e Planejamento desistiu de ser governador e dedicou-se a afundar o país. O da Justiça tentou mostrar saúde e acabou enterrado. O novo da Justiça, cotado para dar peso ao PDS em Minas Gerais, mostrou total incapacidade, sequer conseguindo notar concentrações de centenas de milhares de pessoas.

O ministro do Interior luta para ser presidente, assim como o das Minas e Energia luta para esconder as orelhas e o da Indústria e Comércio luta para ser notado.

Enfim, como ninguém queria o que recebeu, o Brasil recebeu o que não queria.

P2. Eu não queria cortar a sua exposição, mas o nome do presidente é João Figueiredo, porque João sem cara?

P1. Parece-me inadequado dizer que alguém não tem vergonha na cara. Tal julgamento é muito relativo. O que é justo para mim pode não ser para outros. Assim, se alguém não tem cara, falta como atestar a existência de alguma coisa nela.

P2. Li algum dia em uma Isto É, que o presidente considera ato de homem de estado manter o mesmo ministério. Neste momento lembrei-me de outro general homem de estado, o general Médici, pai do milagre brasileiro, ou tio afastado dele. Ele sempre respondia a perguntas sobre mudanças de ministério com a máxima futebolística: “Time que ganha não se muda”. O João não muda o time apesar da absoluta falta de vitórias. O que significa jamais mudar o time, independentemente dos resultados.

P1. Aí está a solução para os times de futebol semifalidos. Para que pagar reservas? Para que ter reservas?

P2. Para casos de contusão. Veja os exemplos Simonsen, Richibiter, Portela e outros. Além disso os reservas também precisam viver.

P1. Reservas para cá, titulares para lá, tudo muda e nada se altera. Se até há pouco o Brasil parecia perdido como cego em tiroteio, hoje as coisas se complicaram tanto que o Brasil parece estar perdido em um tiroteio de cegos.

P2. Não só o Brasil, o mundo está assim. Não existe liderança em lugar algum, todos reagem como carneiros ao ouvir uivos de lobos; disparam em qualquer direção e todos juntos. Isso acontece com todos, seja com os comandados pelas múmias ocidentais ou com os comandados pelas múmias moscovitas.

P1. Por pura falta de líderes e lideranças. Agora identificaremos e classificaremos os vários tipos de líderes políticos.

Prezados leitoras e leitores, senhoras e senhores, damas e cavalheiros, moçoilas e mancebos; respeitável público. A AIA, Associação do Incapazes Anônimos, tem a honra de poder trazer-lhes a aplaudida palestra sob título “Classificação da liderança política mundial”, proferida pelo renomado pensador e filósofo P1.

 

continua

 

Nota: Em algumas frases são referenciadas situações políticas, trajes, comportamentos e posturas típicas da época em que os diálogos foram escritos, primeira metade da década de 1980. Algumas delas tornaram-se moda, como barba mal aparada, uso de óculos Ray-Ban, governantes incompetentes. Outras, como bons modismos, desapareceram com o passar do tempo ou passaram a ser aceitos devido às mudanças de costumes.

 

Saúde e alegria a todos

Diálogos 18

Em Mudanças, de 27.12.15, apresentei as razões que me levaram aos Diálogos. Em Diálogos 1 – preâmbulo, de 10.1.16, iniciei a publicação dos diálogos escritos a partir de 29/3/82.

 

Posts anteriores relacionados:                 Mudanças          Diálogos 1          Diálogos 2          Diálogos 3      Diálogos 4        Diálogos 5    Diálogos 6        Diálogos 7    Diálogos 8    Diálogos 9    Diálogos 10     Diálogos 11    Diálogos 12      Diálogos 13     Diálogos 14      Diálogos 15      Diálogos 16      Diálogos 17

 

… Passaram-se exatos 21 meses.

 P1. Voltando ao problema da ignorância e da incapacidade. Se a incapacidade do rei é provada apenas após a coroação, deve-se, pelo menos, tentar expô-la. Esse negócio de se ficar aceitando fatos consumados só acarreta catástrofes maiores. Pode-se arriscar o pescoço tentando brigar com o rei e seus lacaios, mas é a única forma se tentar mudar alguma coisa. O único fato consumado é a morte, e mesmo assim não absolutamente consumado, pois sempre existe uma segunda chance.

P2. É o caso do que escreve. Passou boa parte da vida protestando para si e para os próximos sem jamais levantar a voz a um tom audível. Como quem pensa, mas não fala, não pensa e da mesma forma, quem não aceita mas cala é a favor, só se conclui ter ele sido sempre a favor, apesar de jamais ter concordado.

Mas assim, vamos voltar a assunto já discutido há algum tempo: justifica brigar com moinhos de vento para defender a pureza do poluído?

P1. Não. Mas justifica lutar para o poluído ser tornado mais limpo. Caso contrário não se poderá lamentar jamais. Não basta ser um bom cidadão, ciente de suas obrigações, honesto, votante assíduo, enquanto o mundo desaba em volta. Sem dúvida é confortável, enquanto o mundo não desabar. E então?

P2. Uma bela pregação, mas onde isso acontece? E, quando enfim acontece, resolve alguma coisa?

Eu mesmo respondo. Jamais aconteceu, assim não se sabe se resolve.

