O futuro a Deus pertence 4.3

Escrito em 1981

A segurança nacional voltou a ser ameaçada, não mais pelos opositores internos ou por potências estrangeiras. A maior ameaça à segurança nacional tornou-se o próprio governo.

E agora? O futuro a Deus pertence!

Escrito em 2016

E Lula, finalmente, venceu o primeiro turno. E venceu em todos os estados da União, exceto em Alagoas, no segundo turno. Venceu pela primeira vez e pela primeira vez com coligações conchavantes ou conchavos coligantes.

Os bons ventos continuavam a soprar sobre Bral-Búrdia. E o governo populista partiu para projetos faraônicos. Transposição do Rio São Francisco: projeto abandonado, reiniciado, abandonado; situação atual, sei lá. Construção de um porto em Cuba. Construção de uma estrada inútil interligando Brasil e Lima, Peru; inútil para a pretensa destinação de sua construção.

E as bolsas cresceram. Há desigualdade social, crie-se uma bolsa federal dentro do conceito “bolsa hoje, voto amanhã” “clientelismo hoje, voto amanhã”. As crianças terminam a escola obrigatória não alfabetizadas? Quotas universitárias nelas; “quota hoje, voto amanhã”. O direito ao certificado universitário inútil! O conceito, eleitor enganado, voto contado, levado ao extremo.

Nos foros internacionais Lula detonava. Afinal era um homem humilde que chegou ao posto mais alto de seu país. Internamente o comportamento de alguns governistas da coligação deixava transparecer o uso de formas escusas de obter apoio, através da compra de votos, no caso chamado de Mensalão (2005 – 2006) (3).

O primeiro reinado de Lula I, o único, chegou ao fim com a plateia aplaudindo e pedindo bis (4).

E o bis se fez. Candidatos em 2006, muitos, como sempre, afinal o pluripartidarismo atesta e solidifica a democracia e colabora com a conta corrente dos donos dos minipartidos. Para o segundo turno foram Lula, pela quinta vez candidato e Geraldo Alckmin, paulista de São Paulo, médico, vereador, secretário e prefeito de Pindamonhangaba, governador de S. Paulo, Secretário de Estado, jovem demais à época para ter tido envolvimento com a revolução de 1964, chato de se ouvir e inexpressivo, o antagonista perfeito para Lula vencer.

E Lula venceu o segundo turno.

O mundo recebeu ventos terríveis. De novo o maldito petróleo? Não, agora foram os bancos, os verdadeiros donos do mundo. E a brincadeira de multiplicar o investimento não deu certo. O banco A comprava do banco B e vendia a mesma coisa ao banco C, que vendia ao banco D etc. O mesmo produto era comercializado múltiplas vezes a preços crescentes. Os agentes enriqueciam com a participação nos lucros hipotéticos. Países tornavam-se paraísos econômicos. Um dia alguém quis o dinheiro, não apenas a transferência da dívida. E tudo desmoronou. Países faliram; empresas sérias, mas nem tanto, faliram; bancos faliram. A economia mundial entrou em crise. Lula disse: “Isto não é um tsunami, é uma marolinha para o Brasil”. E a economia bral-burdiana se recuperou com o incentivo ao consumo: compre o seu carro zero em 80 (oitenta) prestações mensais que cabem no seu bolso. E a economia bral-burdiana se recuperou com investimentos chineses: vende-se também a Bral-Búrdia em suaves prestações mensais.

E o país se mantinha estabilizado. Uma massa enorme de brasileiros saiu da pobreza. O número de brasileiros com emprego crescia. O apoio aos menos favorecidos crescia. Todos felizes, ou quase.

E Barack Obama chamou Lula de “O cara, o político mais popular da Terra”. E Lula, de dedo em riste, respondeu a Obama (não é possível ouvir o que foi dito) (5).

Em 2009, ventos duvidosos começam a soprar da Polícia Federal em direção a Brasília. E ameaçam balançar Bral-Búrdia. A Polícia Federal inicia investigações relacionadas a lavagem de dinheiro por um deputado de Londrina, Paraná. Aparentemente nada muito fora do normal.

Em 2010, eleições. Candidatos os muitos de sempre, afinal o pluripartidarismo … De um lado, pela impossibilidade de uma segunda reeleição do Criador, a sua Criatura, Dilma Rousseff, gaúcha de Minas Gerais, apresentada como pessoa capaz, de liderança inconteste, economista quase doutora (7), mãe do PAC, Programa de Aceleração do Crescimento, perseguida e torturada durante a revolução de 1964. Do outro lado, José Serra, inspirado nas três tentativas frustradas de Lula, partia para a sua segunda tentativa, abandonando mais uma vez um posto de governo em São Paulo para se candidatar à presidência.

Com o apoio de Lula e a máquina do Governo Federal ao seu lado, não havia chance para Serra; jamais haverá. E ele perdeu pela segunda vez.

E lá se foi Dona Dilma. Talvez o seu maior legado do primeiro mandato tenha sido a criação de uma palavra nova na língua portuguesa. Ela passou a exigir ser chamada de presidenta. E se perpetrou mais um massacre na língua portuguesa. As trapalhadas de Dona Dilma estão registradas na Internet, em livros e também já foram abordadas neste blog em Era uma Vez e Era uma Vez, outra vez.

O clientelismo populista personificado pela gastança desenfreada somado aos ventos econômicos ruins soprando pelo mundo, em particular na China, levavam a economia brasileira a uma situação perigosa. Mas, por ser ano eleitoral, mentiu-se, para variar.

Os ventos ruins internos de 2009 se intensificaram e, em 2013 se transformaram em furacão. Ventos terríveis que permanecem até hoje e que muitos consideram ventos bons. São os ventos da oportunidade oferecida para Bral-Búrdia tornar-se um país íntegro. Em 2013, a investigação iniciada em 2009 identificou quatro doleiros atuantes em lavagem de dinheiro e, deles, chegou-se à identificação de um esquema imenso de corrupção nos altos escalões de Brasília, tendo como fonte principal de espoliação a Petrobrás (6). A Operação recebeu o nome de Lava-jato.

Antes que eu esqueça. E o país ia seguindo em frente. Comprava-se o que não se precisava, exportava-se a matéria prima para adquiri-la industrializada, incentivava-se a industrialização importando indústrias, investia-se em conhecimento copiando modelos externos, etc. etc.

Em 2014, nova eleição. Candidatos, muitos. No segundo turno a presidenta de um lado e adivinhe quem. Quebrou-se a regra, nem Serra, nem Alckmin; Aécio Neves, mineiro de Minas Gerais, economista, parente do presidente que salvaria o país, mas não tomou posse, Tancredo Neves, deputado federal, governador de Minas Gerais e pouco convincente ou, talvez, insípido, insoso e inodoro.

E Dilma venceu com 51,6% dos votos contra 48,4% para Aécio Neves. A divisão dos votos foi clara. Sul, Sudeste exceto Minas Gerais e Rio de Janeiro somados a Acre e Roraima deram maioria a Aécio. Norte e Nordeste, Minas e Rio de Janeiro apoiaram Dilma. Aécio perdeu em seu próprio estado.

O novo governo Dilma começou mal, evoluiu para péssimo e chegou a um pedido de impedimento para a presidenta ao final de 2015. Tantas trapalhadas e jogadas ilegais teriam consequências. Se não fosse por isso, ela deveria sofrer “impeachment” pelo final inacreditável de sua entrevista após a abertura dos trabalhos da ONU em setembro de 2015, quando ela sugeriu pesquisas para se guardar o vento em movimento e, com ele, movimentar usinas eólicas quando necessário (acessar Dilma e o vento no You Tube; há muitas coisas boas lá).

