Dear Mister President 2

Eu sei que não é proposital, mas no dia seguinte à triste sugestão para contratar técnicos formados no exterior, vossa excelência teve uma entrevista publicada na Folha de São Paulo (1) (2). Ou foi no mesmo dia?
Eu entendo que a vossa formação não é de negociador, diplomata ou assemelhados. Muito pelo contrário, a vossa formação é de bater o martelo e encerrar a conversa. Mas agora o senhor está na posição de líder do país. Goste ou não, aquele que precisa levantar a moral nacional. Não há outra maneia de sairmos do buraco.
Levantar a moral de um país cuja maioria dos cidadãos acreditou em alguém que se apresentou como o mais honesto dentre todos. E, como pretenso mais honesto de todos, os ludibriou até na indicação de sua sucessora. E eles a elegeram através dele, o mais honesto de todos, repetindo o que Paulo Maluf já havia feito quando da eleição de seu sucessor como prefeito de S. Paulo. Nem na sem vergonhice o mais honesto de todos foi original.
Tudo bem que o senhor entrou no vácuo e se elegeu vice. Mas, como já disseram outros, vice é nada, vice é vice. Bons tempos aqueles, não? Casa, comida, roupa lavada, viagens grátis e … mais nada! Sem a incompetência maliciosa à qual o seu partido se associou seriam oito anos numa boa.
Mas agora o senhor está na posição de líder do país. Aquele que precisa levantar a moral nacional. E ela está baixa mesmo. Nem o futebol nacional ajuda, apesar da nova troca de técnico. A coisa está tão ruim que a seleção faz com o seu técnico o oposto daquilo que o clube onde ela foi buscar o novo técnico faz com os seus. O Corinthians manteve os seus técnicos por muito tempo e muitos jogos, a seleção os troca a cada dois anos e uma dezena de jogos.
Mas agora o senhor está na posição de líder do país. Aquele que precisa levantar a moral nacional. E ela está baixa mesmo. A economia, que já gerou até milagres, também não ajuda. À época do mais honesto de todos ela até ajudou na eleição da sucessora dele, tendo permitido a ele, o mais honesto, dominar o tsunami internacional através do incentivo ao consumo. E a coisa foi tão bem feita que no Brasil o tsunami econômico virou marolinha. Talvez a marolinha tenha sido apenas o prenuncio do tsunami que levou o governo Dilma para o buraco. Ou ajudou a levá-lo ao buraco.
Mas agora o senhor está na posição de líder do país. Aquele que precisa levantar a moral nacional. E ela está baixa mesmo. E, então, lemos na entrevista da Folha que as coisas irão melhorar, a economia passará a melhorar a partir do próximo ano, se houver necessidade de mais impostos iremos impo-los mesmo contra a vontade etc. etc.
Desculpe-me, mas estas palavras apenas repetem tudo o que já foi feito, dito e repetido, explicado e enrolado, ao longo dos últimos quinhentos anos. Permita-me, com essa conversa a moral nacional nunca subiu. E não subiu, ou talvez tenha subido há uns quatrocentos anos atrás, mas depois viu-se que era conversa fiada, como tem sido sempre conversa fiada nos últimos cinquenta anos; e destes eu me lembro bem. Vender ativos como Congonhas e Santos Dumont é ótimo, pelo menos nos livramos da incompetência administrativa do poder público. Porém, para um déficit previsto de 136 bilhões, os cinco bilhões dos dois aeroportos não ajudam muito, ainda mais se for financiado pelo BNDES. E dizer que os Correios, por serem muito deficitários, e a Petrobras, por ter muita simbologia, não podem ser vendidos, me parece pouco demais.
Que o senhor não deseje passar por enganador ilusionista, concordo. Afinal é a sua primeira atividade executiva em posto de eleição majoritária. Mas “alguma coisinha” poderia ter sido dita no sentido de indicar o que se estará fazendo para minimizar a fragilidade da economia brasileira. Porque, a meu ver, esta “alguma coisinha” passa pelo caminho oposto às suas palavras e ao escolhido por todos os governos dos últimos cinquenta anos; e destes eu me lembro bem.
Alguma “outra coisinha” poderia ter sido dita com relação a melhorar o desempenho dos Correios, já que, em suas próprias palavras, eles são muito deficitários. Mais uma “terceira coisinha” poderia ter sido dita com relação ao empenho do seu governo na recuperação moral e técnica da Petrobras, que deteve e espero que ainda detenha, a melhor tecnologia para prospecção e extração de petróleo em águas profundas. Se nada for dito pode parecer que a Petrobras está entregue à sua própria sorte.
E, permita-me de novo, se a moral nacional não subir, continuaremos atolados nas águas da lagoa Rodrigo de Freitas das Olimpíadas de 2016. Águas que provam e comprovam que o político brasileiro não é apenas mentiroso, é principalmente irresponsável e desonesto. Desonestos por não se preocuparem com promessas e compromissos mentirosos e inexequíveis.
Senhor Presidente, aproveite a oportunidade para entrar na história como aquele que acordou um país tragicamente deitado em berço esplêndido e que, em cerca de meio mandato, conseguiu acertar o rumo do Brasil. Pois isto é possível.
A outra alternativa será a desculpa de não ter tido tempo suficiente. E ela não será original.
A escolha é vossa.