P1. Isto significa, então, estar na hora de acontecer. O Brasil chegou perto, apesar da enorme distância, mas os tais coordenadores e incentivadores da campanha “diretas já” não foram honestos o suficiente. Faltou-lhes (parece=me à distância) esclarecer aos manifestantes que tanto eleições diretas para presidente, como também o novo presidente, seja quem fosse, iriam mudar muito pouco. É triste ler uma entrevista de morador de São Miguel Paulista dizendo que depois da eleição direta viria a felicidade. Não virá, pois as eleições serão indiretas e não viria se as eleições fossem diretas. A situação brasileira só poderá ser alterada muitos anos depois do início da implantação de mudanças profundas.

P2. Cuidado, ó meu, reformas profundas soam sempre como comunizantes. Na verdade, há muito pouco a reformar; há muito a formar. É impossível refazer o que não existe. Na verdade, falta alguém decente o suficiente para repetir a promessa de Winston Churchill aos ingleses em seu discurso de posse como primeiro ministro ao início da segunda guerra mundial: “Nada tenho a oferecer senão sangue, trabalho, lágrimas e suor”.

P1. Permanecendo no exemplo brasileiro. Talvez se houvesse um governo federal e governos estaduais, com ministros e secretários etc., as coisas até corressem melhor. O governo do João sem cara; vivia escondido atrás de óculos escuros; começou muito mal. O presidente não queria ser presidente e a partir do dia da posse começou a contar os dias faltantes para o final de mandato. Os ministros, porém, queriam e muito. O ministro da Agricultura queria ser governador de São Paulo, o da Previdência Social queria ser governador do Rio Grande do Sul, o ministro da Indústria e Comércio queria ser ministro da Fazenda, o da Fazenda queria (parece) ser decente, o de Planejamento queria cair fora. O ministro da Minas queria apenas ser ministro e, tendo conseguido, descansou (admitindo-se ser ele capaz). Os ministros do Interior e da Justiça queriam ser presidente da República. Os demais são apenas figurantes.

Nesse meio composto por homens que não são, mas gostariam de ser, ou que são o que não queriam ser, as consequências são claras e ruins.

 

continua

 

Nota: Em algumas frases são referenciadas situações políticas, trajes, comportamentos e posturas típicas da época em que os diálogos foram escritos, primeira metade da década de 1980. Algumas delas tornaram-se moda, como barba mal aparada, uso de óculos Ray-Ban, governantes incompetentes. Outras, como bons modismos, desapareceram com o passar do tempo ou passaram a ser aceitos devido às mudanças de costumes.

 

Saúde e alegria a todos

Diálogos 17

Em Mudanças, de 27.12.15, apresentei as razões que me levaram aos Diálogos. Em Diálogos 1 – preâmbulo, de 10.1.16, iniciei a publicação dos diálogos escritos a partir de 29/3/82.

 

Posts anteriores relacionados:                 Mudanças          Diálogos 1          Diálogos 2          Diálogos 3      Diálogos 4        Diálogos 5    Diálogos 6        Diálogos 7    Diálogos 8    Diálogos 9    Diálogos 10     Diálogos 11    Diálogos 12      Diálogos 13      Diálogos 14      Diálogos 15     Diálogos 16

 

A publicação de Diálogos 16 aconteceu no dia 21.8.16. Diálogos 17 está sendo publicada em março de 2019, três anos depois. E, nesta mesma data serão publicados os Diálogos 18, 19, 20 e 21, com isso encerrando a série escrita entre 1982 e 1984. Aos poucos leitores, minhas desculpas pelo longo intervalo.

 

 P2. Foi só um exemplo. Infeliz, mas um exemplo.

P1. Passa.

P3. Por mim também.

P2. Desculpem, desculpem. Desculpem.

P1. Qual a sua opinião sobre as conversas com o Raabe?

P2. E a sua? A minha é a seguinte: A mulher do que escreve á sabia!

P1. Concordo. O comentário dela de que “ele terá o fim de semana para pensar q em alguma coisa”. Foi preciso e infalível.

P2. Mesmo na terça ele não saiu convencido.

P1. Apenas deixou barato.

P2. Você percebeu que o definido ao início dos diálogos não tem sido cumprido? Estamos escolhendo temas ao invés de deixá-los vir ao sabor das ondas.

P1. É verdade, mas você já experimentou ondas para conhecer-lhes o sabor?

P2. Como assim? Onda não se come ou bebe. Pelo menos nesse caso. Larga de bobagem, até parece que falta assunto!

P1. Tanto falta que demorou um tempão para voltarmos a papear. Parece que o que escreve anda pouco criativo.

P2. É a fase. Ele agora resolveu trabalhar sério e só consegue pensar no trabalho. A época das frustrações e do tempo livre para deixar a imaginação solta acabou. Ou pelo menos entrou em recesso. Ele esqueceu do Raabe, isto é, só se dedica a massacrá-lo com panfletos, decalques, charges e coisas parecidas.

P1. Ele vive agora o período de artista gráfico esporádico.

P2. E é bom que dê duro mesmo, assim a gente cai fora logo desta terra e deste instituto.

P1. Antes que o instituto desapareça e nos leve junto.

P2. Você viu a filosofia do que escreve hoje à tarde? Aquela “Die Idioten sind nie schuldig” (os idiotas jamais serão culpados) foi muito boa. A ideia é perfeita. Quem desconhece jamais poderá ser considerado culpado do que quer que seja.

P1. Pode-se dizer que a ignorância absolve. Mas mesmo assim é perigoso. Fica-se sempre ante a escolha ou a alternativa entre o que é ignorância, desconhecimento ou o que é desleixo, desinteresse. Por outro lado, pode-se tentar encaixar no termo ignorância a incapacidade ou a incompetência, o que levaria à impunidade absoluta. O que não ignora, mas é incompetente, também estaria absolvido.