A economia afundou, a inflação voltou a crescer. O número de desempregados cresceu, muitos dos que haviam saído da pobreza durante o reinado de Lula, o criador, voltaram à pobreza no reinado de Dilma, a criatura. As pessoas voltaram a falar, falar, falar e ninguém a ouvir. Em maio de 2016 a presidenta foi afastada e o vice-presidente passou a exercer interinamente a presidência.

Face à possibilidade iminente de passar a exercer interinamente a presidência, até o julgamento do impeachment da presidenta pelo Senado de Bral-Búrdia, o vice-presidente antecipou e negociou a formação de um ministério com menos ministros, porém qualificados. Dois dias após a posse de seu ministério, o interino teve de trocar dois ministros por acusações de corrupção e participação no esquema Lava-jato. Um terceiro já se foi e outros mais estão pendurados pelas mesmas razões. Quais foram os critérios do presidente interino para escolher seus ministros? O envolvimento com corrupção? Melhor acreditar que não houve critério, isto é, mais do mesmo de sempre.

O planejamento governamental, inexistente, conhecido por “Planejamento Zero”, busca tapar hoje os buracos de ontem e o povo, sempre ele, pode mais uma vez ser chamado a pagar as dívidas contraídas em seu nome, sem a sua consulta e que pouco reverteram a seu favor. A segurança institucional não parece estar ameaçada, porém o maior fator de insegurança não são mais os opositores internos ou potências estrangeiras. A maior ameaça à segurança nacional continua sendo o próprio governo.

E agora?

O futuro continua pertencendo apenas a Deus! Até quando os ba-gunços continuarão se omitindo?

 

(3) https://pt.wikipedia.org/wiki/Esc%C3%A2ndalo_do_Mensal%C3%A3o

(4) https://www.vagalume.com.br/gonzaguinha/pois-e-seu-ze.html

(5) https://www.youtube.com/watch?v=7vmuSZtiG4A

(6) http://lavajato.mpf.mp.br/atuacao-na-1a-instancia/investigacao/historico/por-onde-comecou

(7) http://www.estadao.com.br/noticias/geral,dilma-rousseff-admite-erro-em-curriculo,399151

 

Saúde e alegria a todos

O futuro a Deus pertence 4.2

Escrito em 1981

A segurança nacional voltou a ser ameaçada, não mais pelos opositores internos ou por potências estrangeiras. A maior ameaça à segurança nacional tornou-se o próprio governo.

E agora? O futuro a Deus pertence!

Escrito em 2016

De qualquer forma, após dois anos o caçador de marajás ou Fernando I, o Breve, acabou apeado do poder e cassado por corrupção, denunciado por seu próprio irmão (1). No curto reinado, algumas trapalhadas econômicas, tentativas frustradas de reduzir a inflação e outros fracassos.

E o país ia seguindo em frente. Comprava-se o que não se precisava, exportava-se a matéria prima para adquiri-la industrializada, incentivava-se a industrialização importando indústrias, investia-se em conhecimento copiando modelos externos, etc. etc.

Assumiu o vice, Itamar Franco, um homem de topete. E para que não pairasse dúvidas sobre o seu futuro governo, manifestou imediatamente saudades do carrinho Volkswagen, chamado originalmente de besouro, e, no Brasil, de Fusca. Uma obra genial do Escritório Porsche, o Fusca nasceu ao início da década de 30, pouco antes da ascensão dos nazistas, 1933, ao poder (2). O primeiro veículo foi colocado no mercado em 1940, já durante a segunda guerra mundial e sua produção voltou-se para modelos de aplicação bélica. Em 1953 o Fusca passa a ser montado no Brasil; em 1959 54% das peças do veículo eram nacionais; em 1975, com o choque do petróleo, passa-se a buscar veículos com consumo reduzido; em 1985 a VW encerra a produção do Fusca, por obsolescência do projeto. Em 1993, por sugestão do Presidente da República, Itamar Franco, a VW volta a produzir o Fusca. Dizem que ele pretendia expor a todo o Brasil o seu compromisso com a modernidade. E a inflação campeava alegre, livre, leve e solta. Como seu Ministro das Relações Exteriores, Fernando Henrique Cardoso.

Bons ventos circularam por Bral-Búrdia. FINALMENTE! Quem é o culpado pelos bons ventos? Só pode ser Deus, afinal Deus é brasileiro!

Em um lance político magistral, Itamar, o do topete, passa o sociólogo Fernando Henrique Cardoso do Ministério das Relações Exteriores para o da Fazenda. Choque em Bral-Búrdia! O presidente mandou o Ministro Fernando Henrique Cardoso plantar batatas? E Fernando Henrique, assessorado por economistas loquazes, opera o milagre. E, como por passe de mágica, a inflação acabou em Bral-Búrdia! Obra divina! É a prova cabal de que Deus é brasileiro!

Apoiada no conceito vigente desde a época dos visitantes permanentes, ora batizado de “Planejamento Zero”, a economia crescia. A indústria de Bral-Búrdia passa a receber novos investimentos, representados por novas montadoras de veículos. A agricultura se espalhara pelo Brasil. Do Sul-Sudeste ela invadira o Centro-Oeste e o Nordeste. A pecuária acompanhou a agricultura. A flatulência bovina em Bral-Búrdia atinge cifras que comprometem o equilíbrio do meio ambiente mundial. Bral-Búrdia mudou mesmo de patamar, acreditavam todos.

Novas eleições presidenciais. Candidatos, muitos, afinal o pluripartidarismo atesta e solidifica a democracia. Consta que o pluripartidarismo também colabora com a conta corrente dos donos dos mini partidos. Dentre os muitos candidatos um líder nato, homem de origem humilde, nordestino, trabalhador metalúrgico, mutilado no trabalho, presidente de sindicato, opositor do regime militar, fundador de partido político de ideologia clara e definida, batalhador pelas causas dos pobres e mais; Luiz Inácio Lula da Silva, o Lula. Do outro lado Fernando Henrique Cardoso, paulista nascido no Rio de Janeiro em 1931 e morador em São Paulo desde 1940, descendente de militares políticos, culto, sociólogo, professor universitário, opositor da revolução de 1964, o antagonista perfeito para Lula.

E Lula continuou a sua peregrinação rumo à desmoralização explícita; perdeu pela segunda vez.

E o país ia seguindo em frente. Comprava-se o que não se precisava, exportava-se a matéria prima para adquiri-la industrializada, incentivava-se a industrialização importando indústrias, investia-se em conhecimento copiando modelos externos, etc. etc.

Com uma inflação ridícula, ainda mais se comparada com os cerca de 80% ao mês de outrora, e uma ambição clara, Fernando II, o Sábio, circulava pelo mundo exibindo a sua cultura. Poderia ter sido um governo diferenciado se o poder não houvesse subido à sua cabeça e à de seu partido. E, em conjunto, passaram a batalhar pela possibilidade de reeleição. A oposição, que sempre se enxerga como futura situação, reclamou. Havia o perigo representado pela necessidade de se alterar a constituição. Mas o multipartidarismo consciente, consciente de seus interesses, falou mais alto. Aprovada (comprada?) a reeleição, mas apenas uma!

1998, novas eleições presidenciais. Candidatos, muitos, afinal o pluripartidarismo atesta e solidifica a democracia. Consta que o pluripartidarismo também colabora com a conta corrente dos donos dos mini partidos. Dentre os muitos candidatos um líder nato, homem de origem humilde, nordestino, trabalhador metalúrgico, mutilado no trabalho, presidente de sindicato, opositor do regime militar, fundador de partido político de ideologia clara e definida, batalhador pelas causas dos pobres e mais; Luiz Inácio Lula da Silva. Do outro lado Fernando Henrique Cardoso, paulista nascido no Rio de Janeiro em 1931 e morador em São Paulo desde 1940, descendente de militares políticos, culto, sociólogo, professor universitário, opositor da revolução de 1964, comprador da reeleição, o antagonista perfeito para Lula.