(1) Folha de São Paulo, domingo, 10 de julho de 2016, caderno mercado, pg. A21
(2) Na Internet: folha.com/no 1790059

Saúde e alegria a todos

Dear Mister President 1

O título surgiu instantaneamente em minha mente ao ler na Internet a manchete da Folha citada adiante. O tom a ser dado poderia ser de desalento ou de surpresa ou qualquer outro, mas deve ser efetivamente nenhum. Acredito que para pessoas com a nossa idade estas três palavras tragam lembranças significativas. Aos que não conviveram com tal período explico terem sido as três palavras acima proferidas de forma fortemente sensual e amorosa por Marilyn Monroe ao iniciar a sua participação em uma festa de aniversário de John F. Kennedy. Ela então símbolo sexual máximo de Hollywood nos anos 50-60, ele presidente dos EUA. Ambos tidos como amantes à época.  Faltou acrescentar ao título as palavras “do Brasil”.

Não tenho a pretensão de que o senhor ou um de seus auxiliares venha a ler o que está escrito. Mas, se tal frase chegasse aos seus ouvidos, na forma como está no título, as lembranças fariam o vosso ego inflar ainda mais.

No que me diz respeito, jamais tive grandes esperanças em seu governo, ora provisório, em breve definitivo. De quem conviveu com a incompetência desonesta  do governo anterior, como parte integrante dele, distante ou não, haveria mesmo muito pouco do que se esperar. E o senhor e seus auxiliares não necessitaram de muito tempo para confirmar a minha desesperança. Em menos de uma semana de governo um de seus ministros mais fortes teve suas fraquezas expostas e, sob acusação de corrupção, precisou ser trocado. Outros, também acusados de corrupção, não tomaram posse ou tomaram posse e foram afastados a seguir. Os compromissos eram mesmo tão fortes ou o objetivo foi apresentar o novo governo em seu mais amplo espectro? Isto é, mostrar o novo governo como mais do mesmo.

Mas, então, porque demorou tanto para eu me manifestar? Para ser sincero, pouco me preocupei com as suas trapalhadas reveladoras, Afinal, para quem conviveu com os governos Lula e Dilma, mais trapalhadas não fazem diferença. Mais do mesmo. Para quem acompanha, mesmo de longe, as trapalhadas de vossos colegas ao redor do mundo, mais trapalhadas não fazem diferença. Mais do mesmo. Estou no Reino Unido, não como turista, mas como pai em visita a filha e acompanho a trapalhada, Brexit, feita pelos seus colegas políticos no berço da democracia moderna. Mais do mesmo.

Mas, então, porque este texto? Acessei a Folha de S. Paulo pela internet e cruzei com “Temer pede que indústria priorize formados no exterior” (1). O sub-titulo elucida: “Para peemedebista mão de obra pode trazer informações tecnológicas”. Mais do mesmo.

A velha e inútil malandragem brasileira, a que nos levou para onde estamos há muito; para lugar algum. O vazio de ideias, ideais, propostas, intenções, objetivos. Já que nada de novo conseguimos desenvolver, vamos nos aproveitar daquilo que os outros desenvolveram e nos entregarão de mão beijada. Mesmo?  Dá para acreditar nisso?

Nós não precisamos mais de malandragem, precisamos de competência. A competência que falta na maioria das decisões tomadas nos vários níveis de governo.

Precisamos de honestidade, esta que o senhor perdeu a oportunidade de defender ao propor a malandragem de se aproveitar do conhecimento alheio.

Precisamos que o mais alto mandatário do país mostre confiança e orgulho das estruturas e pessoas que estão sob sua liderança.

Ou o senhor desconhece que as universidades brasileiras formam os engenheiros que o senhor sugeriu relegar a segundo plano quando de seu “pedido aos empresários”?

Não acredito que o senhor conheça muito sobre engenharia, minha área de formação. Possivelmente conheça o tanto que eu conheço sobre direito, a vossa área de formação. Porém, por favor, evite ridicularizar-se mais do que já foi feito ao longo de sua breve estada no poder transitório.

O Brasil precisa de líderes que, mesmo sem cacoete para tal, mostrem confiança no país e em seus liderados. Talvez com isso os brasileiros possam voltar a acreditar e confiar em alguma coisa.

Esforce-se, por favor, para acabar com o trágico período de mais do mesmo que temos vivido nas últimas décadas. Segundo vossas próprias palavras, em dois anos e meio se encerra o seu período no poder. Esforce-se para ser lembrado como alguém que conseguiu ultrapassar a fronteira da mediocridade, algo que a maioria de seus antecessores não conseguiu e nem demonstrou vontade para conseguir.

(1) Temer pede a empresários que … Gustavo Uribe Machado da Costa, Brasília, Folha de São Paulo, 08/07/2016; 18:39.

Saúde e alegria para todos

Enganações 2

Há muitas frases proferidas por Luiz Inácio Lula da Silva. Abaixo são encontradas algumas (1).

Tem gente que não gosta do meu otimismo, mas eu sou corintiano, católico, brasileiro e ainda sou presidente do país. Como eu poderia não ser otimista?

 Mais do que nunca, sou um homem de uma causa só. E esta causa se chama Brasil.

 Se tem uma coisa que eu me orgulho, neste país, é que não tem uma viva alma mais honesta do que eu.

 Gostaria de poder fazer algo sobre a corrupção no país. Se dependesse de mim, todos estes deputados corruptos estariam na cadeia.

 Olha para a minha cara para ver se eu estou preocupado.

 Ninguém neste país tem mais autoridade moral e ética do que eu para fazer o que precisa ser feito.

 Se tem um governo que tem sido implacável no combate à corrupção, desde o primeiro dia, é o meu governo.

 Um Lulinha incomoda muita gente, uma Dilminha incomoda muito mais. (esta não é mentira)

Há um sem número de frases atribuídas a Abraham Lincoln. A seguir, uma delas (1).

abraham_lincoln_pode_se_enganar_a_to_nl

 

 

(1) http://pensador.uol.com.br/

(2) http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/03/160304_entenda_investigacao_lula_lgb

Saúde e alegria a todos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Enganações 1

Há um sem número de frases atribuídas a Abraham Lincoln. Esta abaixo é uma delas (1).

