Diálogos 9

Em Mudanças, de 27.12.15, apresentei as razões que me levaram aos Diálogos. Em Diálogos 1 – preâmbulo, de 10.1.16, iniciei a publicação dos diálogos escritos a partir de 29/3/82.

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P2. Sinto-me povo! SINTO-ME POVO! SOU POVO!

P1. Lógico que você é povo; qual outra coisa poderias ser?

Você é político? Não!                    Você é militar? Não!

Você tem parente bem situado? Não!                 Você tem parente político? Não!

Você é jogador de futebol? Não!            Você é técnico de futebol? Não!

Você é dirigente de time de futebol? Não!                     Você é juiz de futebol? Não!

Você é candidato a alguma coisa? Não!                          Você é parente de candidato? Não!

Você foi candidato a alguma coisa? Não!                        Você foi parente de candidato? Não!

Você é funcionário público não concursado? Não!

Você é parente de não concursado? Não?! INCRÍVEL!!!!

Em caso de problemas, você tem quem dê um jeitinho? Não!

Você é artista? Não!                      Você é cantor? Não!

Você é compositor? Não!                           Você é festivo? Não!

ÚLTIMA CHANCE             Você é BAIANO? NÃO!!!!!!

Então você é nada, ABSOLUTAMENTE NADA!

P2. Sou povo! Sou povo! Sou povo! Azar nosso, não é?

P1. Porque azar nosso? Temos liberdade de pensamento, temos liberdade para expressar a nossa opinião, temos liberdade de ir e vir. O que mais precisamos?

P2. E quando a coisa não funciona bem, isto é, não funciona como ele quer, o que escreve nos manda calar a boca em vermelho. E na versão digitada, em vermelho e com fonte diferenciada! (Diálogos 8)

P1. Não se preocupe, se o diálogo for publicado, a participação dele será censurada. Censores não gostam da cor vermelha. Ele não aparecerá.

P2. Não sei não, ele não é povo, sabia?

P1. É? E o que ele tem dos pré-requisitos acima para não ser povo?

P2. Muito, muito. Ele não pertence a qualquer instituição acima da lei, mas dizem que ele tem amigos influentes. Sabe, aquele pessoal que na hora do aperto ajuda a soltar o cinto?

P1. Conversa, ele é um reles professorzinho. Mas mesmo assim é melhor não ficar tendo ideias bobas em voz alta. Se ele entender que o vermelho pode complicar, ele passa a escrever os nossos diálogos em vermelho.

P2. Você percebeu que nós falamos, falamos, falamos, e ainda não comentamos a nossa situação atual?

P1. Qual situação atual?

P2. Esta situação que vivemos aqui. O Raabe, a Alemanha, o trabalho, o desânimo, o desinteresse, tudo.

P1. Melhor nem comentar. Se não falamos a respeito as coisas permanecem na penumbra; a tristeza continuará latente, mas não presente, apenas alfinetando de quando em vez, mas sem sangrar. Se começamos a falar muito a depressão poderá atingir limites insuportáveis. Deixa para mais tarde.

P2. É isso. Chega por hoje?!

 

Julho de 1982

 

P1. O tempo passou, o mundo continua o mesmo, sem grandes novidades …

 

Continua

 

Nota: Em algumas frases são referenciadas situações políticas, trajes, comportamentos e posturas típicas da época em que os diálogos foram escritos, primeira metade da década de 1980. Algumas delas tornaram-se moda, como barba mal aparada, uso de óculos Ray-Ban, governantes incompetentes. Outras, como bons modismos, desapareceram com o passar do tempo ou passaram a ser aceitos devido às mudanças de costumes.

 

Saúde e alegria a todos

Diálogos 7

Em Mudanças, de 27.12.15, apresentei as razões que me levaram aos Diálogos. Em Diálogos 1 – preâmbulo, de 10.1.16, iniciei a publicação dos diálogos escritos a partir de 29/3/82.

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P1. Mesmo assim foi uma vitória.

P2. Eu diria que os ingleses podem afirmar terem ganho a guerra da Malvinas-Falklands, como dizem que ganharam a II Guerra Mundial. Como a II Grande Guerra foi o início do fim para a Inglaterra, pode ser que as Falklands seja o final do fim. Pelo menos a estação intermediária já é. [1]

P1. Relendo o que já foi escrito, pode-se dizer que dialogamos bastante.

P2. É verdade.

P1. Só que nisso tudo, duas coisas chamaram a minha atenção. Uma delas é que um de nós domina um assunto enquanto o outro pouco contribui para ele. Mudado o assunto, muda o dominador.

