O futuro a Deus pertence 4.3

Escrito em 1981

A segurança nacional voltou a ser ameaçada, não mais pelos opositores internos ou por potências estrangeiras. A maior ameaça à segurança nacional tornou-se o próprio governo.

E agora? O futuro a Deus pertence!

Escrito em 2016

E Lula, finalmente, venceu o primeiro turno. E venceu em todos os estados da União, exceto em Alagoas, no segundo turno. Venceu pela primeira vez e pela primeira vez com coligações conchavantes ou conchavos coligantes.

Os bons ventos continuavam a soprar sobre Bral-Búrdia. E o governo populista partiu para projetos faraônicos. Transposição do Rio São Francisco: projeto abandonado, reiniciado, abandonado; situação atual, sei lá. Construção de um porto em Cuba. Construção de uma estrada inútil interligando Brasil e Lima, Peru; inútil para a pretensa destinação de sua construção.

E as bolsas cresceram. Há desigualdade social, crie-se uma bolsa federal dentro do conceito “bolsa hoje, voto amanhã” “clientelismo hoje, voto amanhã”. As crianças terminam a escola obrigatória não alfabetizadas? Quotas universitárias nelas; “quota hoje, voto amanhã”. O direito ao certificado universitário inútil! O conceito, eleitor enganado, voto contado, levado ao extremo.

Nos foros internacionais Lula detonava. Afinal era um homem humilde que chegou ao posto mais alto de seu país. Internamente o comportamento de alguns governistas da coligação deixava transparecer o uso de formas escusas de obter apoio, através da compra de votos, no caso chamado de Mensalão (2005 – 2006) (3).

O primeiro reinado de Lula I, o único, chegou ao fim com a plateia aplaudindo e pedindo bis (4).

E o bis se fez. Candidatos em 2006, muitos, como sempre, afinal o pluripartidarismo atesta e solidifica a democracia e colabora com a conta corrente dos donos dos minipartidos. Para o segundo turno foram Lula, pela quinta vez candidato e Geraldo Alckmin, paulista de São Paulo, médico, vereador, secretário e prefeito de Pindamonhangaba, governador de S. Paulo, Secretário de Estado, jovem demais à época para ter tido envolvimento com a revolução de 1964, chato de se ouvir e inexpressivo, o antagonista perfeito para Lula vencer.

E Lula venceu o segundo turno.

O mundo recebeu ventos terríveis. De novo o maldito petróleo? Não, agora foram os bancos, os verdadeiros donos do mundo. E a brincadeira de multiplicar o investimento não deu certo. O banco A comprava do banco B e vendia a mesma coisa ao banco C, que vendia ao banco D etc. O mesmo produto era comercializado múltiplas vezes a preços crescentes. Os agentes enriqueciam com a participação nos lucros hipotéticos. Países tornavam-se paraísos econômicos. Um dia alguém quis o dinheiro, não apenas a transferência da dívida. E tudo desmoronou. Países faliram; empresas sérias, mas nem tanto, faliram; bancos faliram. A economia mundial entrou em crise. Lula disse: “Isto não é um tsunami, é uma marolinha para o Brasil”. E a economia bral-burdiana se recuperou com o incentivo ao consumo: compre o seu carro zero em 80 (oitenta) prestações mensais que cabem no seu bolso. E a economia bral-burdiana se recuperou com investimentos chineses: vende-se também a Bral-Búrdia em suaves prestações mensais.

E o país se mantinha estabilizado. Uma massa enorme de brasileiros saiu da pobreza. O número de brasileiros com emprego crescia. O apoio aos menos favorecidos crescia. Todos felizes, ou quase.

E Barack Obama chamou Lula de “O cara, o político mais popular da Terra”. E Lula, de dedo em riste, respondeu a Obama (não é possível ouvir o que foi dito) (5).

Em 2009, ventos duvidosos começam a soprar da Polícia Federal em direção a Brasília. E ameaçam balançar Bral-Búrdia. A Polícia Federal inicia investigações relacionadas a lavagem de dinheiro por um deputado de Londrina, Paraná. Aparentemente nada muito fora do normal.