 

 

Há um sem número de frases proferidas por Luiz Inácio Lula da Silva. Acima está uma delas (1).

Esta frase pode ser atualizada da seguinte forma:

“No Brasil é assim: quando um pobre rouba, vai para a cadeia, mas quando um rico rouba ele vira ministro (Lula, 1988), ou não (STF, 2016)”.

 

(1) http://pensador.uol.com.br/

Saúde e alegria a todos

 

 

Eu só queria encher o copinho!

Há algo de errado comigo. Em condições normais cochilo em frente à TV depois de algum tempo tentando achar algo interessante. Nas condições atuais durmo pesado alguns segundos após sentar.

Devo fazer o exame de urina pós cirurgia, alguns dias após a retirada da sonda. As condições para exame são simples: duas horas sem urinar. Para crianças, adolescentes e adultos de todas as idades nenhum problema. Nenhum problema desde que não tenham menos de três anos ou tenham curtido sonda na bexiga. No segundo caso a bexiga trabalha sob fluxo contínuo; chegou passou. Retirada a sonda, a bexiga demora um pouco para entender que o fluxo não pode mais ser contínuo.

Planejo as ações com precisão. Devo sair de casa para o laboratório cerca de meia hora antes de completar as duas horas regulamentares. O trajeto até o laboratório demanda quinze minutos, mais quinze para fazer a ficha e mais uns cinco para ser chamado para a coleta. Perfeito!

Laboratório mais cheio do que o normal e os quinze minutos para fazer a ficha se alongam e as duas horas se completam. À época o meu recorde entre dois atendimentos subsequentes de chamados líquidos da natureza estava em uma hora e meia, sem stress, ou duas horas com sérias ameaças de vazamento. Ficha feita, aguardo o chamado, não o da natureza, mas para a coleta. O tempo passa, a natureza brada cada vez mais alto, e apenas eu a ouve. Volto à atendente e explico-lhe ter tirado a sonda há poucos dias etc. etc…. Ela liga para o setor de coleta e expõe o meu caso. O tempo passa e a natureza brada mais alto ainda. Finalmente chamam o meu nome. O último entre cerca de dez outros. Mau sinal. Subo dois lances de escada sem problemas. Em caso de vazamento eu estava com um absorvente poderoso. Uma simpática jovem, de cara amarrada e visível mau humor e uma segunda, sorridente, fazem o trabalho de coleta, na maioria de sangue. O meu é urina. A jovem sorridente está sempre ocupada, a simpática, entre um e outro atendimento, desloca-se pela sala a passos de tartaruga perneta. A natureza informa que haverá problemas. Dirijo-me à simpática e explico-lhe o meu caso. Depois de uma careta de reprovação ela procura a minha ficha, etiqueta o frasco e me indica o banheiro. Desloco-me lentamente para o banheiro. A natureza informa que os passos não podem ser largos. Entro, fecho a porta e retiro o calção branco, lembre-se do branco, que eu vestia. Ouço um grito: LIBERDADE. Na condição de controle zero, lavo o chão do banheiro, o calção, minhas pernas, a sandália, paredes, mas encho o frasco. Visto um novo absorvente, subo o calção cinza, fecho o frasco e saio, cuidando para não escorregar. Sinto as pernas grudentas. Não vejo a simpática, a quem deveria devolver o frasco. Sorte dela, pois talvez eu o devolvesse aberto e sobre a sua cabeça. Azar da sorridente. Entro no cubículo onde ela iria iniciar mais uma coleta de sangue e disparo: Apesar de ter avisado, vocês conseguiram que eu urinasse sobre mim e lavasse o chão do banheiro. A sua colega sumiu e eu preciso entregar este frasco a alguém para poder ir para casa tomar banho! A cliente olhou, a sorridente parou de sorrir e em segundos foi ao cubículo da simpática e voltou com o recibo. E eu só queria encher o copinho!

Sete dias depois da coleta; houve o carnaval entre coleta e resultado; confirmou-se infecção urinária, comum devido aos dias com sonda.

Dez dias de antibiótico e seis dias após a finalização de sua ingestão fui para um novo exame de urina.

Voltei ao laboratório do primeiro exame. Nesta altura já não mais usava o absorvente poderoso e conseguia controlar a urina por mais de duas horas. Mantive o planejamento como da primeira vez. Havia um número menor de pessoas no laboratório, informei à atendente de minha condição de recém operado, ela ligou para o pessoal da coleta e aguardei. A natureza estava tranquila. Chamaram umas dez pessoas para se dirigir à coleta no segundo andar e meu nome não foi citado. Lá vamos nós, de novo?! Segundos depois pedem para eu me dirigir ao primeiro andar. O frasco está etiquetado me esperando e me indicam o banheiro do andar. Enchi o copinho sem inundações.

Cinco dias depois, o resultado indica a presença de infecção com a mesma bactéria. Envio ao médico e ele me informa que o procedimento de praxe de realizar o antibiograma não foi feito. Devo repetir o exame, agora com pedido explícito de antibiograma. Ele sugere dois laboratórios de um mesmo grupo, que eu não havia procurado anteriormente apenas por comodidade e porque o anterior goza de bom nome. Ou gozava de bom nome, ao menos comigo.

Repito o planejamento, agora iniciando-o mais cedo por razões de distância. Acordei cedo, 5:00 da manhã. Havia dormido pouco e parecia que eu estava digerindo o boi, com chifre e tudo, que eu não havia comido às altas horas da noite anterior. Higiene pessoal, banho, frutas, pois o sabor de chifre queimado continuava na boca e estava pronto para encher o copinho, conforme o planejado. Última gota à 5:30, coleta às 7:30.