P2. Isto é o que se poderia chamar de “alternância no poder”. Base da democracia desejada publicamente por todos e odiada em silêncio pelas “situações” no poder.

P1. Engano! Os nossos diálogos podem simular uma alternância de poder, mas uma alternância falha, pois a participação da oposição é muito fraca.

P2. Perfeito. Este tipo de alternância de poder praticado nos nossos diálogos é o odiado publicamente pela oposição e desejado ardentemente e em silêncio pela situação. É uma prática comum em muitos lugares.

P1. Verdade. A outra coisa que não me agradou foi a quantidade de tracinhos à frente das nossas ideias. Parecem ideias traçadas. (originalmente foram colocados travessões indicativos de fala, abandonados na digitalização e os debatedores eram identificados por 1 e 2))

P2. Bom, a partir de agora não se escreve as ideias com travessão.

P1. Pronto já partiste para uma solução unilateral, antidemocrática, ditatorial, ao impor uma solução, a sua solução, para um problema levantado por mim. Já que nós dois trocamos ideias e são as nossas ideias escritas com travessão, nada melhor do que uma solução negociada entre os afetados pelo problema.

P2. Não precisa ser tão didático! Afinal a única solução para o teu problema é aquela que eu apresentei. Assim, não há necessidade de discutir o que quer que seja. Sendo única a solução, esta deve ser posta em prática imediatamente. Tempo é dinheiro e não se deve ficar discutindo o que está resolvido de antemão. Além disso, enquanto discutimos os tracinhos indesejados por você permanecem.

P1. E por falar em didatismo?! A sua solução não é única! Existe ainda a possibilidade de eu me convencer, ou ser convencido, a manter o tracinho, melhor dito, o travessão. Ou então podemos concluir que um outro símbolo ou texto seja melhor que os tracinhos. Dar nomes a nós dois e ao início de cada frase escrever a inicial de cada nome. Ou usar uma letra diferente, gótica por exemplo, para cada um. Ou eleger duas cores, verde e vermelho, e a contribuição de cada um seria redigida com a respectiva tinta colorida.  O grande mal da solução não pensada e não discutida é estar ela limitada ao conhecimento e criatividade de poucos, com chances de não ser a melhor.

P2. Certo, concordo, mea culpa, mea culpa, mea máxima culpa! Só que a proposta das cores, particularmente a vermelha, não é exatamente feliz. Se os nossos diálogos forem algum dia impressos, o escrito em vermelho poderá ser censurado e eliminado independentemente do conteúdo. Uma má embalagem prejudica o produto.

P1. Mesmo ideias nada tendo a ver com goiabada.

Continua

[1] Ao final de Diálogos 6 são encontradas três observações relativas ao escrito no período da guerra das Malvinas; a segunda observação está transcrita a seguir, para corrigir o redigido em 1982.

2. Em 1983 completaram-se 50 anos da chegada dos nazistas ao poder na Alemanha. A TV alemã apresentou durante todo o ano programas relativos ao nazismo e à II Guerra Mundial, em uma frequência de alguns por semana. Tive a oportunidade de assistir a quase todos. A partir de então tenho lido muito sobre a história dos países europeus mais envolvidos na II Guerra, Alemanha e Grã-Bretanha. Devo, a partir do conhecimento adquirido após a redação das palavras encontradas no texto acima, corrigi-las. Os ingleses não ganharam a II Guerra Mundial. Eles impediram, sozinhos, a vitória do nazismo, algo muito mais significativo. O conhecimento adquirido por mim sobre Alemanha e Grã-Bretanha levam-me a respeitá-los muito mais hoje do que o fazia ao início dos anos 80.

Nota: Em algumas frases são referenciadas situações políticas, trajes, comportamentos e posturas típicas da época em que os diálogos foram escritos, primeira metade da década de 1980. Algumas delas tornaram-se moda, como barba mal aparada, uso de óculos Ray-Ban, governantes incompetentes. Outras, como bons modismos, desapareceram com o passar do tempo ou passaram a ser aceitos devido às mudanças de costumes.

Saúde e alegria a todos

O que é bom para … 1

O que é bom para um cidadão é bom para a coletividade ou o que é bom para a coletividade é bom para cada um de seus componentes?

A resposta a esta frase é, a meu ver, fundamental para qualquer coletividade, seja esta coletividade um país, um estado, cidades, grandes ou pequenas empresas, famílias. A partir da resposta, simples, porque as duas respostas possíveis são auto excludentes, pode-se identificar a situação das referidas coletividades.