E Lula continuou a sua peregrinação rumo à desmoralização explícita; perdeu pela terceira vez. Diz-se que, ao perder pela terceira vez, Lula descobriu que um só partido não faz presidente, gritou que ”um é pouco, dois é bom, três é demais e quatro inaceitável” e abriu-se a conchavos. Havia atingido o limiar da desmoralização.

Os bons ventos continuavam soprando sobre Bral-Búrdia. Chegamos mesmo em um outro patamar. Podemos deixar a condição de coadjuvantes e aceitar o protagonismo político-econômico mundial. O protagonismo latino já havia se manifestado com a criação do Mercosul em 1991. O problema no Mercosul foi e é a existência de dois protagonistas adeptos do “Planejamento Zero” brigando para ser o primeiro nome a aparecer nos créditos. Além disso, o parceiro opositor de Bral-Búrdia, Bagunçón, vive o eterno dilema de tentar explicar ao mundo ser o único país europeu ao sul do equador, bem ao sul.

O segundo governo de Fernando II, o Sábio, foi seguindo sem maiores problemas aparentes, a menos da mácula e das sequelas das negociatas feitas para viabilizar a aprovação do segundo mandato.

Nas eleições presidenciais de 2002, para variar, muitos candidatos. Afinal, o pluripartidarismo atesta e solidifica a democracia e colabora com a conta corrente dos donos dos mini partidos. Pela quarta vez consecutiva, dentre os muitos candidatos um líder nato, homem de origem humilde, nordestino, trabalhador metalúrgico, mutilado no trabalho, presidente de sindicato, opositor do regime militar, fundador de partido político de ideologia clara e definida, batalhador pelas causas dos pobres, aberto a conchavos até com Paulo Salim Maluf e mais; Luiz Inácio Lula da Silva. Do outro lado José Serra, paulista, economista, ministro, secretário, perseguido pela revolução de 1964, exilado e inexpressivo, o antagonista perfeito para Lula vencer.

E Lula, finalmente, venceu o primeiro turno. E venceu em todos os estados da União, exceto em Alagoas, no segundo turno. Venceu pela primeira vez e pela primeira vez com coligações conchavantes ou conchavos coligantes.

continua

(1) http://acervo.oglobo.globo.com/fatos-historicos/presidente-collor-sofreu-impeachment-em-1992-foi-cassado-pelo-senado-9239073

(2) https://pt.wikipedia.org/wiki/Volkswagen_Fusca

Saúde e alegria a todos

O futuro a Deus pertence 4.1

Escrito em 1981

A segurança nacional voltou a ser ameaçada, não mais pelos opositores internos ou por potências estrangeiras. A maior ameaça à segurança nacional tornou-se o próprio governo.

E agora? O futuro a Deus pertence!

Escrito em 2016

A ameaça governamental ao país passou a ser combatida internamente. Os cassados de 1968 estavam com seus direitos restituídos, muitos dos opositores que haviam deixado o país já haviam retornado. A economia ia mal, muito mal, ao início da década de 80. A situação política estava insustentável. A democracia plena de quase ditadura, dubiedade inexplicável comum em Bal-Gunça, associada ao pragmatismo dos ba-gunços do século XVI e dos balbúrdios atuais, tornou-se convenientemente intolerável. Os ventos terríveis de meados dos anos 70 continuavam a soprar.

Pausa: Esses ventos terríveis, econômicos ou não, não param de encher o saco desta bendita terra. E nenhum pai da pátria ainda se preocupou com eles!? Ou eles são convenientes?

O então dono do poder começou o que foi chamado de retorno lento e gradual à democracia. Retorno lento e gradual o suficiente para fazer o seu sucessor. Este, aparentemente feliz por poder cuidar de seus cavalos, dos quais dizia gostar mais que do povo, indicava tendências a devolver a Bral-Gunça a todos os balbúrdios ao final de seu mandato. Ao final de 1979 o bipartidarismo foi abolido e voltou-se ao regime multipartidário. O multipartidarismo permitiu a criação de partidos suficientes para acomodar as várias tendências políticas, que em Bral-Gunça beiram o infinito e variam de acordo com interesses específicos e de momento. Com isso, a quantidade de interesses em jogo e a quantidade de interessados em tantos e diversos interesses impedia qualquer entendimento; o que permanece até os nossos dias.

Paralelamente, a industrialização crescia, a produção agrícola acelerava. E Bral-Búrdia firmou-se em um novo patamar, acreditavam muitos. Fabricamos veículos! Construímos uma nova capital no centro do país! Gritavam todos. A indústria automobilística bral-burdiana começa a ganhar vulto. O júbilo patriótico crescia. Exportamos veículos, bradavam alguns. Para o Iraque, retrucavam outros. Consta que parte dos Passat exportados para o Iraque não foram pagos. Consta ainda que o calote aplicado pelo governo de Sadam Hussein ao Brasil não foi uma das causas das duas guerras do Golfo.

Na política a grande dúvida era pequena: como fazer a devolução da Bral-búrdia aos bagunços? Os opositores, agora mais livres, passaram a exigir eleições diretas. Por que? Porque apesar de o golpe de 1964 ter sido feito também em nome do povo, este passou todo o tempo sem poder escolher os seus governantes. E criou-se o movimento “DIRETAS JÁ”. A genialidade de presidente e vice poderem ser de partidos antagônicos havia sido abolida. Durante o regime militar, Tancredo Neves (1) havia pertencido ao partido da oposição, MDB, e José Sarney (2) ao da situação, ARENA. E, em eleição indireta foram eleitos Tancredo Neves, opositor do regime militar, para presidente e José Sarney, apoiador do regime militar, para seu vice, ambos já em novos partidos, de oposição.

Em uma manobra do destino, Tancredo Neves morre antes de tomar posse.

Pausa: Homem de sorte! Tivesse governado, teria sido mais uma decepção dentre todos os demais. Tornou-se, porém, a solução da qual Deus não nos permitiu usufruir.

O que fazer? Aceitar um situacionista de oposição ou um opositor da situação como presidente por quatro anos? Se o presidente e o vice não tomaram posse, o vice é o seu sucessor?

Sucessor de um presidente que não tomou posse? Oh maravilha para os bagunços! Voltamos aos bons e velhos tempos! Loquazes por natureza, os balbúrdios deliciavam-se com o poder do rádio e o poder da TV. Quantas informações para se cacarejar a respeito! Todos falavam de tudo e de todos, principalmente os políticos.

E Sarney tomou posse como presidente eleito, ou vice-presidente eleito. E seu governo foi inacreditavelmente esquecível, a menos da inflação galopante. Quatro anos depois, 1989, o povo foi chamado a escolher o seu sucessor. Candidatos, muitos.

Dentre os muitos candidatos um líder nato, homem de origem humilde, nordestino, trabalhador metalúrgico, mutilado no trabalho, presidente de sindicato, opositor do regime militar, fundador de partido político de ideologia clara e definida, batalhador pelas causas dos pobres e mais; Luiz Inácio Lula da Silva, o Lula, que em 1982 havia incorporado o apelido ao seu nome. Do outro lado Fernando Collor de Mello, alagoano nascido no Rio de Janeiro, filho de político federal, representante legítimo do sistema feudal vigente no nordeste brasileiro. Jovem, boa aparência, ousado, motociclista, rico, esposa jovem e atraente, o antagonista perfeito para Lula.

E Lula iniciou aí a sua peregrinação rumo à desmoralização explícita; perdeu.