P2. Mas o incompetente consciente jamais será um ignorante. Ele será desonesto, trapaceiro ou coisa que o valha, mas jamais ignorante ou idiota. Mesmo assim fica difícil tornar concretos tais adjetivos um tanto abstratos. Sob quais condições pode-se definir ou taxar alguém de ignorante, idiota, incompetente etc. Há necessidade de uma convivência longa e próxima com a pessoa para poder ser concluído algo a respeito. E quando o material coletado se revela suficiente para a classificação, a pessoa deixou o círculo ou atingiu uma posição tal que não mais é possível a classificação alcançá-la.

P1. Isto é, quando é provada a incapacidade do rei, ele já está coroado. Ou enterrado. Trágico, mas real. E o que fazer? Tentar conspirar contra o rei ou deixa-lo em paz no túmulo? Mostrar aos seus vassalos as provas obtidas? Difícil de se decidir, mesmo sabendo que poucos acreditarão em um possível futuro aristocrata ou mesmo possível futuro rei.

P2. Solução existe. Ridicularizar o rei, na sua ausência, e ir levando. De vez em quando umas alfinetadas no lombo do rei e mais não é possível.

… Passaram-se exatos 21 meses.

continua

 

Nota: Em algumas frases são referenciadas situações políticas, trajes, comportamentos e posturas típicas da época em que os diálogos foram escritos, primeira metade da década de 1980. Algumas delas tornaram-se moda, como barba mal aparada, uso de óculos Ray-Ban, governantes incompetentes. Outras, como bons modismos, desapareceram com o passar do tempo ou passaram a ser aceitos devido às mudanças de costumes.

 

Saúde e alegria a todos

Diálogos 16

Em Mudanças, de 27.12.15, apresentei as razões que me levaram aos Diálogos. Em Diálogos 1 – preâmbulo, de 10.1.16, iniciei a publicação dos diálogos escritos a partir de 29/3/82.

Posts anteriores relacionados:                 Mudanças          Diálogos 1          Diálogos 2          Diálogos 3      Diálogos 4        Diálogos 5    Diálogos 6        Diálogos 7    Diálogos 8    Diálogos 9    Diálogos 10     Diálogos 11    Diálogos 12      Diálogos 13      Diálogos 14      Diálogos 15

 P2. Não acredito ser mais possível. Ele pegou gosto de escriba. E o fato de desaparecermos se ele parar de escrever é insignificante para nós. Quem sabe de nossa existência? Nem a mulher do que escreve sabe ainda de nós, ou melhor, leu de nós.

P1. O que escreve conhece a gente e apesar de pouco se manifestar e em vermelho, parece que compartilha com as nossas ideias.

P2. Mesmo quando divergimos, acredito que ele concorda com nós dois, ou nós duas? O que somos, afinal? Hermafroditas eu não aceito.

P1. Preconceito, é? O que escreve tem duas filhas, por que não sermos nós dois? Fica dois a dois.

P2. Não seria bom para ele. Ele ficaria com uma relação íntima com dois, o que não é bom perante o mundo.

P1. O mundo que vá para o inferno. Se for para ficar se dobrando às mesquinharias dele …

P2. Não é mais possível ser um radical radical no mundo de hoje. Seremos nós duas.

P1. Exijo um plebiscito. Não existe algo mais democrático do que um plebiscito.

P2. De novo? Agora é um caso simples de opinião e posicionamento pessoal. E mais, se podemos escolher entre masculino e feminino, não fará muita diferença ser isso ou aquilo. Eu quero ser nada, absolutamente nada!

P1. Nada de plebiscito. Também quero ser nada, absolutamente nada!

P2. Continuamos povo! Continuamos povo!

P1. Viva! Viva! Viva! Povo! Povo!

3.8.82

P2. É, ficamos um bom tempo sem falar. Parece que o que escreve não estava muito interessado em bancar o escriba.

P1. Parece que apesar da carta do irmão dele sobre a situação no Brasil e do entusiasmo inicial gerado por ela, a má vontade retornou.

P2. Mas depois das conversas com o orientador, a coisa melhorou e muito. Agora ele escreve, estuda, medita, discute consigo mesmo o que lê. Vamos ver se a coisa se mantém.

P1. Discute consigo não, discute conosco.

P2. Se você começa a minimizar a importância do que escreve, ele ainda acaba nos boicotando. É bom não esquecer de ser ele um técnico, nada além disso. Sem qualquer formação humanística, seja acadêmica ou pessoal por convivência. Um verdadeiro técnico, frio, calculista, insensível, poluidor, desinteressado dos seres humanos. Uma quase máquina que trabalha com máquinas. Um semi monstro.

P1.ÔÔÔhhh! Isso não te parece ser um pouco demais?

P2. Psiu! É só para ver a reação dele. Ou ele só se manifesta para censurar?

P1. Sei lá! Mas espero que ele tome a decisão correta e parta para resolver os seus problemas acadêmicos o mais rápido possível. Ele anda com umas ideias radicais e um título de doutor talvez o ajudasse, apesar de seu pouco valor.

P2. Também acho. Já pensou nós dois como conselheiros do que escreve? Já pensou se ele vira político ou coisa que o valha e nós seus conselheiros? Acabaremos tão famosos quanto os três que governam os Estados Unidos para o Ronald Reagan.

P1. Pensei que você não o desprezasse tanto, ou a mim, ou a você mesmo. Ele político e nós no mesmo nível dos conselheiros do Reagan é macabro.