Estou convicto que o bem coletivo se sobrepõe ao bem individual. Em uma coletividade onde cada um se vê e comporta como uma entidade, sem se preocupar com o próximo ou com a unidade com a qual está ligado, os problemas de relacionamento e de progresso são maiores. Exemplos há em grande número.

Em uma pequena coletividade composta por pessoas com elos maiores do que apenas interesses pessoais, uma família estruturada por exemplo, torna-se fácil gerenciar a prática do bem individual. Pequenas correções de rumo permitem satisfazer a todos, desde que todos estejam interessados em abrir mão de algumas coisas em favor da satisfação dos demais, satisfação não plena devido aos acordos necessários, mas uma satisfação possível e de agrado de todos.

Em grandes coletividades, como países, estados, cidades, grandes ou pequenas empresas, torna-se impossível gerenciar a prática do bem individual. As correções de rumo, simples e de fácil negociação em coletividades pequenas, tornam-se impossíveis nas maiores. Os componentes das grandes coletividades não se conhecem, em sua maioria; não há ou há tênues afinidades pessoais. Não é possível consultar a todos e passa-se a aplicar estatística. A satisfação de todos é substituída pela satisfação da maioria. Para uma coletividade de dez, dez por cento de insatisfeitos é igual a um. Negocia-se com esse um. Para uma coletividade de dez mil, dez por cento de insatisfeitos é igual a mil. Não é possível negociar com mil. Em uma coletividade de cerca de 200 milhões de cidadãos, representada por cerca de 100 milhões de adultos, dez por cento de insatisfeitos correspondem a 10 milhões de pessoas. Como se negocia com 10 milhões?

A impossibilidade de negociação pessoal leva à aplicação de um segundo recurso, possível de há algum tempo em virtude da sociedade de comunicação em que vivemos. Aplica-se propaganda maciça na tentativa de convencer a audiência do real esforço da estrutura no poder dos países, estados, cidades, grandes ou pequenas empresas para buscar a felicidade de cada um. Mas aqui tem-se novamente a intervenção da estatística. A propaganda diversificada pelos vários veículos disponíveis atinge a praticamente todos, porém não convence a todos. Alguns a rejeitam pela forma, outros pelo conteúdo, outros pelo conjunto forma e conteúdo, outros simplesmente por acreditarem na impossibilidade da satisfação de todos. Ao final, gasta-se muito com propaganda, sem resultados proporcionais aos gastos.

Estou convicto que o bem coletivo se sobrepõe ao bem individual.

Em estruturas onde os componentes não são seres considerados racionais, estruturas físicas residenciais ou industriais por exemplo, compostas por vigas, pilares, fixações e outros elementos estruturais, o melhor para a estrutura será sempre o melhor para os seus componentes. Afinal esta estrutura nada mais é do que uma série de componentes interligados trabalhando para o conjunto se manter estável.

Porém, para que seja possível ter um grande número de pessoas convictas de que o melhor para a estrutura é o melhor para os seus componentes necessita-se de muito mais. Necessita-se de lideranças. Lideranças não apenas carismáticas, ou pretensamente carismáticas, ou auto convencidas de seu carisma. As lideranças, não uma única liderança, devem ser, além de efetivamente carismáticas, convincentes. Mais convincentes pela honestidade de propostas e de comportamento do que carismáticas. Convincentes não apenas pela palavra, ou menos pela palavra e muito mais pelo exemplo. Com isso tem-se a possibilidade de convencer as pessoas, pela palavra e principalmente pelo exemplo, de que o melhor para a estrutura é o melhor para cada um de seus componentes. Caso contrário é perder tempo.

Em uma estrutura composta por homens – desculpem-me os feministas ou politicamente corretos, mas homens se refere a seres humanos e eu me recuso a escrever homens e mulheres – leis regulam as suas relações. As leis devem ser simples, claras e objetivas e devem ter para todos o mesmo peso e importância. O seu desrespeito deve levar os desrespeitosos aos tribunais e, após julgamento, libertá-los ou puni-los. Se encarcerados, as instituições correcionais devem oferecer a efetiva possibilidade de correção de comportamento.

Em uma estrutura humana, a capacidade de compreensão de problemas complexos por parte de seus componentes deve ser implementada ano a ano. Tal capacidade somente pode ser obtida com políticas educacionais que objetivem o fortalecimento da estrutura e jamais apenas a satisfação dos componentes.

O detalhamento de como deve ser uma sociedade justa e eficiente, voltada para o bem-estar de todos através da busca do melhor para toda a sociedade transcende o objetivo deste blog e a competência do seu redator. Porém, apenas a busca do melhor e mais eficiente pode levar ao progresso efetivo.