Olhei o relógio, cedo demais. Devo esperar para não chegar antes das portas se abrirem. Na TV o nada de sempre; séries óbvias, esporte em VT com futebol entre um time do Uzbequiristão do Norte ou de outro lugar e outro das Ilhas Fugir, com jogadores de terceira linha. Desligo e vou para o computador; sem vontade ou sem saber o que fazer, não por falta do que fazer, mas por falta de vontade de fazer. Há dias já havia voltado às condições de dormir pesado alguns segundos após sentar. Entre a indecisão de ver TV e ir ao computador, finalmente o relógio indica 6:45. Saio de casa com meia garrafinha de água. O trânsito não ajuda, seja por excesso de veículos, seja por falta de competência dos motoristas. Estaciono na porta do laboratório. Antes de sair do carro, chega-se a mim o manobrista e informa constrangido que a unidade estava sem sistema, a previsão de retorno era para as quatro horas da tarde e que eles estavam indicando a unidade do Metrô Carrão como alternativa. Metrô Carrão esquece, pensei eu, e engatei ré. Desisti. A natureza estava calma, mas já eram 7:45 e até eu chegar a algum lugar, poderia não dar tempo. Sai do carro entrei na unidade; ninguém, sejam funcionários, sejam clientes. Saí do banheiro. Três funcionárias a postos em frente aos monitores e dois clientes sentados. Perguntei se a previsão não era de retorno do sistema às quatro da tarde. Está lento, foi a resposta. Agora não adianta mais para mim, comentei. Afinal as duas horas sem urinar haviam se reduzido para dois minutos. Uma segunda atendente pergunta se eu havia comido algo, o que inviabilizaria muitos exames de sangue. Senti vontade de responder que sim, havia me dirigido ao banheiro para o café da manhã, mas apenas respondi que o exame era de urina. Saí e resolvi ir para a unidade de Santo André. Antes passei pelo trabalho, pois deveria fazer a coleta após as 9:45.

E lá vamos nós, com a ajuda do Waze. Chego ao Hospital Brasil às 9:30. Deixo o carro com os manobristas e me dirijo ao laboratório. Prédio anexo ao hospital, novo ou recém reformado. Entro, pego a senha preferencial e olho em volta. Umas setenta cadeiras na sala de espera, ocupadas; muitas pessoas em pé. Preferenciais não faltavam, distribuídos entre idosos, recém-nascidos e futuras mães. Nas condições da sala de espera, preferenciais ou não, o tempo de espera seria longo. Levanto a cabeça e leio: Sistema com lentidão. Retornei ao estacionamento e paguei R$15,00 por 15 minutos.

Ainda havia uma esperança em Santo André, na avenida D. Pedro II. Lá fui eu, orientado pelo Waze. É do mesmo grupo e o sistema talvez seja o mesmo. Desisti. Retornei ao trabalho em São Caetano.

E eu só queria encher o copinho!

Dia seguinte volto cedo ao primeiro posto. Estaciono, saio e pergunto ao manobrista se o sistema está operacional. Estava. Ficha, recebimento do recipiente, coleta e devolução; quinze minutos. Enchi o copinho! E não será a última vez.

 

Saúde e alegria a todos

O que é bom para …3

O que é bom para um cidadão é bom para o país ou o que é bom para um país é bom para os seus cidadãos?  A discussão foi iniciada na publicação O que é bom para …1, de 28.2.16

A resposta a esta frase é, a meu ver, fundamental para países e seus cidadãos. A partir da resposta, simples, porque as duas alternativas possíveis são auto excludentes, pode-se identificar o relacionamento vigente em qualquer comunidade, de pequeno, médio ou grande porte.

Povos oprimidos, acovardados, desprezados e desrespeitados em seus direitos são a fonte de vida para o despotismo centralizado. Povos submetidos a tais condições são individualistas. Povos individualistas representam a fonte de vida do despotismo difuso. O despotismo difuso é filho do centralizado e não vive sem ele.

E chegamos ao Brasil. O que é bom para cada brasileiro é bom para o Brasil?

O Brasil é despótico desde a proclamação da República. Antes da República havia um Imperador, um possível déspota legalizado. Antes do Império, havia o colonizador, despótico por necessidade. Depois da proclamação alternamos períodos de despotismo centralizado explícito, ou não democrático, com períodos de despotismo centralizado latente ou semidemocrático, com o despotismo difuso sempre presente. O brasileiro é individualista no que tange aos seus interesses, em grande parte por ter sido treinado para se safar das armadilhas dos vários chefões, chefinhos e chefõezinhos ao longo dos vários períodos de democracia incipiente e ditadura pelos quais o país se arrasta desde 1822, ou 1500 se quisermos ir mais longe.

No Brasil isto pode ser confirmado pelo número de constituições federais produzidas a partir da independência: 1. Constituição Luso-Brasileira de 1822; Constituições brasileiras de: 2. 1824, 3. 1891, 4. 1934; 5. 1937, 6. 1946, 7. 1967; 8. 1969; (1). Oito constituições diferentes, seis no período da República para se chegar à nona versão de 252 páginas e 250 artigos, mais 99 disposições transitórias, chamada de Constituição Cidadã de 1988 (2). Não sou advogado e jamais serei, mas penso que uma constituição deve definir as linhas gerais, os conceitos que regulam o funcionamento da sociedade. O detalhamento deve ficar por conta de leis. Na minha opinião de leigo, o número de artigos e o seu nível de detalhes dificulta a condução e o respeito à constituição. Mais um produto do despotismo difuso que comanda e confunde o Brasil desde sempre. Boa parte dos artigos aguarda regulamentação até hoje e os regulamentados já geraram um número imenso de leis, decretos, leis que alteram leis que alteram leis já alteradas por leis etc.