Fernando Collor de Mello, duas vezes consoante dupla no seu nome! Uau! Teria sido ele a inspiração para a sanha dos pais brasileiros em duplicar consoantes nos nomes dos seus filhos? Nada consta a respeito. E ele chegou arrebentando. O caçador de marajás. O macho de motocicleta. O dono do cofre. O “que tinha aquilo roxo”! Dizem alguns que “aquilo roxo” jamais foi apresentado para confirmação de tonalidade. Dizem outros que aquilo roxo foi consequência de uma queda sobre uma cerca de fazenda. De qualquer forma, após dois anos o caçador ou Fernando I, o Breve, acabou apeado do poder e cassado por corrupção, denunciado por seu próprio irmão (1). No curto reinado, algumas trapalhadas econômicas, tentativas frustradas de reduzir a inflação e outros fracassos.

E o país ia seguindo em frente. Comprava-se o que não se precisava, exportava-se a matéria prima para adquiri-la industrializada, incentivava-se a industrialização importando indústrias, investia-se em conhecimento copiando modelos externos, etc. etc.

Pausa: Alguém pode estranhar a grafia variável do nome da terra sobre a qual se escreve. Afinal escreve-se Bal-gunça ou Bral-Gunça, bagunços ou ba-gunços ou Bal-búrdia ou …? Irrelevante se com esse ou com ze, se com jota ou com gê. Em Bral-Gunça, o que vale é o som. Como se escreve é secundário. Se no futuro alguém irá entender os escritos, sabe-se lá o que é futuro. O futuro a Deus pertence, não?

continua

(1) http://acervo.oglobo.globo.com/fatos-historicos/presidente-collor-sofreu-impeachment-em-1992-foi-cassado-pelo-senado-9239073

Saúde e alegria a todos

O futuro a Deus pertence 3

Escrito em 1981

Antes do término do mandato e em nome do mesmo povo, agora não consultado, os governantes eram depostos.

E o país ia seguindo em frente. Comprava-se o que não se precisava, exportava-se a matéria prima para adquiri-la industrializada, incentivava-se a industrialização importando indústrias, investia-se em conhecimento copiando modelos externos, etc. etc.; e isto continua até os dias de hoje.

Além disso a industrialização começava a reduzir a produção agrícola. E Bral-Búrdia trocou de patamar, acreditavam muitos. Fabricamos veículos! Construímos uma nova capital no centro do país! Gritavam todos. A indústria automobilística bral-gunciana começa a ganhar vulto. O júbilo patriótico cresce.

Volkswagen, Ford, General Motors, Mercedez-Benz (Daimler-Benz) faziam os balbúrdios vibrar. E ninguém notou que os nomes das empresas nada tinham de bral-gunciano. Mas, bradavam os entusiastas, para que “inventar a roda” se já existem aqueles que têm experiência na fabricação de veículos? Vamos trazê-los para construir veículos para nós, com nossa mão-de-obra. E, mais uma vez recebemos ajuda externa, agora de empresas ao invés de pessoas, que como no passado interessavam-se em trazer aos balbúrdios uma cultura tecnológica avançada e conceitos modernos de produção, sem nada exigir em troca; nada além dos direitos dos projetos, royalties, enviados para a matriz e preços muito acima do cobrado para os mesmos veículos comercializados no exterior. O governo, sempre ávido por mais dinheiro, impôs taxações elevadíssimas sobre os veículos e manteve a extorsão nos preços de venda dos veículos.

A capital ficou pronta em tempo recorde, ou quase, e foi inaugurada como o novo orgulho dos balbúrdios. Na inauguração encerrava-se também o período de gestação do que viria a ser o melhor amigo dos senhores da terra, a INFLAÇÃO.

O povo, convocado às urnas elegeu presidente e vice com votações espantosas. Em uma ação de inteligência extrema, alguém havia feito ser aprovada a possibilidade de serem votados e eleitos presidente e vice de partidos antagônicos. E isto aconteceu. O presidente eleito prometeu um governo inovador, ágil e criativo. Agilmente usou a sua criatividade para inovar; oito meses depois da posse abandonava o cargo. Consta que o seu objetivo era de ser aclamado ditador, mas deu azar.

A época era ruim. Loquazes por natureza, os balbúrdios deliciavam-se com o poder do rádio e o poder emergente da TV. Quantas informações para se cacarejar a respeito! Todos falavam de tudo e de todos, principalmente os políticos.

O vice, chamado a não assumir a presidência, recusou. Depois de idas e vindas, tomou posse o vice-presidente, de tendências esquerdistas e contra a vontade dos anticomunistas. Talvez o vice tenha recebido tal caracterização, esquerdista, por ser canhoto ou algo semelhante. E a inflação crescia.

Os políticos manobraram. Tentaram, inventaram, mudaram a constituição, pariram o parlamentarismo, mudaram a constituição de novo, enterraram o parlamentarismo. Haja criatividade inútil. Não deu mais. Cerca de quatro anos depois das eleições e em nome do povo, mas sem consulta-lo, o presidente foi apeado do poder. O movimento que derrubou o presidente e instalou o os militares no poder por cerca de 20 anos foi chamado de “Revolução de 31 de março”. Consta que muitos a veem mais como uma revolução de primeiro de abril.

A explicação para a mudança era simples. Inflação alta, descontrole governamental, ameaça à segurança nacional, falta de planejamento etc. etc. Os novos comandantes do país reduziram a falação, reorientaram a máquina governamental, empreenderam o desenvolvimento, dizem. Poucos entenderam e vários insistiam em ser contra. Comunistas, desejavam lançar a Bal-gunça no caos e tomar o poder, instalar um governo de partido único, controlar os demais poderes, eliminar os opositores e implantar uma ditadura. Exatamente o que acabara de ser feito. Os opositores tomaram em armas e tentaram seguir o modelo cubano, quando um punhado de homens em um iate invadiram a ilha e tomaram o poder com a ajuda do povo, dizem.

Os novos donos do poder sentiram-se desafiados. Permitir a vitória dos revoltosos seria permitir banhar de sangue o deserto verde e líquido. E reagiram. Aparentemente os revoltosos desconheciam certas peculiaridades de Bal-Gunça e dos balbúrdios.. Bal-Gunça não era uma ilha, visto que o nome Ilha de Santa Cruz havia sido abandonado há séculos atrás, depois de os colonizadores terem pressentido que a área da então Bral-Búrdia era relativamente elevada. Eles também não deviam entender muito de logística e, principalmente, desconheciam o pragmatismo dos balbúrdios e também a peculiaridade de seu caráter. Estes, sob ameaça abriam mão de suas crenças e também faziam o que bem entendiam, preocupando-se apenas consigo mesmo, como outrora constatado pelos colonizadores (O futuro a Deus pertence 1).

Os revoltosos perderam, como era de se esperar, menos por eles.

Durante o combate à contrarrevolução os novos governantes fecharam todos os partidos, colocaram o legislativo e o judiciário a serviço do povo, representado por eles mesmos, perseguiram os que pensavam diferente, cassaram direitos políticos e canalizaram o banho de sangue para os esgotos, mantendo o deserto verde e líquido quase limpo. Tempos depois uniram-se em um partido fictício, mas real e de sigla ARENA, aos políticos mais desclassificados, os que abriam mão de suas convicções à primeira ameaça e implantaram a democracia ditatorial de quase partido único.

A Bral-Gunça progredia. Comprava-se o desnecessário, exportava-se a matéria prima para adquiri-la industrializada, incentivava-se a industrialização importando indústrias e exportando dividendos, investia-se em conhecimento copiando modelos externos, etc. etc.; o que se vivencia até hoje.

A Bral-Gunça progredia. Ninguém falava e tinha-se a impressão de que todos prestavam atenção. Ao que? Certas coisas não devem ser perguntadas.