Se o bem individual se sobrepuser ao coletivo, a vida pode se tornar muito desagradável.

Saúde e alegria a todos

Lugar-comum 2

continuação de Lugar-comum 1

Os noticiários primam pelo lugar-comum da busca pela audiência, hoje violência, não pela informação. E como a população gosta de violência, o que se vê nos noticiários é apenas violência. Violência do homem contra o homem, da natureza contra o homem, do homem contra a natureza. E muitos programas dedicam-se unicamente à violência entre os irracionais, sejam estes animais ditos irracionais em sua batalha pela vida; sejam estes animais irracionais, ditos racionais, em sua batalha por dinheiro. Em filmes vê-se um homem armado com uma barra de aço, ou algo semelhante, desferir pancadas em um outro que, depois de chegar à beira da morte, se levanta e vence a batalha, em muitas das vezes tirando a vida do agressor com a sua própria arma. Alguns irracionais, porque não conseguem entender o sentido figurado da cena, presunçosamente apresentados como racionais, aplicam tais técnicas de autodefesa (?) para matar torcedores de times de futebol, em especial. Outros programas primam pelas cenas de sangue, como “os novos gladiadores” ou “os gladiadores modernos”, mais conhecidos como lutadores de MMA e uma outra sigla qualquer. Segundo os canais especializados nestas lutas, o esporte que mais cresce no mundo. Neste esporte (?) o lugar-comum para o lutador é a cara do adversário (a palavra rosto não se aplica) e para a assistência é o sangue. Ambos associados, cara ensanguentada, são oferecidos à assistência como um lugar-comum para mudar o lugar-comum do dia-a-dia e uma alternativa de reação violenta ao marasmo do seu dia-a-dia.

Desculpem-me a presunção de bancar o analista de comportamento, mas apenas consigo associar a onda de violência gratuita que grassa no mundo e em todas as áreas a uma reação irracional ao lugar-comum do dia-a-dia das pessoas.

Os políticos, sempre eles, amam o lugar-comum. O que os meus eleitores desejam? Guerra? Guerrearemos. Paz? Sempre foi o nosso objetivo, mesmo ao iniciarmos a guerra! Rompantes? Somos o maior sei lá o que do universo! Mentem para adoçar os ouvidos dos eleitores e receber a única coisa que lhes interessa, os doces votos. Eles conduziram o governo para uma situação difícil? Justificam os problemas pela conjuntura, nunca sendo eles os responsáveis e pedem a colaboração dos governados; o sacrifício do aumento dos impostos, a defesa da liberdade em guerras etc. E quando a situação está boa? Ora, eles preparam a situação ruim futura. Os menos ruins dentre os políticos, não os melhores, talvez por desagrado pessoal com o próprio comportamento público, alternam comportamentos sérios com eleitoreiros. No momento, Barack Obama talvez seja o melhor exemplo dentre todos. Nossa presidenta, Dilma, não sofre com o seu comportamento público. Acredito que ela tenta explicá-lo de vez em quando, mas ninguém consegue entender o que ela diz, ou pensa dizer, ou acredita dizer, ou. O último ou, desacompanhado e sem alternativas, é a melhor explicação para a presidenta.

O que os espertos fazem é dar às pessoas aquilo que consegue mantê-las desligadas da realidade e aparentemente elas agradecem, embevecidas. E manda lugar-comum.

A manada cresceu, de cerca de 4 bilhões de pessoas em 1970 para cerca de 7,2 bilhões em 2015 (1). Sabe-se que cerca de 75% da população mundial não tem acesso a drogas contra a dor (2), medicamentos de fácil acesso em certas regiões, o que revela a precariedade da vida destas pessoas. Sabe-se também que apenas cerca de 10% da população mundial tem acesso aos bens oferecidos à sociedade de consumo (3). Isto significa que apenas cerca de 10% da população mundial, algo como 400 milhões de adultos, têm acesso aos recursos de informação que poderiam formar e informar, mas ao invés disso, tentam controlar a todos e efetivamente controlam a muitos. Esses 400 milhões são hoje ou serão amanhã as pessoas que deverão mudar o mundo, ou tirá-lo do lugar-comum em que foi inserido. É possível viver em lugar-comum, aceitar viver no lugar-comum e identificar quão nefasto ele é?