Em 2010, eleições. Candidatos os muitos de sempre, afinal o pluripartidarismo … De um lado, pela impossibilidade de uma segunda reeleição do Criador, a sua Criatura, Dilma Rousseff, gaúcha de Minas Gerais, apresentada como pessoa capaz, de liderança inconteste, economista quase doutora (7), mãe do PAC, Programa de Aceleração do Crescimento, perseguida e torturada durante a revolução de 1964. Do outro lado, José Serra, inspirado nas três tentativas frustradas de Lula, partia para a sua segunda tentativa, abandonando mais uma vez um posto de governo em São Paulo para se candidatar à presidência.

Com o apoio de Lula e a máquina do Governo Federal ao seu lado, não havia chance para Serra; jamais haverá. E ele perdeu pela segunda vez.

E lá se foi Dona Dilma. Talvez o seu maior legado do primeiro mandato tenha sido a criação de uma palavra nova na língua portuguesa. Ela passou a exigir ser chamada de presidenta. E se perpetrou mais um massacre na língua portuguesa. As trapalhadas de Dona Dilma estão registradas na Internet, em livros e também já foram abordadas neste blog em Era uma Vez e Era uma Vez, outra vez.

O clientelismo populista personificado pela gastança desenfreada somado aos ventos econômicos ruins soprando pelo mundo, em particular na China, levavam a economia brasileira a uma situação perigosa. Mas, por ser ano eleitoral, mentiu-se, para variar.

Os ventos ruins internos de 2009 se intensificaram e, em 2013 se transformaram em furacão. Ventos terríveis que permanecem até hoje e que muitos consideram ventos bons. São os ventos da oportunidade oferecida para Bral-Búrdia tornar-se um país íntegro. Em 2013, a investigação iniciada em 2009 identificou quatro doleiros atuantes em lavagem de dinheiro e, deles, chegou-se à identificação de um esquema imenso de corrupção nos altos escalões de Brasília, tendo como fonte principal de espoliação a Petrobrás (6). A Operação recebeu o nome de Lava-jato.

Antes que eu esqueça. E o país ia seguindo em frente. Comprava-se o que não se precisava, exportava-se a matéria prima para adquiri-la industrializada, incentivava-se a industrialização importando indústrias, investia-se em conhecimento copiando modelos externos, etc. etc.

Em 2014, nova eleição. Candidatos, muitos. No segundo turno a presidenta de um lado e adivinhe quem. Quebrou-se a regra, nem Serra, nem Alckmin; Aécio Neves, mineiro de Minas Gerais, economista, parente do presidente que salvaria o país, mas não tomou posse, Tancredo Neves, deputado federal, governador de Minas Gerais e pouco convincente ou, talvez, insípido, insoso e inodoro.

E Dilma venceu com 51,6% dos votos contra 48,4% para Aécio Neves. A divisão dos votos foi clara. Sul, Sudeste exceto Minas Gerais e Rio de Janeiro somados a Acre e Roraima deram maioria a Aécio. Norte e Nordeste, Minas e Rio de Janeiro apoiaram Dilma. Aécio perdeu em seu próprio estado.

O novo governo Dilma começou mal, evoluiu para péssimo e chegou a um pedido de impedimento para a presidenta ao final de 2015. Tantas trapalhadas e jogadas ilegais teriam consequências. Se não fosse por isso, ela deveria sofrer “impeachment” pelo final inacreditável de sua entrevista após a abertura dos trabalhos da ONU em setembro de 2015, quando ela sugeriu pesquisas para se guardar o vento em movimento e, com ele, movimentar usinas eólicas quando necessário (acessar Dilma e o vento no You Tube; há muitas coisas boas lá).

A economia afundou, a inflação voltou a crescer. O número de desempregados cresceu, muitos dos que haviam saído da pobreza durante o reinado de Lula, o criador, voltaram à pobreza no reinado de Dilma, a criatura. As pessoas voltaram a falar, falar, falar e ninguém a ouvir. Em maio de 2016 a presidenta foi afastada e o vice-presidente passou a exercer interinamente a presidência.