Pausa: Alguém pode estranhar a grafia variável do nome da terra sobre a qual escrevemos. Afinal escreve-se Bal-gunça ou Bral-Gunça, bagunços ou ba-gunços ou Bal-búrdia ou …? Irrelevante se com s ou com z. Em Bral-Gunca, o que vale é o som. Como se escreve é secundário. Se no futuro alguém irá entender os escritos, sabe-se lá o que é futuro. O futuro a Deus pertence, não?

Milagre, milagre, a inflação foi reduzida a míseros 15% ao ano. Milagre apenas explicado pela capacidade dos senhores da terra ora no poder.

O mundo recebeu ventos terríveis. O preço do petróleo duplicou, triplicou, quadruplicou. Não, quintuplicou. Decuplicou e mais. De US$ 2,00 o barril passou para US$ 30,00. O milagre começou a provar que os ba-gunços do século XVI tinham razão em aceitar apenas a quase-conversão. Milagres não são fabricados; acontecem?

A inflação disparou. As pessoas voltaram a falar, falar, falar e ninguém a ouvir.

O planejamento governamental foi reduzido a tapar hoje os buracos de ontem e o povo, sempre ele, foi chamado a pagar as dívidas contraídas em seu nome, sem a sua consulta e que pouco reverteram a seu favor. A segurança nacional voltou a ser ameaçada, não mais pelos opositores internos ou por potências estrangeiras. A maior ameaça à segurança nacional tornou-se o próprio governo.

E agora?

O futuro a Deus pertence!

 

 

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O futuro a Deus pertence 4 deverá ser publicado em algum momento, com a atualização das condições de Bal-gunça para os dias atuais. Não deverá ser difícil, pois continuam se repetindo os problemas de sempre. E o final do novo texto já está escrito; será a repetição  do texto acima, a partir de “O planejamento …”.

Saúde e alegria a todos

O futuro a Deus pertence 2

Escrito em 1981

Importou-se a mão de obra necessária! Novamente a grandiosidade da religião (deturpada) se impôs.

Na procura por povos adeptos do trabalho estimulado, isto é, sem recompensa além de chão para dormir e lavagem para comer, encontrou-se os ideais. Negros, assemelhados a macacos, só poderiam ter sido criados por deus para servir aqueles que pensassem por eles. Importem-nos!

E assim se fez. Ao longo do tempo sequestrados na África chegavam mais e mais negros estimulados a trabalhar por livre escolha para os bagunços em troca de chão, sobras de comida e chicote.

A Bral-Búrdia, agora rebatizada de Bal-Gunça em homenagem aos bagunços; poucos entenderam a razão do uso do ífem se a homenagem era aos sem ífem; ia de vento em popa. De vez em quando grupos pequenos de ba-gunços, que já haviam perdido até a elevada taxa de natalidade, eram exterminados. Outras vezes importava-se enxadas sem cabo e sem lâminas. Outras vezes ainda eram comprados navios de guerra especiais para guardar as fronteiras de Bal-Gunça com os países andinos, onde não existia mar ou rios de fronteira. Desnecessário escrever que tais práticas permanecem até os nossos tempos.

Ventos fortes agitaram a Bal-Gunça. O filho do chefe dos bagunços liberta a Bal-Gunça dos visitantes permanentes. Todos ficaram maravilhados esquecendo-se serem os bagunços os próprios visitantes permanentes. O chefe dos bagunços havia aconselhado seu filho para que, em caso de independência iminente, fosse ele o libertador para evitar que “um aventureiro lançasse mão” de tal ação e do país. Aparentemente até hoje o conselho do chefe dos bagunços foi ouvido apenas por seu filho lá por 1820. Cansado dos aventureiros o filho do chefe dos bagunços abdicou do trono de Bal-Gunça após poucos anos e retornou à origem. Deixou seu filho, ainda criança, como sucessor. E Bal-Gunça continuou prosperando, apoiada em uma agricultura ajudada por muitas terras férteis e muitos negros chicoteados.

O alto custo de manutenção dos negros, cansados das reuniões chicoteadas, chão para dormir e restos para comer, transformou-os em seres humanos e eles foram libertos. Todos, ou quase todos, ficaram maravilhados. Muitos se esqueceram que os negros, livres de serem malcuidados pelos seus senhores, de repente passariam a cuidar de si e a continuar trabalhando para os antigos donos. Tal desinteresse por consequências de ações oficiais, ou não, permanece até os dias de hoje.

As coisas políticas não iam bem em Bal-Gunça, a quantidade de interesses em jogo e a quantidade de interessados em tantos e diversos interesses impedia qualquer entendimento; o que permanece até os nossos dias. Essa do neto do chefe dos visitantes permanentes, mesmo sendo filho do libertador, mandar no país, não fazia sentido. Apeie-se o homem do poder e que seja dado ao povo o direito de escolher todos os seus dirigentes.

E um soldado de nobre estirpe, monarquista convicto, sobe em seu cavalo e proclama a república. Consta que o objetivo era apenas pressionar o Imperador por interesses de amigos e seus próprios. Mas a ação não deu certo e a Bal-Gunça virou república. Seu primeiro presidente, um marechal monarquista. O povo, pela primeira vez lembrado para a escolha de seus dirigentes; e daí até nossos dias só lembrado nessa época; já apresentava um caráter e comportamento peculiar. Fazia o que bem entendia, por influência dos ba-gunços, preocupando-se apenas consigo mesmo, influência dos bagunços, e ia tocando a vida.

O povo de Bal-Gunça, os balbúrdios, era composto por várias camadas de habitantes, cada uma com origens diferentes. Os estrangeiros em extinção, outrora chamados de ba-gunços; os senhores da terra, legítimos e únicos habitantes do país desde tempos imemoriais, outrora bagunços, e os visitantes, homens e mulheres que, chegados há pouco, estavam conhecendo o país permanentemente. O termo visitante permanente havia sido abolido pelos senhores da terra por ser “historicamente incorreto”.

E o país ia seguindo em frente. Comprava-se o desnecessário, vendia-se navios de matéria prima para com o auferido adquirir cestas de produtos industrializados com a matéria prima vendida, incentivava-se a industrialização importando indústrias, investia-se em conhecimento copiando modelos externos, etc. etc.; e isto continua até os dias de hoje.

Pausa: Alguém pode estranhar a grafia variável do nome da terra sobre a qual escrevemos. Afinal escreve-se Bal-gunça ou Bral-Gunça, bagunços ou ba-gunços ou Bal-búrdia ou …? Irrelevante se com s ou com z. Em Bral-Gunca, o que vale é o som. Como se escreve é secundário. Se no futuro alguém irá entender os escritos, sabe-se lá o que é futuro. O futuro a Deus pertence, não?

Os governos sucediam-se tranquilamente. O povo, chamado a votar para escolher os seus governantes, os escolhia por períodos fixos de cinco anos. Antes do término do mandato e em nome do mesmo povo, agora não consultado, os governantes eram depostos.

 

Continua

Saúde e alegria a todos

O futuro a Deus pertence 1

Escrito em 1981

Há muito tempo, em um lugar chamado Bral-Búrdia, perdido nos confins da Arábia, daí seu nome, entre as montanhas posteriormente conhecidas como Andes e a grande água, posteriormente conhecida como Oceano Atlântico, viviam povos nômades dispersos por um deserto de árvores e rios caudalosos.

Estes nômades formavam um grupo curioso de nômades. Enquanto os nômades de outros lugares viviam a andar sem se fixar em lugar algum, os nômades de Bral-Búrdia mantinham-se fixos sem se deslocar a lugar algum.