 

(1) http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2011/10/111026_analise_populacao_ebc_rc.shtml

(2) http://www.rtp.pt/noticias/mundo/mais-de-75-da-populacao-mundial-nao-tem-acesso-a-drogas-contra-a-dor_n867083

(3) Design for the other 90% Simthsonian’s Cooper-Hewitt, National Design Museum, New York, 2007

 

Saúde e alegria a todos

Lugar-comum 1

Por mais absurdo que me parece, continuo acreditando que o ser humano foi criado, segundo alguns, ou desenvolveu-se, segundo outros, para algo maior do que o óbvio. Afirmei que a minha crença pode parecer absurda por uma razão simples. Por falha minha de observação, ou por falha de muitos dos observados por mim, o mundo, não apenas o Brasil, transformou-se em uma imensa gaiola de obviedades. Em um momento onde as coisas mudam em velocidades vertiginosas e crescentes, a maioria permite que a mudem para o óbvio, ou criatividade zero. Melhor que óbvio acredito ser lugar-comum.

Por preferir a palavra lugar-comum, resolvi inseri-la no Dicionário Prático Brasileiro. Depois de tudo pronto concluí que deveria criar um Dicionário Prático Mundial e, talvez por preguiça, talvez por estar infectado pelo vírus da simplicidade, não da simploriedade, espero, desisti do DPM e passei para o Post.

Consultado o Dicionário Houaiss, (Editora Objetiva Ltda.), obtemos para lugar-comum: fonte geral de onde os oradores podem tirar argumentos e provas para qualquer assunto; conjunto de fontes hierarquicamente ordenadas e criticadas das quais se servem os teólogos para fundamentar os argumentos da doutrina católica; ideia, frase, dito, sem originalidade; banalidade, chavão; o que é do conhecimento de todos; coisa trivial. Consultados os sinônimos e variantes apresentados pelo mesmo Dicionário Houaiss temos para lugar-comum: banalidade, bordão, chapa, chavão, clichê, estereótipo, tópico, trivialidade, vulgaridade. Os significados não grifados são de uso específico, os demais significados são depreciativos. Lugares-comuns são depreciativos e deprimentes. Alguém consegue justificar a expressão intensamente repetida “a gente se fala”, e as suas derivações?

O sistema de controle de manada implantado no mundo ao início dos anos 70 desagradou e desagrada a mim que, gostando ou não, sou parte da manada. Comecei a me preocupar com isso quando do aparecimento da era DISCO na música. A era disco sucedeu a era dos protestos, oferecendo diversão a custo mental zero. Enquanto as músicas de protesto e não necessariamente apenas as de protesto até os anos 60, início dos 70, apresentavam conteúdo em letra e música, as músicas da era disco apresentavam ritmo. Não que eu desgostasse ou desgoste delas, a mim desagrada a eterna falta de conteúdo. O ritmo pelo ritmo é bom de vez em quando e é péssimo sempre. Manter o cérebro vazio é recomendável de vez em quando; é péssimo sempre. Manter o cérebro ocupado é bom na maior parte do tempo, é péssimo sempre. Tomemos alguns exemplos.

Os jogadores de futebol descobriram o agradecimento a Deus, sempre ele, e quando vencem, perdem, marcam gol, impedem gol, a bola bate na trave, a bola entra no gol, enfim pouco importa o que aconteça, apontam os dedos para o céu e nas entrevistas, vazias em conteúdo, agradecem a Ele, como se Ele fosse torcedor do seu time e apenas do seu time. E quando em jogo empatado todos os gols são agradecidos a Ele. Isso significa que Ele não conseguiu se decidir por um lado e optou pelo empate? E quando um dos times vence e todos os gols foram agradecidos a Ele, significa que ele privilegiou um lado em detrimento de outro? Deus tomou partido! Por que, se ele é perfeito e todos nós somos seus filhos? A prática ganhou adeptos em outros esportes, o que é triste, e em outros continentes, o que evidencia o triste lugar-comum. Eles descobriram também as tatuagens e os brincos. Alguns já têm braços praticamente monocromáticos, negros, de tanta coisa lá desenhada. E o futuro já está bem encaminhado, basta assistir a algum dos jogos da Copa SP de futebol júnior.

Ainda no futebol, os goleadores são ótimos. Gol marcado distintivo beijado e, na semana seguinte, clube abandonado por mais dinheiro em algum canto do mundo. Amam a quem mais lhes pagam e pouco interessa se hoje jogam pelo Palmeiras e amanhã pelo Corinthians e na semana seguinte pelo São Paulo e depois pelo Santos. Pagou, levou. Tatuagens, brincos, entrevistas vazias, dedos para o céu, o de sempre. O lugar-comum de sempre.