P2. Foi só um exemplo. Infeliz, mas um exemplo.

P1. Passa.

P3. Por mim também.

 

continua

 

Nota: Em algumas frases são referenciadas situações políticas, trajes, comportamentos e posturas típicas da época em que os diálogos foram escritos, primeira metade da década de 1980. Algumas delas tornaram-se moda, como barba mal aparada, uso de óculos Ray-Ban, governantes incompetentes. Outras, como bons modismos, desapareceram com o passar do tempo ou passaram a ser aceitos devido às mudanças de costumes.

 

Saúde e alegria a todos

Diálogos 15

Em Mudanças, de 27.12.15, apresentei as razões que me levaram aos Diálogos. Em Diálogos 1 – preâmbulo, de 10.1.16, iniciei a publicação dos diálogos escritos a partir de 29/3/82.

Posts anteriores relacionados:                 Mudanças          Diálogos 1          Diálogos 2          Diálogos 3      Diálogos 4        Diálogos 5    Diálogos 6        Diálogos 7    Diálogos 8    Diálogos 9    Diálogos 10     Diálogos 11    Diálogos 12      Diálogos 13      Diálogos 14

 Adendo

Nem sempre o que se escreve retrata a nossa crença. Às vezes retrata uma reação a um estado de coisas tornado inaceitável e que ao ser apresentado na forma de aberração objetiva demonstrar o desconforto de quem escreve. O que aqui se inicia retrata a minha crença de 1982, que se mantém em 2016 e se manterá para sempre. O que escrevi sobre o Esquadrão Herodes, a ser estruturado nos Diálogos 12 e 13, expresso pelo debatedor P1, corresponde exatamente às duas primeiras frases acima. O Esquadrão Herodes foi escrito em 1981 e é uma reação ao que se fazia à época e se mantém até hoje e que levou ao estado de insegurança plena em que agora vivemos, isto é, poderia muito bem ter sido escrito hoje. O Esquadrão é uma proposta de solução simples e absurda, típica dos desejos do poder constituído, melhor chamado de poder incompetente, a qual eu jamais apoiaria. Este poder incompetente não atua para resolver problemas, quaisquer que sejam eles, desde sempre. O problema de segurança, porém, deve ser computado quase integralmente aos omissos que governam o estado de São Paulo e os demais estados e o próprio Brasil desde a década de 1950. Os governadores de São Paulo estão nomeados em Diálogos 11.

Final

P1. É fácil. Inicia-se com uma série de filmes, propaganda barata, mostrando ações e consequências de ações de marginais. …

E os comandos passaram para a página 8, terceira coluna, inferior.

Nova onda de demonstrações, debates, entrevistas. A mãe do astro vai aos meios de comunicação.

E os comandos desapareceram do noticiário. O astro, com olheiras profundas, sem dormir a vários dias, parte em descanso para o exterior. Cerca de vinte dias se passaram. Coincidindo com a partida do astro, uma novela atinge seus capítulos finais, uma outra se inicia (com tantas novelas na TV, sempre haverá uma se encerrando e outra se iniciando).

P2. E os comandos?

P1. Ninguém mais se lembra deles, suas ações já foram incorporadas ao dia-a-dia da população. Após cerca de um mês de atuação dos comandos, alguns saneadores já se tornaram Cavaleiros da Ordem do Bercinho e o primeiro salário, engordado pelos prêmios de produtividade, supera os dez salários mínimos regionais. A procura por caixas de papelão usadas nos supermercados próximos aos campos naturais de ação dos comandos cresceu de forma anormal.

P2. E o que aconteceu com o astro, afinal?

P1. Viu como funciona? Aconteceu nada! Uma semana após a partida ele retorna recuperado, é recebido calorosamente por todos, reassume o seu lugar no Olimpo e continua a sua vida divina.

P2. E todo o movimento feito a respeito de sua vida íntima?

P1. Ele voltou uma semana depois de partir. Em um mundo agitado como o que vivemos uma semana é uma eternidade. O máximo que pode acontecer é a sua vida íntima ter ido parar na oitava página, terceira coluna, inferior. Seu retorno, porém, estará na primeira página com foto colorida. Com isso ocupa-se dois espaços diferentes com o mesmo tema importante.

P3. Pessimismo agressivo! Será mesmo assim? Tanta acidez é corrosiva e deprimente. Uma finalização perfeita para uma proposta indecente de projeto.

P1. Não precisamos responder ao comentário do que escreve.

P2. Sem dúvida, está escrito em vermelho. Não tem futuro!

Mas eu pergunto a ele, quem é você, o que escreve? Eu, chamado por você de P2? É ele, chamado por você de P1? E eu respondo ao que escreve. Não! Quem escreve é você, isto é, a responsabilidade pelo que está escrito é sua. Você detém o poder e arca com a responsabilidade. Nós somos nada! Você já nos ameaçou censurar, agora nos chama de pessimistas, mas quem escreve é você. Sem você somos nada, nada.

P1. Calma lá! Assim também não, A coisa ficou confusa. Nós pensamos, ele escreve. A responsabilidade termina no trabalho mecânico de transpor as nossas ideias para o papel. O trabalho intelectual é nosso. Os responsáveis pelas ideias somos nós.

P2. Não refresca grande coisa se estamos presos a ele. Admita que isso seja publicado um dia.

P1. E daí?

P2. Se ele quiser, escreve na capa o seu nome, não o nosso. E aí a responsabilidade e o mérito passam a ser dele. Mesmo que escreva o nosso nome na capa, se o livro for um sucesso sempre poderá dizer que os nomes na capa são pseudônimos.