Face à possibilidade iminente de passar a exercer interinamente a presidência, até o julgamento do impeachment da presidenta pelo Senado de Bral-Búrdia, o vice-presidente antecipou e negociou a formação de um ministério com menos ministros, porém qualificados. Dois dias após a posse de seu ministério, o interino teve de trocar dois ministros por acusações de corrupção e participação no esquema Lava-jato. Um terceiro já se foi e outros mais estão pendurados pelas mesmas razões. Quais foram os critérios do presidente interino para escolher seus ministros? O envolvimento com corrupção? Melhor acreditar que não houve critério, isto é, mais do mesmo de sempre.

O planejamento governamental, inexistente, conhecido por “Planejamento Zero”, busca tapar hoje os buracos de ontem e o povo, sempre ele, pode mais uma vez ser chamado a pagar as dívidas contraídas em seu nome, sem a sua consulta e que pouco reverteram a seu favor. A segurança institucional não parece estar ameaçada, porém o maior fator de insegurança não são mais os opositores internos ou potências estrangeiras. A maior ameaça à segurança nacional continua sendo o próprio governo.

E agora?

O futuro continua pertencendo apenas a Deus! Até quando os ba-gunços continuarão se omitindo?

 

(3) https://pt.wikipedia.org/wiki/Esc%C3%A2ndalo_do_Mensal%C3%A3o

(4) https://www.vagalume.com.br/gonzaguinha/pois-e-seu-ze.html

(5) https://www.youtube.com/watch?v=7vmuSZtiG4A

(6) http://lavajato.mpf.mp.br/atuacao-na-1a-instancia/investigacao/historico/por-onde-comecou

(7) http://www.estadao.com.br/noticias/geral,dilma-rousseff-admite-erro-em-curriculo,399151

 

Saúde e alegria a todos

Diálogos 16

Em Mudanças, de 27.12.15, apresentei as razões que me levaram aos Diálogos. Em Diálogos 1 – preâmbulo, de 10.1.16, iniciei a publicação dos diálogos escritos a partir de 29/3/82.

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 P2. Não acredito ser mais possível. Ele pegou gosto de escriba. E o fato de desaparecermos se ele parar de escrever é insignificante para nós. Quem sabe de nossa existência? Nem a mulher do que escreve sabe ainda de nós, ou melhor, leu de nós.

P1. O que escreve conhece a gente e apesar de pouco se manifestar e em vermelho, parece que compartilha com as nossas ideias.

P2. Mesmo quando divergimos, acredito que ele concorda com nós dois, ou nós duas? O que somos, afinal? Hermafroditas eu não aceito.

P1. Preconceito, é? O que escreve tem duas filhas, por que não sermos nós dois? Fica dois a dois.

P2. Não seria bom para ele. Ele ficaria com uma relação íntima com dois, o que não é bom perante o mundo.

P1. O mundo que vá para o inferno. Se for para ficar se dobrando às mesquinharias dele …

P2. Não é mais possível ser um radical radical no mundo de hoje. Seremos nós duas.

P1. Exijo um plebiscito. Não existe algo mais democrático do que um plebiscito.

P2. De novo? Agora é um caso simples de opinião e posicionamento pessoal. E mais, se podemos escolher entre masculino e feminino, não fará muita diferença ser isso ou aquilo. Eu quero ser nada, absolutamente nada!

P1. Nada de plebiscito. Também quero ser nada, absolutamente nada!

P2. Continuamos povo! Continuamos povo!

P1. Viva! Viva! Viva! Povo! Povo!

3.8.82

P2. É, ficamos um bom tempo sem falar. Parece que o que escreve não estava muito interessado em bancar o escriba.

P1. Parece que apesar da carta do irmão dele sobre a situação no Brasil e do entusiasmo inicial gerado por ela, a má vontade retornou.

P2. Mas depois das conversas com o orientador, a coisa melhorou e muito. Agora ele escreve, estuda, medita, discute consigo mesmo o que lê. Vamos ver se a coisa se mantém.

P1. Discute consigo não, discute conosco.