Para não ficar atrás, a Constituição do Estado de São Paulo tem 297 artigos, mais 62 correspondentes às disposições transitórias (2).

Não são constituições, são tentativas de colocar a vida de cada um sob o pleno controle do Estado, como se isso fosse possível. Tentativas frustradas que mantêm o estado como um paquiderme sedado pela quantidade crescente de bobagens burocráticas produzidas pelos chefinhos, sob inspiração, incentivo e apoio dos chefões..

Como um exemplo do ridículo constitucional tem-se uma das disposições constitucionais transitórias do Estado de S. Paulo, 1989 (2): Art.46. No prazo de três anos, a contar da promulgação desta constituição, ficam os Poderes Públicos Estadual e Municipal obrigados a tomar medidas eficazes para impedir o bombeamento de águas servidas, dejetos e outras substâncias poluentes para a Represa Billings. Parágrafo único. Qualquer que seja a solução a ser adotada, fica o Estado obrigado a consultar permanentemente os Poderes Públicos dos Municípios afetados.

A solução adotada foi simples, não mais se bombeia água do Rio Tiete para a Billings via Rio Pinheiros, pois está na constituição do estado; solução obtida em segundos. Bastou informar aos operadores das Estações Elevatórias de Traição e Pedreira que elas não mais deveriam operar bombeando ou cortar a energia para os motores das bombas. O que mudou? Nada, a poluição nos dois rios permanece até hoje.

Como exemplo de despotismo difuso, algo vivido por mim.

Sem entrar em detalhes, em uma das renovações de carteira de habilitação, fui informado que não poderia fazê-lo porque estava com a permissão de dirigir suspensa por quatro meses devido a multas recebidas há mais de cinco anos. Tais pontos não haviam sido computados porque recebidos muito próximo da renovação anterior.  Durante cinco anos nada me foi comunicado. Os pontos estavam corretos, mas o desempenho do Detran foi apenas desonesto. Entrei com recurso contra a ação desonesta de ocultar a informação e na semana seguinte fui ao Ciretran de São Bernardo do Campo. Ao tentar protocolar o pedido de renovação da carteira a atendente me informou não poder receber o pedido devido à suspensão que eu havia recebido. Mostrei o recurso, ainda não julgado. Ela não entendeu. Mostrei no Código Nacional de Trânsito, que havia baixado da Internet e tinha comigo, o artigo que repete a Constituição Brasileira e afirma que não se pode penalizar alguém se há recurso em trâmite acerca da penalidade. Ela pediu-me para aguardar e saiu. Voltou e solicitou que eu fosse conversar com o chefe do plantão, ou algo semelhante. Ele me informou que eu estava com a razão, porém não poderia liberar no sistema a renovação desejada, pois seria penalizado por desrespeitar uma norma do Detran de SP. Perguntei se normas de Detran se sobrepõem à Constituição Federal. Ele disse que não e pediu que eu aguardasse. Voltou e me propôs acompanhá-lo para conversar com o delegado diretor do Ciretran de SBC. A conversa se repetiu e o delegado afirmou que eu estava com a razão, porém a única maneira de eu conseguir fazer a renovação seria entrar com um mandado de segurança. Não entrei com o mandado; o recurso reduziu a minha pena de quatro para dois meses. Durante o período de penalização fiz o exame de reciclagem e não sentei ao volante por um instante sequer. A Alice é que sofreu, tendo de me levar para a USP às quartas, saindo de casa ás 6:00 da manhã. Por sorte eu conseguia carona na volta e ela só precisava me buscar na estação Jabaquara do metrô.

 Em terra desorganizada e despótica, cada um luta por si e todos são enganados por poucos, os poucos que se acomodam no poder. E estes poucos precisam do despotismo difuso para impedir a organização dos cidadãos, únicos com condições de mudar o país.

 (1) https://pt.wikipedia.org/wiki/Hist%C3%B3ria_da_Constitui%C3%A7%C3%A3o_do_Brasil

(2) http://www.imprensaoficial.com.br/PortalIO/download/pdf/Constituicoes_declaracao.pdf

 

Saúde e alegria a todos

O que é bom para … 2

O que é bom para um cidadão é bom para o país ou o que é bom para um país é bom para os seus cidadãos? A discussão foi iniciada na publicação O que é bom para …1, de 28.2.16.

A resposta a esta frase é, a meu ver, fundamental para países e seus cidadãos. A partir da resposta, simples, porque as duas alternativas possíveis são auto excludentes, pode-se identificar o relacionamento vigente em qualquer comunidade, de pequeno, médio ou grande porte.

Em uma pequena coletividade, uma família estruturada, por exemplo, torna-se fácil gerenciar a prática do bem individual e, por consequência, o coletivo. Pequenos ajustes levam à satisfação de todos, desde que haja um relacionamento aberto entre as partes. O bem individual pode se transformar no bem coletivo e, assim, todos estarão satisfeitos. Nestas condições torna-se desnecessária a presença de um único ser dominante, aquele que proferirá a palavra final; todos participarão das decisões em condições de igualdade e satisfação pessoal.

Em uma família parcial ou integralmente desestruturada, o ser dominante se torna necessário devido ao relacionamento inadequado entre as partes constituintes do grupo. O ser dominante, definido por usos e costumes ou predominância natural ou autoimposição, acabará se tornando despótico. A forma de uma família se desfazer do despotismo é pela separação das partes, o que pode acontecer por diversas formas. Os filhos podem se afastar da moradia comum para se afastar do despotismo. Os formadores da família se separam e os descentes, que normalmente acompanham a mãe, se tiverem sorte se livram do déspota, caso contrário, continuam convivendo com a déspota.