Continua em 14.2.16

 

Saúde e alegria a todos

Errar é humano

Algumas pessoas evitam correr riscos por medo de errar. Se errar é humano, pois errar é consequência do desconhecimento, da inexperiência, da falibilidade inerente ao ser humano, estes que temem o erro acreditam ser infalíveis? Ou pretendem parecer infalíveis?

Encontrei no material recém descoberto duas frases que cabem muito bem para exemplificar o erro, ou o risco do erro. Elas estão no original alemão e também traduzidas para o português.

Es gibt nicht das leiseste Anzeichen dafür, dass man diese Energie jemals gewinnen kann. Das würde nämlich bedeute, dass man das Atom beliebig zertrümmern könnte. Wie sehen Atomspaltung nur dort, wo die Natur Sie selbst offenbart. (1)

Albert Einstein, 1905, nach de Formulierung seiner Speziellen Reletivitätstheorie, mit der er auch das Gesetz vom Grundlegenden Zusammenhang zwischen Masse und Energie in der berühmten Formeln E= mc² begründete.

Não há a menor prova de que algum dia será possível obter esta energia. Isso significaria que o átomo pode ser dividido da forma que se desejar. A fissão nuclear pode ser vista apenas onde a natureza por si assim a apresenta.

Atribuído a Albert Einstein, 1905, após a formulação da sua Teoria da Relatividade especial, com a qual ele também estabeleceu a conhecida relação fundamental entre massa e energia na famosa fórmula E = mc ².

Sehr viele, und vielleicht die meisten Menschen müssen, um etwas zu finden, erst wissen, dass es da ist. (2)

Georg Christoph Lichtenberg, Physiker un Schriftsteller, 1742 – 1799

Muitos, e talvez a maioria das pessoas precisa, para encontrar algo, primeiro saber que ele existe.

Georg Christoph Lichtenberg, físico e escritor, 1742 – 1799

(1) J. Jürgenson, Das Gegenteil ist war, Band 2 https://www.google.com.br/webhp?sourceid=chrome-instant&ion=1&espv=2&ie=UTF-8#q=das%20gegenteil%20ist%20wahr%20band%202

(2) https://de.wikiquote.org/wiki/Georg_Christoph_Lichtenberg

A frase de G. C. Lichtenberg aplica-se a um sem número de casos, inclusive ao  atribuído a Einstein, que participou e vivenciou o domínio da energia nuclear nos experimentos para a fabricação da primeira bomba atômica e depois pode analisar as consequências de tal domínio sobre o ser humano quando dos ataques a Hiroshima e Nagasaki.

Saúde e alegria a todos

Mudanças

Tomei a decisão de publicar o texto referente ao ano novo, que poderia ser publicado hoje, 27.12.15 ou no próximo domingo, 2.1.16, no dia 31 de dezembro, quinta-feira próxima. Aproveito a data de hoje para informar sobre as mudanças que irão acontecer na estrutura do Blog.

Há poucas semanas informei a mudança da linha editorial do Blog, que passou de assuntos pré-definidos no cabeçalho da página inicial, chamados de categorias, para sem linha editorial. Com isso torna-se necessária uma mudança do cabeçalho.

Em uma ação de limpeza e reorganização de armários e gavetas, feitas por mim normalmente ao final do ano, mas não todos os finais de ano, encontrei material escrito por mim a partir do início da década de 1980. Este período caracterizou-se por uma série de indefinições com relação à nossa estada na Alemanha, indefinições relacionadas com o tema do trabalho que eu deveria desenvolver na Universidade Técnica de Munique; com os exames de nível de conhecimento em algumas áreas que eu desconhecia ter de prestar, mas teria obrigatoriamente de fazê-lo; com problemas de saúde posteriormente comprovados irrelevantes e outras coisinhas mais. Em resumo, com os problemas normais que amedrontam pessoas e eu estava amedrontado.

Este material não foi jogado fora nas várias limpezas realizadas ao longo de 35 anos, mas rodou de cá para lá até ser esquecido. Encontrei-o na semana passada. Reli e continuo gostando do que foi escrito. Irei inseri-lo no blog.

Sempre gostei de conversar sobre assuntos que eu considero importantes. Recém-chegados a Munique, o meu vocabulário alemão era reduzido e eu não conseguia conversar com fluência, ainda mais assuntos complexos. Eu precisava dialogar com alguém e, por carta era horrível, pois o tempo mínimo para se receber a resposta a uma carta enviada ao Brasil era de duas semanas. Um minuto ao telefone com o Brasil custava cerca de cinco dólares. Precisei dialogar com alguém e o único à mão, disposto a dialogar sobre os temas de meu interesse, era eu mesmo. Criei dois personagens e talvez em um arroubo de criatividade de engenheiro, chamei o primeiro de 1 (um) e o segundo de 2 (dois). Algumas páginas depois criei o 3 (três). O 3 é “aquele que escreve”.