P1. Mas isto seria um comportamento imoral para conosco! Seria tirar proveito de nós! Seria usar-nos! Seria se apropriar de nosso trabalho sem nos recompensar por ele!

P2. Continuarei povo! Continuarei povo!

P1. Ah??? Ah!!! Eu também! Eu também! Um momento. Já não éramos povo?

P2. Éramos e continuamos, pois continuamos a ser explorados!

P1. Mas mesmo assim a responsabilidade do que é escrito não é do que escreve, ou melhor, a nossa relação com o que escreve é bem mais complexa.

P2. A nossa relação é íntima. Dependemos uns dos outros.

P1. Nem tanto, ele pode deixar de escrever e nós desaparecemos. Ninguém mais ouvirá de nós, ou melhor, ninguém mais lerá de nós.

P2. Não acredito ser mais possível. Ele pegou gosto de escriba. E o fato de desaparecermos se ele parar de escrever é insignificante para nós. Quem sabe de nossa existência? Nem a mulher do que escreve sabe ainda de nós, ou melhor, leu de nós.

 

Continua

 

Nota: Em algumas frases são referenciadas situações políticas, trajes, comportamentos e posturas típicas da época em que os diálogos foram escritos, primeira metade da década de 1980. Algumas delas tornaram-se moda, como barba mal aparada, uso de óculos Ray-Ban, governantes incompetentes. Outras, como bons modismos, desapareceram com o passar do tempo ou passaram a ser aceitos devido às mudanças de costumes.

 

Saúde e alegria a todos

Diálogos 14

Em Mudanças, de 27.12.15, apresentei as razões que me levaram aos Diálogos. Em Diálogos 1 – preâmbulo, de 10.1.16, iniciei a publicação dos diálogos escritos a partir de 29/3/82.

Posts anteriores relacionados:                 Mudanças          Diálogos 1          Diálogos 2          Diálogos 3      Diálogos 4        Diálogos 5    Diálogos 6        Diálogos 7    Diálogos 8    Diálogos 9    Diálogos 10     Diálogos 11    Diálogos 12      Diálogos 13

 

Adendo

Nem sempre o que se escreve retrata a nossa crença. Às vezes retrata uma reação a um estado de coisas tornado inaceitável e que ao ser apresentado na forma de aberração objetiva demonstrar o desconforto de quem escreve. O que aqui se inicia retrata a minha crença de 1982, que se mantém em 2016 e se manterá para sempre. O que escrevi sobre o Esquadrão Herodes, a ser estruturado nos Diálogos 12 e 13, expresso pelo debatedor P1, corresponde exatamente às duas primeiras frases acima. O Esquadrão Herodes foi escrito em 1981 e é uma reação ao que se fazia à época e se mantém até hoje e que levou ao estado de insegurança plena em que agora vivemos, isto é, poderia muito bem ter sido escrito hoje. O Esquadrão é uma proposta de solução simples e absurda, típica dos desejos do poder constituído, melhor chamado de poder incompetente, a qual eu jamais apoiaria. Este poder incompetente não atua para resolver problemas, quaisquer que sejam eles, desde sempre. O problema de segurança, porém, deve ser computado quase integralmente aos omissos que governam o estado de São Paulo e os demais estados e o próprio Brasil desde a década de 1950. Os governadores de São Paulo estão nomeados em Diálogos 11.

Final

 Art. 12 – Revogadas todas as disposições em contrário.

P1. Qual a sua opinião a respeito do projeto?

P2. Prático, objetivo, lógico. A princípio parece um pouco estranho o Esquadrão Herodes ficar sob controle dos Departamentos de Limpeza Pública, mas os objetivos esclarecem a possível dúvida. Porque é proibido o uso de sirenes? Para não assustar as criancinhas?!

P1. Não só! Considere a possibilidade de o Esquadrão precisar agir em uma maternidade.

P3. Abjeto, porém, adequado para os governantes incompetentes, todos. Corre-se o risco de ter tal projeto proposto em alguma Assembleia Legislativa ou na própria Câmara Federal.

P2. (sussurrando) Você ouviu o que escreve?

P1. (sussurrando também) Esqueça, faça de conta que nada aconteceu.

P1. Não só! Considere a possibilidade de o Esquadrão precisar agir em uma maternidade. É uma hipótese remota, pois as famílias a serem higienizadas dificilmente têm acesso a maternidades. Mas, mesmo assim, considere a hipótese remotíssima de um Comando Pilatus ter de agir no Hospital Einstein, no Morumbi, ao lado do Palácio dos Bandeirantes; ou então na Maternidade São Paulo, na Bela Vista ao lado da avenida Paulista, ou na Pro-Mater, na mesma região ou … . O uso de sirenes poderia perturbar uma importantíssima reunião de conchavos no Palácio; o sono da comunidade bem acima de um salário mínimo per capita; o que seria abominável e desumano. Por outro lado, o uso de sirenes quando das incursões dos Comandos Pilatus em seu campo natural de ações, favela, periferia, bairros decadentes, poderia oferecer aos saneados sem senso de dever cívico a oportunidade de tentar obstruir o cumprimento de tão nobre tarefa.

P2. Mas como será possível saber do nascimento de crianças em condições de saneamento? Como muitas nascem em casa, os pais podem deixar de registrá-las e esconde-las até passar o mês previsto no projeto.

P1. Não irá funcionar. Criança não registrada é criança não nascida, não existe. A partir do registro ela nasce e começa a contar o tempo de vida.