Pausa gramatical: Considerando-se o esforço desenvolvido pela nossa presidente para ser chamada de presidenta, não seria correto chamar o déspota de o déspoto? Afinal, direitos iguais devem ser direitos iguais.

Quando em um país o bom para um cidadão é bom para o país tem-se nada mais do que uma ditadura. Parece-me que, de todas as ditaduras que pelas mais diversas formas tentaram se eternizar no poder, nenhuma deu certo. Se verdadeira, tal constatação indica ser impossível a dominação despótica de um país por longo tempo, seja por um outro país, seja por um grupo específico de cidadãos do próprio local. Jamais existiram ditaduras boas, no sentido de terem sido implantadas e se imposto sem o uso de força. Quando se força alguns ou muitos a aceitar algo contra as suas convicções, planta-se as reações futuras. O uso da força para manutenção do poder cultiva as reações plantadas quando do uso da força para a da tomada do poder. A consequência, em um futuro mais ou menos distante, será a reação à dominação.

Dominar um país é muito mais difícil do que dominar uma família. Para a família basta um déspota.

Nas situações de democracia a escolha entre as alternativas se complica. Quando se consegue identificar a fonte do despotismo a identificação do mal é facilitada. Em uma democracia, ou pretensa democracia, o despotismo centralizado cria, inevitavelmente, o despotismo difuso. Ao invés de apenas um déspota identificado e fonte maior dos conceitos despóticos, o despotismo difuso é viabilizado por centenas ou milhares de chefetes de alguma coisa, pequenos déspotas que se espelham no déspota maior para usar de seu poder mínimo e localizado para implantar conceitos, regras e exigências que lhes bem aprouverem. Por esta razão, democracias despóticas existem, obrigatoriamente, em sociedades desorganizadas. A desorganização cria, alimenta e eterniza os chefetes.

A única forma de se sobreviver sob despotismo é gastar tempo e esforço para conseguir contornar as dificuldades do dia-a-dia. O trabalho para se sobreviver sob despotismo difuso implantado há muito tempo é imenso. O sem número de pequenos déspotas exige dos seus milhares ou milhões de vítimas ações específicas para cada caso. Se os desmandos arbitrários estão encadeados, então, a chance de se conseguir ultrapassá-los demanda ajuda externa. O despotismo difuso é o pai da prestação de serviços não produtivos. Cansadas de investir mais tempo em buscar meios de contornar os obstáculos do que no seu próprio trabalho, produtivo ou não, as vítimas deixam de confiar em governos e chefes e passam a recorrer a pessoas cujas habilidades se restringem a conhecer os meandros das dificuldades criadas pelos chefetes. O entulho burocrático viabiliza, assim, o aparecimento de profissões especializadas em coisa alguma, ou melhor, em contornar armadilhas burocráticas.

Povos oprimidos, acovardados, desprezados e desrespeitados em seus direitos são a fonte de vida para o despotismo centralizado. Povos submetidos a tais condições são individualistas. Povos individualistas representam a fonte de vida do despotismo difuso. O despotismo difuso é filho do centralizado e não vive sem ele.

Continua

 

Saúde e alegria a todos

Diálogos 5

Em Mudanças, de 27.12.15, apresentei as razões que me levaram aos Diálogos. Em Diálogos 1 – preâmbulo, de 10.1.16, iniciei a publicação dos diálogos escritos a partir de 29/3/82.

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P1. Ficou provado que as pessoas não se entendem, mas que o melhor interlocutor é uma porta…

P2. Para isso preciso de um pouco mais de tempo. Nos países citados o diálogo não funciona. O proposto não é aceito, o dito é mal interpretado ou não ouvido, as pessoas não se dispõem a sacrifícios, e por aí vai. Ora, se ao invés de pessoas tivéssemos portas a nos ouvir, ou surdos, ou vacas de presépio, tudo ficaria mais fácil e rápido e com o mesmo resultado final. Veja os países comunistas ou os comunistas anticomunistas – calma -. Lá não há desencontro. Planeja-se sem discussão, definem-se os objetivos, executam-se os planos. Que não funcionam. Mas o diálogo, está provado, é mais fácil e eficiente com uma porta.

P1. É verdade, sou forçado a aceitar. Mas esse negócio de anticomunistas comunistas é realmente brutal.

P2. De forma alguma. Quais as características dos governos comunistas?

P1. Governo único e eterno, corrupção, manutenção de uma determinada casta no poder, repressão às posições divergentes, preocupação exagerada com a segurança nacional, qualificação de qualquer opositor como inimigo, incapacidade, retórica arcaica e descabida. Para ir não muito longe.

P2. E quais as características dos atuais governos da Argentina, Chile, Uruguai, Bolívia, Paraguai, Coréia do Sul, Paquistão? Só para não continuar e me complicar.

P1. Anticomunismo, ahhhh…, uhhh …. Sabe que a pior coisa é ter de ceder diante de fatos? Quando a gente cede e pode passar por altruísta e compreensivo, é verdadeiramente delicioso! Mas ser dobrado pelo peso de argumentos é brutal. Dói, machuca, sangra.

P2. Não deveria ser assim. O peso dos argumentos deve ser encarado como uma contribuição recebida e jamais como uma brutalidade sofrida. Além disso a única maneira de uma pessoa alterar a sua concepção sobre um problema qualquer é ser convencida e a seguir convencer-se que, inicialmente, a concepção recebida é boa e, a seguir, que a concepção recebida é melhor. Apenas ser boa é insuficiente se a nova concepção não influir sobre quem a recebe. Ser melhor que o já aceito também é insuficiente, pois pouco interessa substituir o ruim pelo menos ruim.