O fator geográfico, desertos verdes com rios caudalosos, aliado à peculiaridade do povo, nômades fixos, conferia ao lugar características únicas entre seus vizinhos. Os habitantes de Bral-Búrdia, chamados de ba-gunços, viviam contentes e produziam o suficiente, o suficiente para manter a taxa de natalidade de Bral-Búrdia como uma das mais altas entre seus vizinhos.

Certo dia as coisas mudaram. Bral-Búrdia foi descoberta. E as coisas deixaram de ser fáceis para os ba-gunços. Logo após o descobrimento chegaram os colonizadores, pessoas cujo único interesse era trazer aos ba-gunços uma cultura avançada e uma religião moderna, monoteísta, sem nada exigir em troca; nada além de tudo o que de bom e de melhor Bral-Búrdia pudesse ter.

Pouco tempo passou e os colonizadores constataram que os ba-gunços não eram muito chegados ao trabalho. Os compreensivos visitantes, que com o tempo passaram a ser conhecidos como visitantes permanentes, concluíram que, face à situação de momento e com os piedosos ensinamentos da religião moderna recém trazida, estava na hora de ensinar os ba-gunços a trabalhar, na porrada. Mantida a situação vigente, os ba-gunços não teriam chance de sobrevivência no mundo que os piedosos visitantes permanentes começavam a impor.

Aproveitando a quase conversão dos ba-gunços à religião moderna, tentou-se durante reuniões conjuntas convencer os ba-gunços que uma enxada na mão ajudava a abrir caminho para o paraíso. O sucesso da tentativa não foi estrondoso, longe disso. Os ba-gunços não conseguiam se convencer das vantagens de se trocar uma cadeira de balanço por uma enxada e, além disso argumentavam descaradamente: – Mim só quase convertido, essa de paraíso mim ainda não entende.

Piedosos, magnânimos, altruístas e interessados em ter empregados que trabalhassem em seu lugar e a custo zero, os visitantes, cada vez mais permanentes, conseguiram finalmente conscientizar os ba-gunços. Estes, de boa vontade e com os arcabuzes às suas costas, resolveram aplainar o caminho para o paraíso com a enxada oferecida pelos visitantes a ir para o inferno mais cedo. Séculos depois este pragmatismo permanece como uma das principais características dos habitantes da outrora Bral-Búrdia.

E assim foi feito. Mas por pouco tempo. Os visitantes permanentes, já quase convencidos de serem os verdadeiros donos da terra, perceberam que os ba-gunços não haviam mesmo nascido para o trabalho, situação que em algumas regiões da outrora Bral-Búrdia permanece até os nossos dias. Obrigados a trabalhar, morriam cedo, na boa vida viviam muito mais tempo. De uma forma ou de outra, não eram produtivos.

Os visitantes permanentes, já autodenominados bagunços, sem ífem para se diferenciarem dos invasores ba-gunços, resolveram importar mão de obra.

Nesta época já existiam alguns estudiosos interessados no que acontecia em Bral-Búrdia. Bral-Búrdia mesmo não tinha estudioso algum, situação que os órgãos públicos procuram manter até hoje. Cientistas e estudiosos de países distantes, alguns sem sequer saber escrever o próprio nome, viajavam para Bral-Búrdia com o objetivo de contribuir para o desenvolvimento da região, ampliar os seus próprios conhecimentos e as suas posses, situação que permanece até os nossos dias. Um desses estudiosos, vindo de uma região distante, apavorado com a incultura, barbárie e incivilização tanto dos invasores ba-gunços, quanto dos habitantes bagunços, jurou que voltaria imediatamente à sua terra, assim que se tornasse milionário. O sábio acrescentou estar ainda decepcionado com o céu noturno de Bral-Búrdia, com um número muito menor de estrelas a iluminar a noite bralburdiana, do que o que ocorria no hemisfério norte.

Outro estudioso, no considerado primeiro trabalho científico sério sobre Bral-Búrdia, escreveu: “É uma terra curiosa, a Bral-Búrdia. O deserto rico em rios caudalosos e vegetação exuberante, o povo nômade fixo desde o início dos tempos, os visitantes permanentes que tomaram o controle total da vida no país, tornam esta terra difícil de se entender. Mas, mesmo assim, devido à sua riqueza em matérias primas e facilidade de adaptação às sugestões impostas pelos bagunços aos ba-gunços e pelos estrangeiros aos bagunços, acredito ser este o país do futuro; frase ouvida até os nossos dias.

Importou-se a mão de obra necessária! Novamente a grandiosidade da religião (deturpada) se impôs.

Continua

 

Saúde e alegria a todos

Era uma vez, outra vez

Em Era uma vez, iniciei a saga da Família, criada pelo Guru e comandada, na aparência, pela Matriarca. A primeira parte da saga, publicada em 5.12.15, encerrou-se com a frase:

Paro por aqui, o que aconteceu em 2015 fica para depois. Depois começa agora.

Antes das eleições de 2014, para o reinado 2015-2018, a investigação sobre corrupção em empresas da Família, que não eram da Família, mas que a Família tratava como suas, tomava vulto cada vez maior. E se começava a questionar a honestidade dos irmãos, aqueles que, apesar de não terem laços de sangue poderiam ser da Família, deixá-la e com isso deixar de ser irmão e posteriormente voltar a fazer parte dela, voltando a ser irmão. A pouca habilidade política da Matriarca, rainha reeleita, somada à sua pouca habilidade econômica, acrescida da gastança desenfreada, levaram o reino a uma condição de penúria. Menos de seis meses após a coroação as coisas estavam ruins; muito ruins.

Ainda no primeiro reinado, a rainha havia desenvolvido uma inimizade visceral com um irmão curioso. Este irmão não era irmão e jamais havia sido irmão e possivelmente jamais seria, por jamais haver pertencido à Família nem ter sido ungido pelo Guru, porém negociava com a Família e os irmãos; apesar do ódio mútuo entre ele e a Matriarca. O irmão, que não era nem havia sido irmão, será a partir de agora chamado de Oráculo, com o maiúsculo, por sua capacidade de intuir o futuro. Quando de uma eleição para príncipe de uma das casas legislativas, a Matriarca pretendeu eleger um irmão na ativa. Oráculo já se havia apresentado como candidato. E venceu. O ódio mútuo cresceu. Aproveitando-se de sua capacidade para intuir o futuro, Oráculo cercou-se de incompetentes na chefia da sua casa legislativa, como seria provado em futuro próximo.

Enfraquecida por sua pouca habilidade, a Matriarca isolava-se cada vez mais. A economia afundava. As investigações se aproximavam mais e mais dos luminares da Família, do Guru, da Matriarca. Em determinado momento a casa, ou o palácio ocupado pela Família, estremeceu. A Matriarca foi acusada de crime de responsabilidade, por haver feito o milagre de pagar duas dívidas com o mesmo recurso. Ela precisaria ser retirada da posição que ocupava. Para piorar, o processo contra a Matriarca caiu nas mãos do odiado Oráculo, que poderia, agora, devolver à Matriarca as gentilezas outrora recebidas. E a carroça chegou à ladeira, levada com competência, honestidade (incomum nele) e prazer pelo Oráculo.

Neste momento, o Guru estremeceu mais do que o palácio. O seu nome, o seu legado, as suas aspirações de substituir a Matriarca em futuro próximo, estavam em perigo. O desemprego aumentava, a economia afundava, as perspectivas futuras se desfaziam. E ninguém perguntou ao Guru onde ele havia visto a competência na Matriarca para impô-la à Família na condição de rainha.