P2. E se a criança for registrada com 1, 2, 10 ou 20 anos de vida?

P1. Após o registro a criança começa a viver para a sociedade e para a justiça. Se na época de seu nascimento social a renda familiar per capita estiver acima da mínima prevista, a criança adulta estará salva. Caso contrário a família gastará mais para o enterro.

P2. E se os pais se revoltarem e, com vizinhos e amigos resolverem resistir?

P1. Leia a proposta de projeto. Art. 6 Dos direitos do Esquadrão Herodes; art. 4 Do equipamento do Esquadrão Herodes; art. 8. Dos objetivos específicos do Esquadrão Herodes. Tudo planejado, tudo planejado.

P2. Mesmo assim, você acredita que a sociedade aceite este massacre infame?

P1. É fácil. Inicia-se o processo de implantação do projeto com uma série de filmes, propaganda barata, mostrando ações e consequências de ações de marginais. A seguir uma segunda série de filmes, do mesmo nível, pedindo a colaboração de todos no combate à criminalidade, entremeado por entrevistas com marginais em ações, com closes no prazer estampado em seus rostos. Só então entrarão em ação os comandos. Dois dias após o início dos trabalhos dos comandos, divulga-se secretamente boatos sobre a vida íntima de algum cantor, ator da Globo, ou coisa que o valha. Tal ação deve permanecer por cerca de vinte dias. Ao longo destes vinte dias a ação dos comandos, ao início presente nas manchetes de primeira página ou abertura de noticiários, após dois dias cairão para o rodapé da primeira página ou comentários rápidos nos noticiários. Enquanto isso a onda de fofocas, suposições, desmentidos, sobre o astro cresce. Fotos coloridas do astro passarão a ocupar as manchetes em substituição aos monótonos uniformes brancos com eventuais respingos vermelhos dos saneadores. Entrevistas na TV, defesas apaixonadas, ataques monstruosos; o astro é o foco das atenções gerais. Demonstrações de desagravo dos fã-clubes, demonstrações feministas, minoritárias do MSTerra, do MSTeto, dos vegetarianos, dos carnívoros, da Associação Mundial dos Protetores das Saúvas (AMPS). Tudo incitado pelo calvário a que o astro está sendo submetido.

E os comandos passaram para a página 8, terceira coluna, inferior.

Continua

Nota: Em algumas frases são referenciadas situações políticas, trajes, comportamentos e posturas típicas da época em que os diálogos foram escritos, primeira metade da década de 1980. Algumas delas tornaram-se moda, como barba mal aparada, uso de óculos Ray-Ban, governantes incompetentes. Outras, como bons modismos, desapareceram com o passar do tempo ou passaram a ser aceitos devido às mudanças de costumes.

Saúde e alegria a todos

Diálogos 13

Em Mudanças, de 27.12.15, apresentei as razões que me levaram aos Diálogos. Em Diálogos 1 – preâmbulo, de 10.1.16, iniciei a publicação dos diálogos escritos a partir de 29/3/82.

Posts anteriores relacionados:                 Mudanças          Diálogos 1          Diálogos 2          Diálogos 3      Diálogos 4        Diálogos 5    Diálogos 6        Diálogos 7    Diálogos 8    Diálogos 9    Diálogos 10     Diálogos 11          Diálogos 12

 Adendo

Nem sempre o que se escreve retrata a nossa crença. Às vezes retrata uma reação a um estado de coisas tornado inaceitável e que ao ser apresentado na forma de aberração objetiva demonstrar o desconforto de quem escreve. O que aqui se inicia retrata a minha crença de 1982, que se mantém em 2016 e se manterá para sempre. O que escrevi sobre o Esquadrão Herodes, a ser estruturado nos Diálogos 12 e 13, expresso pelo debatedor P1, corresponde exatamente às duas primeiras frases acima. O Esquadrão Herodes foi escrito em 1981 e é uma reação ao que se fazia à época e se mantém até hoje e que levou ao estado de insegurança plena em que agora vivemos, isto é, poderia muito bem ter sido escrito hoje. O Esquadrão é uma proposta de solução simples e absurda, típica dos desejos do poder constituído, melhor chamado de poder incompetente, a qual eu jamais apoiaria. Este poder incompetente não atua para resolver problemas, quaisquer que sejam eles, desde sempre. O problema de segurança, porém, deve ser computado quase integralmente aos omissos que governam o estado de São Paulo e os demais estados e o próprio Brasil desde a década de 1950. Os governadores de São Paulo estão nomeados em Diálogos 11.

Final

PROJETO: ESQUADRÃO HERODES (continuação)

(ou ide a ele as criancinhas ou que pelo menos sumam daqui)

Art. 1

Art. 2

Art. 3

Art. 4

 4 – Dos meios de comunicação dos Comandos Pilatus (CP);

I – Três rádios de longo alcance para comunicações a distâncias de até 500 km (quinhentos quilômetros), um para cada saneador, com, no mínimo 5 (cinco) baterias de reserva);

II – Três “walkie-talkie”, um para cada saneador, com, no mínimo 5 (cinco) baterias de reserva);

III – Um alto falante com alcance de, no mínimo, 200 m (duzentos metros).

Art. 5 –  Das condições de trabalho do Esquadrão Herodes (EH);

  • 1 – Todos os saneadores terão uma jornada de trabalho de 8 (oito) horas diárias, 5 (cinco) dias por semana, com dois dias de descanso;

I – As jornadas de trabalho dos vários Comandos Pilatus (CP) serão organizadas pelo superintendente do Esquadrão Herodes (EH) local, de tal forma que haja sempre, ao menos, 10 (dez Comandos Pilatus (CP) de plantão durante as 24 (vinte e quatro) horas do dia, todos os dias da semana.