P1. Mesmo assim é dolorido.

P2. Com certeza. Esta dor é apenas a confirmação da prepotência e arrogância do ser humano; da sua incapacidade para perceber que não existem verdades definitivas, mesmo sendo estas verdades as suas próprias verdades. Basta apenas observar a velocidade com que o mundo se renova para entender que as verdades jamais permanecerão imutáveis.

P1. Curioso como algumas ideias são confirmadas diariamente. Os ingleses, mesmo sem Lord Hamilton e almirante Nelson, resolveram reagir à altura de um Império onde jamais o sol se põe à invasão argentina da Ilhas Falklands. Todo o povo inglês, convencido da imbecilidade, incompetência, ignorância e cretinice dos argentinos, apoiou o envio das tropas. Os incapazes jamais conseguiriam alvejar alguma coisa que tivesse a bandeira inglesa. Sangue inglês não correria. E os vingadores chegaram, esperaram e bombardearam. E lá se foi para o fundo uma velharia americana que servia aos argentinos, atingida pelos torpedos de um submarino nuclear inglês. Os dirigentes e o povo inglês lastimaram as perdas argentinas e afirmaram que tal ação havia sido necessária para proteger a esquadra vingadora. A guerra sem sangue nobre, apenas com sangue subdesenvolvido, continuava. Era a confirmação da superioridade europeia sobre a incivilidade latino-americana. A arrogância e a prepotência inglesa, agravada pela inexpressividade do país nos últimos decênios atingiu limites extremos.

P2. E você viu o que aconteceu dois dias depois: Um foguetinho francês de 60 mil dólares …

Continua

Nota: Em algumas frases são referenciadas situações políticas, trajes, comportamentos e posturas típicas da época em que os diálogos foram escritos, primeira metade da década de 1980. Algumas delas tornaram-se moda, como barba mal aparada, uso de óculos Ray-Ban, governantes incompetentes. Outras, como bons modismos, desapareceram com o passar do tempo ou passaram a ser aceitos devido às mudanças de costumes.

 

 Saúde e alegria a todos

O que é bom para … 1

O que é bom para um cidadão é bom para a coletividade ou o que é bom para a coletividade é bom para cada um de seus componentes?

A resposta a esta frase é, a meu ver, fundamental para qualquer coletividade, seja esta coletividade um país, um estado, cidades, grandes ou pequenas empresas, famílias. A partir da resposta, simples, porque as duas respostas possíveis são auto excludentes, pode-se identificar a situação das referidas coletividades.

Estou convicto que o bem coletivo se sobrepõe ao bem individual. Em uma coletividade onde cada um se vê e comporta como uma entidade, sem se preocupar com o próximo ou com a unidade com a qual está ligado, os problemas de relacionamento e de progresso são maiores. Exemplos há em grande número.

Em uma pequena coletividade composta por pessoas com elos maiores do que apenas interesses pessoais, uma família estruturada por exemplo, torna-se fácil gerenciar a prática do bem individual. Pequenas correções de rumo permitem satisfazer a todos, desde que todos estejam interessados em abrir mão de algumas coisas em favor da satisfação dos demais, satisfação não plena devido aos acordos necessários, mas uma satisfação possível e de agrado de todos.

Em grandes coletividades, como países, estados, cidades, grandes ou pequenas empresas, torna-se impossível gerenciar a prática do bem individual. As correções de rumo, simples e de fácil negociação em coletividades pequenas, tornam-se impossíveis nas maiores. Os componentes das grandes coletividades não se conhecem, em sua maioria; não há ou há tênues afinidades pessoais. Não é possível consultar a todos e passa-se a aplicar estatística. A satisfação de todos é substituída pela satisfação da maioria. Para uma coletividade de dez, dez por cento de insatisfeitos é igual a um. Negocia-se com esse um. Para uma coletividade de dez mil, dez por cento de insatisfeitos é igual a mil. Não é possível negociar com mil. Em uma coletividade de cerca de 200 milhões de cidadãos, representada por cerca de 100 milhões de adultos, dez por cento de insatisfeitos correspondem a 10 milhões de pessoas. Como se negocia com 10 milhões?

A impossibilidade de negociação pessoal leva à aplicação de um segundo recurso, possível de há algum tempo em virtude da sociedade de comunicação em que vivemos. Aplica-se propaganda maciça na tentativa de convencer a audiência do real esforço da estrutura no poder dos países, estados, cidades, grandes ou pequenas empresas para buscar a felicidade de cada um. Mas aqui tem-se novamente a intervenção da estatística. A propaganda diversificada pelos vários veículos disponíveis atinge a praticamente todos, porém não convence a todos. Alguns a rejeitam pela forma, outros pelo conteúdo, outros pelo conjunto forma e conteúdo, outros simplesmente por acreditarem na impossibilidade da satisfação de todos. Ao final, gasta-se muito com propaganda, sem resultados proporcionais aos gastos.

Estou convicto que o bem coletivo se sobrepõe ao bem individual.

Em estruturas onde os componentes não são seres considerados racionais, estruturas físicas residenciais ou industriais por exemplo, compostas por vigas, pilares, fixações e outros elementos estruturais, o melhor para a estrutura será sempre o melhor para os seus componentes. Afinal esta estrutura nada mais é do que uma série de componentes interligados trabalhando para o conjunto se manter estável.