P2. Se você começa a minimizar a importância do que escreve, ele ainda acaba nos boicotando. É bom não esquecer de ser ele um técnico, nada além disso. Sem qualquer formação humanística, seja acadêmica ou pessoal por convivência. Um verdadeiro técnico, frio, calculista, insensível, poluidor, desinteressado dos seres humanos. Uma quase máquina que trabalha com máquinas. Um semi monstro.

P1.ÔÔÔhhh! Isso não te parece ser um pouco demais?

P2. Psiu! É só para ver a reação dele. Ou ele só se manifesta para censurar?

P1. Sei lá! Mas espero que ele tome a decisão correta e parta para resolver os seus problemas acadêmicos o mais rápido possível. Ele anda com umas ideias radicais e um título de doutor talvez o ajudasse, apesar de seu pouco valor.

P2. Também acho. Já pensou nós dois como conselheiros do que escreve? Já pensou se ele vira político ou coisa que o valha e nós seus conselheiros? Acabaremos tão famosos quanto os três que governam os Estados Unidos para o Ronald Reagan.

P1. Pensei que você não o desprezasse tanto, ou a mim, ou a você mesmo. Ele político e nós no mesmo nível dos conselheiros do Reagan é macabro.

P2. Foi só um exemplo. Infeliz, mas um exemplo.

P1. Passa.

P3. Por mim também.

 

continua

 

Nota: Em algumas frases são referenciadas situações políticas, trajes, comportamentos e posturas típicas da época em que os diálogos foram escritos, primeira metade da década de 1980. Algumas delas tornaram-se moda, como barba mal aparada, uso de óculos Ray-Ban, governantes incompetentes. Outras, como bons modismos, desapareceram com o passar do tempo ou passaram a ser aceitos devido às mudanças de costumes.

 

Saúde e alegria a todos

Diálogos 15

Em Mudanças, de 27.12.15, apresentei as razões que me levaram aos Diálogos. Em Diálogos 1 – preâmbulo, de 10.1.16, iniciei a publicação dos diálogos escritos a partir de 29/3/82.

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 Adendo

Nem sempre o que se escreve retrata a nossa crença. Às vezes retrata uma reação a um estado de coisas tornado inaceitável e que ao ser apresentado na forma de aberração objetiva demonstrar o desconforto de quem escreve. O que aqui se inicia retrata a minha crença de 1982, que se mantém em 2016 e se manterá para sempre. O que escrevi sobre o Esquadrão Herodes, a ser estruturado nos Diálogos 12 e 13, expresso pelo debatedor P1, corresponde exatamente às duas primeiras frases acima. O Esquadrão Herodes foi escrito em 1981 e é uma reação ao que se fazia à época e se mantém até hoje e que levou ao estado de insegurança plena em que agora vivemos, isto é, poderia muito bem ter sido escrito hoje. O Esquadrão é uma proposta de solução simples e absurda, típica dos desejos do poder constituído, melhor chamado de poder incompetente, a qual eu jamais apoiaria. Este poder incompetente não atua para resolver problemas, quaisquer que sejam eles, desde sempre. O problema de segurança, porém, deve ser computado quase integralmente aos omissos que governam o estado de São Paulo e os demais estados e o próprio Brasil desde a década de 1950. Os governadores de São Paulo estão nomeados em Diálogos 11.

Final

P1. É fácil. Inicia-se com uma série de filmes, propaganda barata, mostrando ações e consequências de ações de marginais. …

E os comandos passaram para a página 8, terceira coluna, inferior.

Nova onda de demonstrações, debates, entrevistas. A mãe do astro vai aos meios de comunicação.

E os comandos desapareceram do noticiário. O astro, com olheiras profundas, sem dormir a vários dias, parte em descanso para o exterior. Cerca de vinte dias se passaram. Coincidindo com a partida do astro, uma novela atinge seus capítulos finais, uma outra se inicia (com tantas novelas na TV, sempre haverá uma se encerrando e outra se iniciando).

P2. E os comandos?

P1. Ninguém mais se lembra deles, suas ações já foram incorporadas ao dia-a-dia da população. Após cerca de um mês de atuação dos comandos, alguns saneadores já se tornaram Cavaleiros da Ordem do Bercinho e o primeiro salário, engordado pelos prêmios de produtividade, supera os dez salários mínimos regionais. A procura por caixas de papelão usadas nos supermercados próximos aos campos naturais de ação dos comandos cresceu de forma anormal.