II – Cada saneador poderá ser convocado para ações extraordinárias a qualquer m0mento, estando ou não em seu horário de trabalho.

  • 2 – Cada saneador receberá um salário fixo equivalente a 8 (oito) salários mínimos locais;

I – Cada saneador terá direito a um prêmio mensal de produtividade a ser acrescido ao salário e equivalente a 1/3 (um terço) do prêmio de produtividade de seu Comando Pilatus (CP);

  • 3 – Os uniformes serão fornecidos pelos Departamentos de Limpeza Pública (DLP), devendo ser trocados semanalmente e renovados semestralmente. Em casos de dedicação extrema ao trabalho, os uniformes poderão ser trocados a qualquer tempo.

Art. 6 – Dos direitos dos Esquadrões Herodes (EH)

Todos. Isto significa terem os Esquadrões Herodes (EH) e os Comandos Pilatus (CP) total liberdade para agir conforme as situações de trabalho assim o exigirem.

Art. 7 – Dos sistemas de apoio dos Esquadrões Herodes (EH)

Quando em cumprimento do dever, cada saneador componente de um Comando Pilatus (CP) tem o direito de requisitar os recursos que julgar necessário para a boa execução de sua tarefa saneadora. Os que porventura se recusarem a acatar as requisições dos saneadores serão processados por obstrução da justiça.

Art. 8 – Dos objetivos específicos dos Esquadrões Herodes (EH)

Os esquadrões Herodes (EH) serão mobilizados para ações de saneamento a serem aplicadas em favor de recém-nascidos ou crianças até um mês de vida provenientes de lares onde a renda líquida mensal per capita seja igual ou inferior a um salário mínimo local. A idade deverá ser comprovada por certidão de nascimento original, autenticada. O objetivo primordial da mobilização do Esquadrão Herodes (EH) é poupar a estas crianças uma vida de privações e infelicidade e indiretamente possibilitar a melhoria do nível de vida e segurança a todos os demais e também livrar o poder incompetente do lastro de tentar enganar o povo fingindo estar interessado em resolver o problema de segurança pública.

Art. 9 – Das condecorações específicas do Esquadrão Herodes (EH)

Em casos de dedicação acima do dever, o superintendente poderá, a partir de testemunhos idôneos, atribuir aos saneadores as seguintes condecorações, por ordem crescente de mérito.

I – Chupeta de bronze;

II – Chupeta de prata;

III – Chupeta de ouro, segundo grau;

IV – Chupeta de ouro, primeiro grau;

V – Cavaleiro da Ordem do Bercinho.

Art. 10 – É vedada toda e qualquer contestação, recurso judicial ou qualquer questionamento às ações patrióticas dos Esquadrões Herodes (EH).

Art. 11 – Casos omissos devem ser regulamentados por legislação específica.

Art. 12 – Revogadas todas as disposições em contrário.

P1. Qual a sua opinião a respeito do projeto?

P2. Prático, objetivo, lógico. A princípio parece um pouco estranho o Esquadrão Herodes ficar sob controle dos Departamentos de Limpeza Pública, mas os objetivos esclarecem a possível dúvida. Porque é proibido o uso de sirenes? Para não assustar as criancinhas?!

P1. Não só! Considere a possibilidade de o Esquadrão precisar agir em uma maternidade.

P3. Abjeto, porém, adequado para os governantes incompetentes. Corre-se o risco de ter tal projeto proposto em alguma Assembleia Legislativa ou na própria Câmara Federal.

 

Continua

 

Nota: Em algumas frases são referenciadas situações políticas, trajes, comportamentos e posturas típicas da época em que os diálogos foram escritos, primeira metade da década de 1980. Algumas delas tornaram-se moda, como barba mal aparada, uso de óculos Ray-Ban, governantes incompetentes. Outras, como bons modismos, desapareceram com o passar do tempo ou passaram a ser aceitos devido às mudanças de costumes.

 

Saúde e alegria a todos

Diálogos 12

Em Mudanças, de 27.12.15, apresentei as razões que me levaram aos Diálogos. Em Diálogos 1 – preâmbulo, de 10.1.16, iniciei a publicação dos diálogos escritos a partir de 29/3/82.

Posts anteriores relacionados:                 Mudanças          Diálogos 1          Diálogos 2          Diálogos 3      Diálogos 4        Diálogos 5    Diálogos 6        Diálogos 7    Diálogos 8    Diálogos 9    Diálogos 10     Diálogos 11

 Adendo

Nem sempre o que se escreve retrata a nossa crença.  Às vezes retrata uma reação a um estado de coisas tornado inaceitável e que ao ser apresentado na forma de aberração objetiva demonstrar o desconforto de quem escreve. O que aqui se inicia retrata a minha crença de 1982, que se mantém em 2016 e se manterá para sempre. O que escrevi sobre o Esquadrão Herodes, a ser estruturado nos Diálogos 12 e 13, expresso pelo debatedor P1, corresponde exatamente ao caso acima. O Esquadrão Herodes foi escrito em 1981 e é uma reação ao que se fazia à época e se mantém até hoje e que levou ao estado de insegurança plena em que agora vivemos, isto é, poderia muito bem ter sido escrito hoje. O Esquadrão é uma proposta de solução simples e absurda, típica dos desejos do poder constituído, melhor chamado de poder incompetente, a qual eu jamais apoiaria. Este poder incompetente não atua para resolver problemas, quaisquer que sejam eles, desde sempre. O problema de segurança, porém, deve ser computado quase integralmente aos omissos que governam o estado de São Paulo e os demais estados e o próprio Brasil desde a década de 1950. Os governadores de São Paulo estão nomeados em Diálogos 11.