Porém, para que seja possível ter um grande número de pessoas convictas de que o melhor para a estrutura é o melhor para os seus componentes necessita-se de muito mais. Necessita-se de lideranças. Lideranças não apenas carismáticas, ou pretensamente carismáticas, ou auto convencidas de seu carisma. As lideranças, não uma única liderança, devem ser, além de efetivamente carismáticas, convincentes. Mais convincentes pela honestidade de propostas e de comportamento do que carismáticas. Convincentes não apenas pela palavra, ou menos pela palavra e muito mais pelo exemplo. Com isso tem-se a possibilidade de convencer as pessoas, pela palavra e principalmente pelo exemplo, de que o melhor para a estrutura é o melhor para cada um de seus componentes. Caso contrário é perder tempo.

Em uma estrutura composta por homens – desculpem-me os feministas ou politicamente corretos, mas homens se refere a seres humanos e eu me recuso a escrever homens e mulheres – leis regulam as suas relações. As leis devem ser simples, claras e objetivas e devem ter para todos o mesmo peso e importância. O seu desrespeito deve levar os desrespeitosos aos tribunais e, após julgamento, libertá-los ou puni-los. Se encarcerados, as instituições correcionais devem oferecer a efetiva possibilidade de correção de comportamento.

Em uma estrutura humana, a capacidade de compreensão de problemas complexos por parte de seus componentes deve ser implementada ano a ano. Tal capacidade somente pode ser obtida com políticas educacionais que objetivem o fortalecimento da estrutura e jamais apenas a satisfação dos componentes.

O detalhamento de como deve ser uma sociedade justa e eficiente, voltada para o bem-estar de todos através da busca do melhor para toda a sociedade transcende o objetivo deste blog e a competência do seu redator. Porém, apenas a busca do melhor e mais eficiente pode levar ao progresso efetivo.

Se o bem individual se sobrepuser ao coletivo, a vida pode se tornar muito desagradável.

Saúde e alegria a todos

Diálogos 4

Em Mudanças, de 27.12.15, apresentei as razões que me levaram aos Diálogos. Em Diálogos 1 – preâmbulo, de 10.1.16, iniciei a publicação dos diálogos escritos a partir de 29/3/82. Recomenda-se ler os diálogos a partir do primeiro.

Posts anteriores relacionados:                 Mudanças          Diálogos 1          Diálogos 2          Diálogos 3

P1. Como piada é até passável, mas não entendi os óculos escuros.

P2. O raciocínio é sério, não piada. E os óculos escuros devem impedir que se observe olhares de espanto do interlocutor.

P1. Se sério, o raciocínio é falho. Isto de um falar e o restante ouvir é monólogo, não diálogo.

P2. Tudo é uma questão de definição e pontos de vista. Com interlocutores como os citados o diálogo não ocorre por falha dos interlocutores. É o seu ponto de vista não haver diálogo. Ele, o interlocutor, é que não oferece condições de diálogo e impõe o monólogo. O diálogo é sempre possível! E o melhor interlocutor é uma porta. Constata-se diariamente tal verdade.

P1. Onde a constatação?

P2. Desculpe, mas não ficarei exemplificando a cada manifestação, caso contrário ainda me complico, mas basta um lançar d’olhos à cena mundial para se confirmar o que afirmei.

P1. Lá vem de novo o mau exemplo dos latino-americanos a justificar suas afirmações descabidas. Está na hora de você perceber que o mundo não se resume à América Latina, ou à Ásia. Tome a Europa ou os Estados Unidos como exemplo e quero ver como você justifica a sua última afirmação.

P2. Tomemos a Romênia, ou a Bulgária, ou a …

P1. Pronto, de novo os maus exemplos.

P2. Mas são da Europa, ou não?

P1. Lógico, mas da Europa do Leste, que vive sob pressão russa. E da Europa do lado de cá? Tente!

P2. Tomemos Portugal …

P1. OUTRO!

P2. A Espanha …

P1. NÃO! Chega de pessimismos!

P2. A Itália, por exemplo …

P1. CHEGA! Vá ser negativista no inferno! Não sabe de nada melhor?

P2. Sobre Turquia, Grécia, talvez nada deva ser dito. O que achas?

P1. Não. Sobre latinos nada, mesmo com turcos e gregos nada tendo a ver com latinos.

P2. A França, por exemplo, recém transplantada ao socialismo, já começa a dialogar por monólogos. O que o governo propõe não é aceito pelo povo, que já partiu para quebrar e arrebentar e …

P1. É LATINO!

P2. Na Inglaterra, desde há muito, alternam-se no poder a cada quatro anos governos conservadores e trabalhistas. Cada um representa a salvação do país ao início do mandato e a salvação é expulsa do poder ao final. A cada plano para a redução do desemprego tem-se mais pessoas desempregadas. Na Alemanha foi eleito um governo federal de centro-esquerda, com o partido de centro FDP associado ao de esquerda, SPD. Nos estados, os governos de direita, dos partidos CDU e CSU, são cada vez mais prestigiados pelo eleitorado. Como o peso dos governos estaduais é muito grande nas decisões federais, tudo está emperrado. Na Suécia, onde o socialismo rege a vida de cada um, o número de horas não trabalhadas é enorme. Chega. Contente?

P1. Ficou provado que as pessoas não se entendem, mas que o melhor interlocutor é uma porta…

Continua

Nota: Em algumas frases são referenciadas situações políticas, trajes, comportamentos e posturas típicas da época em que os diálogos foram escritos, primeira metade da década de 1980. Algumas delas tornaram-se moda, como barba mal aparada, uso de óculos Ray-Ban, governantes incompetentes. Outras, como bons modismos, desapareceram com o passar do tempo ou passaram a ser aceitos devido às mudanças de costumes.

 

Saúde e alegria a todos