Uma das categorias terá por nome diálogos. Talvez, ao terminar os diálogos da década de 1980, eu salte para os dias atuais e continue a dialogar comigo mesmo.

Fora dos diálogos escrevi ainda sobre o Brasil, incrivelmente igual ao Brasil de hoje; sobre a Guerra das Malvinas, entre um país, Argentina, sem recursos, não apenas bélicos e outro nos estertores de sua dominação mundial, o Reino Unido, entre nós Inglaterra. Tratei também de outros assuntos daquele momento e que, em alguns casos se mostram atuais ainda hoje.

A minha intenção é eliminar as categorias definidas a cerca de um ano e substituí-las por publicações, já criada e que conterá tudo o que foi e vier a ser publicado; diálogos, já apresentado; era uma vez, que conterá os contos de fadas boas ou más. Talvez insira mais uma categoria, ainda a definir.

Tentarei implantar as alterações até o início do próximo ano, isto é, a próxima sexta-feira. Se não for possível ao início do ano. A intenção de criar o Blog era, como pode ser lido na primeira publicação, e ainda é a de apresentar o que eu penso, apenas. Não pretendia e não pretendo ser um blogueiro profissional, ter seguidores, ir para o twitter também e nem ser um escravo de prazos, algo em que eu estava me tornando até a interrupção de outubro e novembro.

 

Saúde e alegria a todos

Certezas complementares 2

Devemos cuidar tanto do exterior quanto do interior. Uma pele de tigre e de leopardo não é diferente de uma pele de cachorro ou de ovelha, se o pelo está raspado.

Confúcio (550-480 a.C.) filósofo chinês

Mantenha-se firme e defenda-se como um homem de coragem! O perigo maior é o do medo!

Dom Juan Manuel (1282-1349) príncipe, político e escritor espanhol

Nos vos iludis, operação plástica ou maquiagem não alteram personalidades.

Origem desconhecida (atual)

 

Gostei das certezas complementares 1, que associa frases de há muito tempo com frases atuais, sempre com o mesmo tema.

Estas certezas complementares 2 foca o maior problema atual, a meu ver, a falta de coragem. Grande parte dos nossos problemas se relacionam com a covardia. O que mais se ouve são frases como:

– O que eu quero é garantir o meu salário!

– Tenho família, preciso pensar no bem-estar dela!

– Falta pouco para a minha aposentadoria! E outras mais.

Com estas desculpas as pessoas aceitam tudo sem se aperceber que estão se desmoralizando perante alguns e o pior, perante si mesmos.

Monarquia, presidencialismo ou parlamentarismo

Há muito penso sobre qual seria o melhor sistema de governo para um país que ainda não tem estruturas políticas claras, como o Brasil e os demais países da América Latina e da África e de muitos países da Ásia. Enfim, para mais de 75% dos países do mundo.

A monarquia é a mais antiga forma de governo, em que o chefe de Estado tem o título de rei ou rainha (ou seus equivalentes). Já foi no passado também uma forma de governo, onde o monarca acumulava a chefia do Estado e a chefia do Governo. Tal sistema cumulativo já não mais é praticado e na maioria das monarquias a chefia de Estado tem um ciclo sucessório por direito de sangue, de pai para filho, e a chefia de Governo é alternada por eleições entre candidatos de partidos concorrentes (1). A monarquia parlamentarista iniciou-se com a Guerra Civil Inglesa e um de seus líderes maiores, Oliver Cromwell (1599-1658). Neste caso a monarquia permaneceu, apesar da execução do Rei Charles I, e o chefe de estado, o primeiro ministro, não era eleito pelo povo.

O sistema presidencialista foi criado quando da Independência dos Estados Unidos da América, em 1787. Diferentemente do que ocorreu no Brasil anos depois, havia uma repulsa dos norte-americanos à coroa britânica e seria inaceitável a criação de um império independente. Porém, várias das prerrogativas do monarca chefe de Estado e de Governo foram mantidas para o presidente (2), dentre elas a independência frente ao parlamento. O direito de sangue e o reinado por toda a vida desapareceram. Hoje, nos sistemas presidencialistas, o presidente é eleito por um período determinado de tempo, podendo ou não haver reeleição; ele governa independente do parlamento, porém, sem maioria na(s) casa(s) parlamentares federais terá dificuldades para aprovar propostas de governo. Uma derivação do sistema presidencialista “monárquico”, com o presidente acumulando as chefias de Estado e de Governo, é o presidencialismo parlamentar, onde ao Presidente da República cabe a chefia do Estado e ao primeiro-ministro a chefia de Governo.