Final

P2. Mas então só com controle de natalidade!

P1. Explico o projeto em detalhes. Ele poderia até ser lançado como um dos famosos projetos IMPACTO, que consagraram o milagre brasileiro do primeiro período Delfim Neto. Rádio, TV e jornal à disposição do governo para a grande campanha nacional de imobilização dos pobres e paupérrimos.   A SOLUÇÃO PARA O BURACO BRASILEIRO!

 

PROJETO: ESQUADRÃO HERODES

(ou ide a ele as criancinhas ou que pelo menos sumam daqui)

Art. 1 – Dissolvam-se os esquadrões da morte (EM) e congêneres em todos os estados da federação. Seus nobres integrantes serão colocados à disposição dos respectivos Departamentos de Limpeza Pública (DLP) das prefeituras municipais.

Art. 2 – Crie-se o Esquadrão Herodes (EH). Os membros desta força de elite serão recrutados entre os membros dos recém extintos EM, agora à disposição dos DLP.

Art. 3 – Da organização do Esquadrão Herodes (EH);

  • 1 – Os EH serão subordinados aos DLP;
  • 2 – O comando do EH de cada município ficará a cargo de um superintendente (SEH), podendo este ser civil, militar ou general;
  • 3 – Cada EH será composto por, no mínimo 200 (duzentos) comandos independentes, denominados Comandos Pilatus (CP), subordinados diretamente ao superintendente (SEH) do Esquadrão Herodes (EH) do respectivo município;

I – A identificação de cada Comando Pilatus (CP) será feita com numeração em algarismos romanos, em homenagem ao romano Poncius Pilatus, conforme Comando Pilatus Quinze: CP-XV; Comando Pilatus cento e oitenta e oito: CP-CLXXXVIII;

  • 4 – O cargo de superintendente (SEH) dos EH será de confiança do atual dono da pátria ou, em caso de delegação especial deste, do atual dono do estado ou, em caso de delegação especial deste, do atual dono do município ou, em caso de delegação especial deste, de um seu amigo.
  • 5 – Cada Comando Pilatus (CP) será constituído por 3 (três) membros, denominados saneadores;
  • 6 – Em cada Comando Pilatus (CP) haverá um comandante, o saneador mor (SM) e dois assessores, os saneadores juniores (SJ).

Art. 4 – Do equipamento de trabalho dos Esquadro Herodes (EH);

  • 1 – Do material rodante dos Comandos Pilatus;

I – Um veículo blindado sobre pneus modelo Cascavel ou similar;

II- Três motocicletas de, no mínimo, 400 cc (quatrocentas cilindradas), uma para cada saneador;

III – Um carro funerário cinza, modelo Ford Belina ou similar;

IV – Uma carreta acoplável à traseira do veículo blindado com dimensões suficientes para acomodar todo o equipamento encontrado em §2 e o veículo definido em §1 – III;

V – Em todos estes veículos é vedada a instalação de sirenes ou similares;

  • 2 – Do material de defesa pessoal dos Comandos Pilatus (CP);

I – Os equipamentos inerentes aos veículos blindados;

II – Três bazucas, uma para cada saneador, com farta munição;

III – Uma metralhadora pesada, de uso exclusivo do saneador mor (SM);

IV – Três pistolas automáticas calibre 45, uma para cada saneador, com farta munição;

V – Três revólveres calibre 38, cano curto, um para cada saneador, com farta munição;

VI – Três pistolas automáticas calibre 6,25, uma para cada saneador, com farta munição;

VII – Três revólveres oxidados calibre 22, um para cada saneador, com farta munição;

VIII – Três metralhadoras leves, portáteis e com baioneta, uma para cada saneador, com farta munição;

IX – Três punhais de lâmina longa, 30 cm (trinta centímetros), cromado e com bainha em couro natural, uma para cada saneador;

X – Três navalhas marca Solingen ou similar com cabo de madrepérola, uma para cada saneador;

XI – Bombas de gás lacrimogêneo e bombas de efeito moral em número suficiente para dispersar multidões de até 10 000 pessoas;

  • 2 – Do fardamento dos Comandos Pilatus (CP);

I – O fardamento, a ser chamado exclusivamente de Uniforme, será composto de calça, camisa, jaqueta, cinto, meias e sapatos brancos;

II – Ao lado esquerdo da camisa e da jaqueta será bordado o brasão de armas do Esquadrão Herodes;

III – O brasão de armas do Esquadrão Herodes será formado por uma caveira com uma chupeta na boca. Cruzando sobre a caveira, em ângulo de 45 graus, uma vassoura e uma pá de limpeza doméstica;

  • 2 – Dos meios de comunicação dos Comandos Pilatus (CP);

 

Continua

 

Nota: Em algumas frases são referenciadas situações políticas, trajes, comportamentos e posturas típicas da época em que os diálogos foram escritos, primeira metade da década de 1980. Algumas delas tornaram-se moda, como barba mal aparada, uso de óculos Ray-Ban, governantes incompetentes. Outras, como bons modismos, desapareceram com o passar do tempo ou passaram a ser aceitos devido às mudanças de costumes.

Saúde e alegria a todos