O Guru pôs-se a campo e passou a governar no lugar da Matriarca. Passou a negociar com a classe política uma forma de manter a Matriarca que, naquele momento estava completamente perdida e isolada. A investigação sobre corrupção na empresa da Família, mas que não era dela, expõe que, apesar das negativas, o Guru faz parte sim da Família. São divulgadas propriedades de alto valor do Guru que não estão em seu nome. Tais posses são confirmadas por altos executivos de empresas envolvidas na corrupção das empresas da Família, mas que não eram dela. A partir daí o Guru passou a estar sob risco de prisão. Em um ato desvairado, a Matriarca nomeia o Guru ministro. Em um segundo ato desvairado, ou muito burro segundo alguns, ela liga para o Guru. Por meio de uma mensagem em código aberto, pois todos a entenderam, ela o informa que o termo de posse estava sendo levado para ele, mas somente poderia ser usado em caso de necessidade (prisão) (2). Ministros não podem ser presos pela polícia, pois gozam de “foro privilegiado” ou, como escreveu George Orwell “são mais iguais”. O texto abaixo corresponde ao telefonema entre a Matriarca e o Guru, onde ela, mais uma vez, mostra a sua dificuldade em se explicar por palavras.

Dilma: “Alô.”

Lula: “Alô.”

Dilma: “Lula, deixa eu te falar uma coisa.”

Lula: “Fala, querida. Ahn?”

Dilma: “Seguinte, eu tô mandando o ‘Bessias’ junto com o papel pra gente ter ele, e só usa em caso de necessidade, que é o termo de posse, tá?!”

Lula:  “Uhum. Tá bom, tá bom.”

Dilma: “Só isso, você espera aí que ele tá indo aí.”

Lula: “Tá bom, eu tô aqui, fico aguardando.”

Dilma: “Tá?!”

Lula: “Tá bom.”

Dilma: “Tchau.”

Lula: “Tchau, querida.”

No dia seguinte a gravação é divulgada, pois havia escuta da Polícia nos telefones dos envolvidos no caso das empresas, aquelas que eram, apesar de não serem. O Guru não toma posse.

A derrocada se acelera. Em mais uma tentativa desvairada, os membros da Família, em uníssono, bradam sem descanso que o processo de destituição da Matriarca é um golpe.

A casa legislativa, presidida por um Oráculo feliz, acata o processo de destituição. A Matriarca deixa o seu trono, o Guru desparece, a Família deixa o poder. Dias depois o Oráculo é destituído por corrupção e substituído pelo seu sucessor natural. O sucessor, para reafirmar a intuição do Oráculo (cercar-se de incompetentes), mostra absoluta incompetência desde o seu primeiro instante na presidência e anula a sessão da casa legislativa que acatou o processo de destituição da Matriarca. Horas depois ele anula a anulação.

Este texto foi escrito há cerca de 10 dias, hoje sendo 25.5. Estamos sob nova direção, como se lê em botecos, lojas e outros estabelecimentos comerciais quando da troca de proprietários. A matriarca esperneia, o Guru se mostra magoado. O novo rei, antigo vice-rei, melhorou em muito o nível da língua portuguesa no governo. Esperemos que não fique só nisso. Melhor esperar.

Sugestões: Acessem as referências (1) e (2) para ler e ouvir as conversas entre o Guru e a Matriarca e o Guru e alguns de seus fiéis seguidores.

 

 

(1) https://pt.wikipedia.org/wiki/Opera%C3%A7%C3%A3o_Lava_Jato

(2) http://g1.globo.com/pr/parana/noticia/2016/03/pf-libera-documento-que-mostra-ligacao-entre-lula-e-dilma.html

(3) http://g1.globo.com/politica/operacao-lava-jato/noticia/2016/03/grampo-de-lula-43-13h02.html

 

Saúde e alegria a todos

Acidente fatal

Top chef destrói carreira promissora

Durante evento culinário reservado, o top chef Atr Palhado provocou um acidente fatal, tendo com isso encerrado bruscamente uma carreira promissora. Ao se movimentar elegantemente entre as centenas de utensílios usados para preparar os acepipes que deram a Atr Palhado renome internacional, um brusco movimento, inesperado pelos comensais presentes ao evento e surpreendente para os utensílios, levou o top chef a esbarrar suave e sutilmente em um copo americano que, desatento, tombou sobre a pia. Ainda desatento durante o tombo, o copo americano não expressou qualquer pedido de socorro e, por não ter alertado o top chef, dele não recebeu auxílio. Tristemente, o copo americano partiu-se em pedaços.

Ouvido pelos comensais, o abalado top chef estranhou que um copo americano não tivesse alertado sobre o risco iminente. Por ser originário dos EUA, país tão preocupado com a segurança de tudo e todos, o copo, americano, deveria, por dever de origem, ter emitido ao menos um HELP em alto e bom som. O top chef considera a possibilidade de abandonar a carreira face ao infausto evento do qual participou.

A família Americano agradece às manifestações de carinho face ao desaparecimento de um de seus componentes, Copo, e pede discrição nas manifestações anti-Dilma e pró-Lula. O local do velório não está definido, porém o enterro de Copo Americano será procedido pela Empresa de Coleta de Lixo do Município onde o evento culinário reservado aconteceu.

Indagado, um dos componentes da família Americano, Carro de Combate, afirmou que o seu parente Copo era ainda mais honesto do que o Lula, denominado pelos próximos (puxadores de saco) de o homem mais honesto do Brasil. Carro de Combate acrescentou ainda que Copo jamais aceitaria um ministério para fugir da justiça, pois jamais precisou disso.

Era uma vez

Quando, depois de três tentativas frustradas, o Brasil foi descoberto, foi também fundada uma empresa familiar peculiar. A maioria dos componentes da família que constituiu a empresa não tinha qualquer laço de sangue. Ao ser indagado sobre essa excentricidade, o guru que a criou, mas que dela diz não fazer parte, explicou que não seria possível mudar o mundo repetindo fórmulas antigas e desgastadas. Uma outra peculiaridade da família, que chamaremos de Família com efe maiúsculo a partir de agora, era a sua possível volatilidade. Os irmãos poderiam ir e vir. Os que fossem deixariam de fazer parte da Família, os que viessem passariam a fazer parte dela, pelo menos até irem. Se fossem e voltassem, tornariam a fazer parte da Família. Com tal flexibilidade, o número de componentes da Família não poderia ser fixo e não o é. Dentro da linha de raciocínio do guru, que agora passará a ser chamado de Guru, com gê maiúsculo, quanto maior o número de membros da Família, melhor seria ou será ou é.

Enquanto comandou a Família, apesar de não fazer parte dela, o Guru se permitiu conhecer o mundo, encantar governantes deslumbrados, dar palpite em tudo, discutir os inconvenientes de o mundo não ser plano e afirmar que o Etanol brasileiro seria a solução de combustível líquido para o mundo para, seis meses depois, abandoná-lo e passar a investir no petróleo do pré-sal, solução de combustível líquido para o mundo. Com o pré-sal, asseverou o Guru, o Brasil passará a fazer parte da OPEP. Todo desperdício era permitido, a economia mundial florescia, arrastada pela China. O Brasil exportava minério de ferro e outros insumos perecíveis e também produtos agrícolas e desperdiçava o auferido com as vendas. O reinado do Guru era uma festa. E a oposição …. Qual oposição? O tempo passou e o reinado, apesar de ter sido duplicado, chegava ao fim.

Havia a necessidade de ser encontrado um patriarca; afinal Família sem patriarca não é Família. E o Guru, que não fazia parte da Família, meditou, meditou, meditou muito até encontrar a pessoa adequada. Seria uma matriarca, pois não é possível mudar o mundo repetindo fórmulas antigas e desgastadas. Na visão aquilina do Guru, a matriarca, que agora passará a ser chamada de Matriarca, com eme maiúsculo, não seria uma matriarca qualquer, seria uma Matriarca, com eme maiúsculo e características patriarcais de telenovela: dura, implacável, arguta, séria. Competente?