O Brasil teve um curto período de Império, 1822-1889, após o qual instalou-se o regime presidencialista, inicialmente comandado pelo marechal Deodoro da Fonseca, proclamador da República e monarquista. Incrível como nós conseguimos escolher sempre o caminho mais tortuoso.

Vivemos no Brasil também um breve período parlamentarista (3), quando uma semana após a renúncia de Jânio Quadros, no dia 2 de setembro de 1961 uma emenda à Constituição Federal instalou o Parlamentarismo no Brasil, que vigorou por 17 meses. A oposição ao regime parlamentarista estendeu-se da implantação até o início de janeiro de 63, quando foi realizado plebiscito que decidiu pela volta do sistema presidencialista. E pouco tempo depois, em 31 de março de 1964 (dizem ter sido em primeiro de abril) aconteceu a revolução salvadora, que, parece, não deu certo.

O que seria o melhor para o Brasil? Sou de opinião que a segurança excessiva, no caso devido ao período pré-definido de mandato, torna os governantes desleixados ou desonestos, ou os dois. Some-se a segurança com a possibilidade de reeleição e os governantes tornar-se-ão perigosos para o país.

Acabamos de vivenciar a realidade expressa no parágrafo anterior. A governante mentiu descaradamente para se reeleger e, dias após a reeleição passou a fazer o contrário do prometido antes da eleição. Consequências? Nenhuma. Alguns esbravejaram impedimento ou impeachment, mesmo sabendo tal ser inviável naquele momento. E o país mergulhou na recessão; ou foi mergulhado? Consequências? Nenhuma. O próprio padrinho da presidente, por ele chamada de mãe do PAC, sigla que também foi para o espaço com o seu significado, em clara demonstração de lealdade para consigo mesmo critica abertamente a presidente. Consequências? Nenhuma. Nenhuma para ela e seus asseclas, inclusive o padrinho. Para o país, taxa de juros para empréstimos bancários acima de 57% ao ano, juros para empréstimos para cartões de crédito acima de 300% ao ano, mais de 100 mil dispensados dos empregos em poucos meses etc. Consequências? Nenhuma? Leiam o publicado pela Folha de São Paulo (4).

Em um sistema parlamentarista, sendo a atual presidente a primeiro ministro, bastaria um voto de desconfiança ou uma moção de censura à primeiro-ministro, votada por parte da maioria do congresso, para que o Presidente da República, Chefe de Estado, convocasse novas eleições e o povo poderia optar pela substituição da Chefe de Governo. Alguém pode retrucar que uma eleição é cara, mas quão caro é um governo desmoralizado e desacreditado mantido por mais alguns anos?

(1) http://www.ambito-juridico.com.br/site/index.php?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=2949

(2) http://www.conteudojuridico.com.br/artigo,sistema-presidencialista-de-governo,50259.html

(3) http://www2.camara.leg.br/comunicacao/institucional/noticias-institucionais/emenda-parlamentarista

(4) http://www1.folha.uol.com.br/educacao/2015/06/1646970-mudanca-no-fies-deixa-pedreiro-com-divida-de-r-10-mil.shtml

Saúde e alegria a todos

Santayana

Aqueles que se esquecem do passado estão condenados a revivê-lo.  George Santayana (1879 – 1955) 

Por ter vivido em Munique e pela sábia recusa da Alice em acompanhar ao campo de concentração de Dachau os que nos visitavam e desejavam visitá-lo, estive lá umas sete ou oito vezes. Dachau é uma cidade pequena, fundada no século X, próxima de Munique e a cerca de 20 quilômetros de onde morávamos. A cidade ficou conhecida por ter em sua área o primeiro campo de concentração da Alemanha nazista, colocado em operação poucas semanas após o nazismo chegar ao poder. Após a segunda guerra mundial, o campo de concentração foi transformado em campo de refugiados e a partir da década de 1960 foi ali erigido um Memorial, aberto à visitação pública. Ao iniciar o circuito de visitação entra-se no antigo alojamento dos oficiais, um salão amplo e de pé direito elevado. Na parede oposta lê-se a frase de Santayana, imensa, gravada no alto da parede e ocupando toda a sua largura. Depois de lê-la pela primeira vez, jamais a esqueci. Estou convencido que os alemães pensantes, a absoluta maioria, jamais a esquecerão também, para todo o sempre.