P2. E o que aconteceu com o astro, afinal?

P1. Viu como funciona? Aconteceu nada! Uma semana após a partida ele retorna recuperado, é recebido calorosamente por todos, reassume o seu lugar no Olimpo e continua a sua vida divina.

P2. E todo o movimento feito a respeito de sua vida íntima?

P1. Ele voltou uma semana depois de partir. Em um mundo agitado como o que vivemos uma semana é uma eternidade. O máximo que pode acontecer é a sua vida íntima ter ido parar na oitava página, terceira coluna, inferior. Seu retorno, porém, estará na primeira página com foto colorida. Com isso ocupa-se dois espaços diferentes com o mesmo tema importante.

P3. Pessimismo agressivo! Será mesmo assim? Tanta acidez é corrosiva e deprimente. Uma finalização perfeita para uma proposta indecente de projeto.

P1. Não precisamos responder ao comentário do que escreve.

P2. Sem dúvida, está escrito em vermelho. Não tem futuro!

Mas eu pergunto a ele, quem é você, o que escreve? Eu, chamado por você de P2? É ele, chamado por você de P1? E eu respondo ao que escreve. Não! Quem escreve é você, isto é, a responsabilidade pelo que está escrito é sua. Você detém o poder e arca com a responsabilidade. Nós somos nada! Você já nos ameaçou censurar, agora nos chama de pessimistas, mas quem escreve é você. Sem você somos nada, nada.

P1. Calma lá! Assim também não, A coisa ficou confusa. Nós pensamos, ele escreve. A responsabilidade termina no trabalho mecânico de transpor as nossas ideias para o papel. O trabalho intelectual é nosso. Os responsáveis pelas ideias somos nós.

P2. Não refresca grande coisa se estamos presos a ele. Admita que isso seja publicado um dia.

P1. E daí?

P2. Se ele quiser, escreve na capa o seu nome, não o nosso. E aí a responsabilidade e o mérito passam a ser dele. Mesmo que escreva o nosso nome na capa, se o livro for um sucesso sempre poderá dizer que os nomes na capa são pseudônimos.

P1. Mas isto seria um comportamento imoral para conosco! Seria tirar proveito de nós! Seria usar-nos! Seria se apropriar de nosso trabalho sem nos recompensar por ele!

P2. Continuarei povo! Continuarei povo!

P1. Ah??? Ah!!! Eu também! Eu também! Um momento. Já não éramos povo?

P2. Éramos e continuamos, pois continuamos a ser explorados!

P1. Mas mesmo assim a responsabilidade do que é escrito não é do que escreve, ou melhor, a nossa relação com o que escreve é bem mais complexa.

P2. A nossa relação é íntima. Dependemos uns dos outros.

P1. Nem tanto, ele pode deixar de escrever e nós desaparecemos. Ninguém mais ouvirá de nós, ou melhor, ninguém mais lerá de nós.

P2. Não acredito ser mais possível. Ele pegou gosto de escriba. E o fato de desaparecermos se ele parar de escrever é insignificante para nós. Quem sabe de nossa existência? Nem a mulher do que escreve sabe ainda de nós, ou melhor, leu de nós.

 

Continua

 

Nota: Em algumas frases são referenciadas situações políticas, trajes, comportamentos e posturas típicas da época em que os diálogos foram escritos, primeira metade da década de 1980. Algumas delas tornaram-se moda, como barba mal aparada, uso de óculos Ray-Ban, governantes incompetentes. Outras, como bons modismos, desapareceram com o passar do tempo ou passaram a ser aceitos devido às mudanças de costumes.

 

Saúde e alegria a todos

O futuro a Deus pertence 4.1

Escrito em 1981

A segurança nacional voltou a ser ameaçada, não mais pelos opositores internos ou por potências estrangeiras. A maior ameaça à segurança nacional tornou-se o próprio governo.

E agora? O futuro a Deus pertence!