E a Matriarca ungida pelo Guru foi ungida pelo povo rainha por quatro anos. Como um patriarca de novela, a Matriarca reinou com mão de ferro. Mandou, desmandou, brigou, maltratou. Cercou-se dos melhores membros da Família, pelo menos assim propunha o Guru, mas não conseguiu mais do que errar mais do que acertar. Continuou o projeto do Guru, dentro do princípio “aquele que melhor engana o povo melhor se dá na política”. Mas, em contrapartida ao Guru, a Matriarca deu o azar de reinar durante o período de vagas magras na economia mundial. A gastança desenfreada, coberta com os dólares chineses da importação de commodities, precisava parar, porque a demanda chinesa enfraquecia, como a sua economia. Mas, como as modas demoram a chegar ao Brasil, apesar da Internet, ainda dava para aplicar o princípio do Guru.

Aproximava-se o momento da nova eleição para rei, ou rainha, por quatro anos. E a Matriarca queria continuar reinando. Ou o Guru queria vê-la continuar reinando. Ou o partido da Matriarca e também do Guru queriam vê-la continuar reinando. A Família e o Guru, que não faz parte da Família, queriam manter a confusão por mais quatro anos para então apresentar-se, apenas o Guru, que não faz parte da Família, como salvador da pátria. Ao mesmo tempo a gastança continuava a grassar pelo reino. E as encomendas da China caiam. E o preço das commodities caiam. A eleição se aproximava, assim como a economia afundava. Ajudada pela incompetência da oposição, a Matriarca é reeleita para mais quatro anos de reinado. Na semana seguinte à eleição a Família se coloca em movimento para levar à nação a grande novidade, recém descoberta há mais de ano. A economia vai mal e a culpa é deles. A Matriarca, num arroubo de inacreditável honestidade parcial afirma “Eu subestimei a situação econômica mundial”. A culpa era do mundo, que deixou de subsidiar a bagunça conveniente. “Eles nos traíram”.

Quem são “eles”? Eles são todos aqueles que torcem pelo pior para o país, não aqueles que fazem o pior para o país. Como encontrar a “eles”? “Eles” são todos aqueles que não fazem parte da Família.

Paro por aqui, o que aconteceu em 2015 fica para depois.

Saúde e alegria a todos

 

Administradores – corolário 1

Todas as colônias ou ex-colônias criam piadas sobre os seus colonizadores, e vice-versa. Dizem que aos nossos Manuel ou Joaquim portugueses, correspondem em Portugal a um brasileiro de nome Arlindo. Como eu sou brasileiro, lá vai.

Era uma vez Manuel, empresário português da área de transportes que, lá pelo ano 15 a.C., insatisfeito com o resultado de seu negócio, resolveu transferir-se para a Galileia. Ao lá chegar instalou a sua “Companhia Lusitana de Transportes” e prosperou. Diz-se que a “Companhia Lusitana de Transportes” foi o embrião da Lusitana, empresa de mudanças brasileira; mas isto é uma outra história.

Satisfeito com a transferência e o crescimento da empresa, resolveu procurar orientação profissional especializada, pois tudo o que fizera, o fizera por instinto. Manuel passou a participar ativamente de cursos, whorkshops, palestras e outros mecanismos que, acreditava ele, acelerariam o crescimento de sua empresa de transportes em lombo de burros.

Certa vez recebeu pela Internet um convite instigante, que o convidava a participar de um workshop com um grande guru da administração. Este guru, Zaq Valdi, havia presidido uma grande empresa norte-americana, a montadora JEME, recém falida. Como a JEME falira pouco depois da saída de Zaq, os seus agentes propagavam que o sucessor de Zaq havia sido incompetente para implantar corretamente o seu legado na JEME.

Manuel inscreveu-se, pagou as taxas devidas e aguardou ansioso o dia de beber na fonte da sabedoria administrativa de Zaq Valdi.

E Zaq ultrapassou as expectativas dos presentes. Afirmou que uma empresa, pouco importava o seu porte, era como um corpo vivo. Enfático, berrou que se um órgão não funciona bem, o corpo vivo padece e pode ir à morte. E foi aplaudido efusivamente. Mostrou que uma empresa pode ter os seus custos reduzidos em todas as áreas sem sofrer quaisquer prejuízos, porque toda empresa tem “muita gordura para queimar”. Aplausos entusiasmados se repetiram. Após exaustivas duas horas de palestra pela manhã, duas horas de almoço de trabalho com Zaq e duas horas de palestra à tarde, todos retornaram às suas empresas em tempo de iniciar a transformação para melhor, a partir das propostas contidas no Manual Zaq de Administração Empresarial, best-seller universal.

Manuel exultava. A transferência de Portugal para a Galileia havia se evidenciado correta. E feita a partir de decisões não fundamentadas, apenas instintivas. Agora, com apoio de especialista, a CLT iria crescer ainda mais.

Zaq havia dito que, se tudo está bem, pode-se cobrar um pouco mais dos trabalhadores. Os seus trabalhadores eram os burros e seus tocadores. Dos burros reduziria a alimentação, dos tocadores iria reduzir o auxílio sandália à metade, mas manteria o salário intacto. E ainda podia elevar um pouco a carga transportada pelos burros.

Aplicadas e acompanhadas segundo o Manual Zaq de Administração Empresarial, as mudanças levaram à demissão de poucos tocadores. Os recém contratados recebiam a parcela reduzida do auxílio e nada tinham do que reclamar e os que ficaram deixaram de reclamar. E nenhum problema havia ocorrido com os burros. Tudo estava bem novamente e o lucro aumentara.

Zaq havia dito que, se tudo está bem, pode-se cobrar um pouco mais dos trabalhadores. Dos burros reduziria mais um pouco da alimentação e aumentaria mais um pouco a carga transportada. Dos tocadores iria reduzir o auxílio sandália à metade, chegando a um quarto do original, mas manteria o salário intacto.

Aplicadas e acompanhadas segundo o manual Zaq de Administração Empresarial, as mudanças levaram à demissão de poucos tocadores. Os recém contratados recebiam a parcela reduzida do auxílio e nada tinham do que reclamar e os que ficaram deixaram de reclamar. E nenhum problema havia ocorrido com os burros, a menos do aumento de tempo nas entregas. O efeito deste  aumento foi eliminado com um pequeno aumento do frete, justificado pelo aumento no câmbio do dólar. Tudo estava bem novamente e o lucro voltara a aumentar.

Zaq havia dito que, se tudo está bem, pode-se cobrar um pouco mais dos trabalhadores. Dos burros reduziria mais um pouco da alimentação e aumentaria mais um pouco a carga transportada. Dos tocadores iria reduzir o auxílio sandália à metade, chegando a um oitavo do original, mas manteria o salário intacto.

O procedimento que havia dado certo anteriormente por mais de uma vez voltou a ser aplicado; alimentação reduzida e carga elevada para os burros, redução pela metade do auxílio sandália para os tocadores e pequena elevação do frete devido ao aumento do câmbio do dólar.

Certo dia tudo aconteceu de uma vez: os burros morreram, os tocadores ficaram desempregados e Manuel faliu.

Manuel, após palestra de um novo guru da administração, crítico das ideias administrativas de Zaq, imigrou para a Coreia do Norte com o objetivo de ali instalar uma rede de escolas de inglês.

Zaq? Com os bônus auferidos em sua fase de CEO, os direitos de publicação do Manual Zaq e as taxas das palestras, Zaq vive hoje, milionário, em uma ilha nas Bahamas. Aluguel? A ilha é dele.

O novo guru? Mora em ilha própria nas Bahamas e visita o seu vizinho e amigo Zaq semanalmente, para tocar ideias sobre administração empresarial.

A JEME? A JEME recebeu investimentos imensos do governo federal e se recuperou.

Saúde e alegria a todos.