Escrito em 2016

A ameaça governamental ao país passou a ser combatida internamente. Os cassados de 1968 estavam com seus direitos restituídos, muitos dos opositores que haviam deixado o país já haviam retornado. A economia ia mal, muito mal, ao início da década de 80. A situação política estava insustentável. A democracia plena de quase ditadura, dubiedade inexplicável comum em Bal-Gunça, associada ao pragmatismo dos ba-gunços do século XVI e dos balbúrdios atuais, tornou-se convenientemente intolerável. Os ventos terríveis de meados dos anos 70 continuavam a soprar.

Pausa: Esses ventos terríveis, econômicos ou não, não param de encher o saco desta bendita terra. E nenhum pai da pátria ainda se preocupou com eles!? Ou eles são convenientes?

O então dono do poder começou o que foi chamado de retorno lento e gradual à democracia. Retorno lento e gradual o suficiente para fazer o seu sucessor. Este, aparentemente feliz por poder cuidar de seus cavalos, dos quais dizia gostar mais que do povo, indicava tendências a devolver a Bral-Gunça a todos os balbúrdios ao final de seu mandato. Ao final de 1979 o bipartidarismo foi abolido e voltou-se ao regime multipartidário. O multipartidarismo permitiu a criação de partidos suficientes para acomodar as várias tendências políticas, que em Bral-Gunça beiram o infinito e variam de acordo com interesses específicos e de momento. Com isso, a quantidade de interesses em jogo e a quantidade de interessados em tantos e diversos interesses impedia qualquer entendimento; o que permanece até os nossos dias.

Paralelamente, a industrialização crescia, a produção agrícola acelerava. E Bral-Búrdia firmou-se em um novo patamar, acreditavam muitos. Fabricamos veículos! Construímos uma nova capital no centro do país! Gritavam todos. A indústria automobilística bral-burdiana começa a ganhar vulto. O júbilo patriótico crescia. Exportamos veículos, bradavam alguns. Para o Iraque, retrucavam outros. Consta que parte dos Passat exportados para o Iraque não foram pagos. Consta ainda que o calote aplicado pelo governo de Sadam Hussein ao Brasil não foi uma das causas das duas guerras do Golfo.

Na política a grande dúvida era pequena: como fazer a devolução da Bral-búrdia aos bagunços? Os opositores, agora mais livres, passaram a exigir eleições diretas. Por que? Porque apesar de o golpe de 1964 ter sido feito também em nome do povo, este passou todo o tempo sem poder escolher os seus governantes. E criou-se o movimento “DIRETAS JÁ”. A genialidade de presidente e vice poderem ser de partidos antagônicos havia sido abolida. Durante o regime militar, Tancredo Neves (1) havia pertencido ao partido da oposição, MDB, e José Sarney (2) ao da situação, ARENA. E, em eleição indireta foram eleitos Tancredo Neves, opositor do regime militar, para presidente e José Sarney, apoiador do regime militar, para seu vice, ambos já em novos partidos, de oposição.

Em uma manobra do destino, Tancredo Neves morre antes de tomar posse.

Pausa: Homem de sorte! Tivesse governado, teria sido mais uma decepção dentre todos os demais. Tornou-se, porém, a solução da qual Deus não nos permitiu usufruir.

O que fazer? Aceitar um situacionista de oposição ou um opositor da situação como presidente por quatro anos? Se o presidente e o vice não tomaram posse, o vice é o seu sucessor?

Sucessor de um presidente que não tomou posse? Oh maravilha para os bagunços! Voltamos aos bons e velhos tempos! Loquazes por natureza, os balbúrdios deliciavam-se com o poder do rádio e o poder da TV. Quantas informações para se cacarejar a respeito! Todos falavam de tudo e de todos, principalmente os políticos.

E Sarney tomou posse como presidente eleito, ou vice-presidente eleito. E seu governo foi inacreditavelmente esquecível, a menos da inflação galopante. Quatro anos depois, 1989, o povo foi chamado a escolher o seu sucessor. Candidatos, muitos.

Dentre os muitos candidatos um líder nato, homem de origem humilde, nordestino, trabalhador metalúrgico, mutilado no trabalho, presidente de sindicato, opositor do regime militar, fundador de partido político de ideologia clara e definida, batalhador pelas causas dos pobres e mais; Luiz Inácio Lula da Silva, o Lula, que em 1982 havia incorporado o apelido ao seu nome. Do outro lado Fernando Collor de Mello, alagoano nascido no Rio de Janeiro, filho de político federal, representante legítimo do sistema feudal vigente no nordeste brasileiro. Jovem, boa aparência, ousado, motociclista, rico, esposa jovem e atraente, o antagonista perfeito para Lula.

E Lula iniciou aí a sua peregrinação rumo à desmoralização explícita; perdeu.

Fernando Collor de Mello, duas vezes consoante dupla no seu nome! Uau! Teria sido ele a inspiração para a sanha dos pais brasileiros em duplicar consoantes nos nomes dos seus filhos? Nada consta a respeito. E ele chegou arrebentando. O caçador de marajás. O macho de motocicleta. O dono do cofre. O “que tinha aquilo roxo”! Dizem alguns que “aquilo roxo” jamais foi apresentado para confirmação de tonalidade. Dizem outros que aquilo roxo foi consequência de uma queda sobre uma cerca de fazenda. De qualquer forma, após dois anos o caçador ou Fernando I, o Breve, acabou apeado do poder e cassado por corrupção, denunciado por seu próprio irmão (1). No curto reinado, algumas trapalhadas econômicas, tentativas frustradas de reduzir a inflação e outros fracassos.

E o país ia seguindo em frente. Comprava-se o que não se precisava, exportava-se a matéria prima para adquiri-la industrializada, incentivava-se a industrialização importando indústrias, investia-se em conhecimento copiando modelos externos, etc. etc.

Pausa: Alguém pode estranhar a grafia variável do nome da terra sobre a qual se escreve. Afinal escreve-se Bal-gunça ou Bral-Gunça, bagunços ou ba-gunços ou Bal-búrdia ou …? Irrelevante se com esse ou com ze, se com jota ou com gê. Em Bral-Gunça, o que vale é o som. Como se escreve é secundário. Se no futuro alguém irá entender os escritos, sabe-se lá o que é futuro. O futuro a Deus pertence, não?

continua

(1) http://acervo.oglobo.globo.com/fatos-historicos/presidente-collor-sofreu-impeachment-em-1992-foi-cassado-pelo-senado-9239073

Saúde e alegria a todos

Dear Mister President 1

O título surgiu instantaneamente em minha mente ao ler na Internet a manchete da Folha citada adiante. O tom a ser dado poderia ser de desalento ou de surpresa ou qualquer outro, mas deve ser efetivamente nenhum. Acredito que para pessoas com a nossa idade estas três palavras tragam lembranças significativas. Aos que não conviveram com tal período explico terem sido as três palavras acima proferidas de forma fortemente sensual e amorosa por Marilyn Monroe ao iniciar a sua participação em uma festa de aniversário de John F. Kennedy. Ela então símbolo sexual máximo de Hollywood nos anos 50-60, ele presidente dos EUA. Ambos tidos como amantes à época.  Faltou acrescentar ao título as palavras “do Brasil”.

Não tenho a pretensão de que o senhor ou um de seus auxiliares venha a ler o que está escrito. Mas, se tal frase chegasse aos seus ouvidos, na forma como está no título, as lembranças fariam o vosso ego inflar ainda mais.

No que me diz respeito, jamais tive grandes esperanças em seu governo, ora provisório, em breve definitivo. De quem conviveu com a incompetência desonesta  do governo anterior, como parte integrante dele, distante ou não, haveria mesmo muito pouco do que se esperar. E o senhor e seus auxiliares não necessitaram de muito tempo para confirmar a minha desesperança. Em menos de uma semana de governo um de seus ministros mais fortes teve suas fraquezas expostas e, sob acusação de corrupção, precisou ser trocado. Outros, também acusados de corrupção, não tomaram posse ou tomaram posse e foram afastados a seguir. Os compromissos eram mesmo tão fortes ou o objetivo foi apresentar o novo governo em seu mais amplo espectro? Isto é, mostrar o novo governo como mais do mesmo.

Mas, então, porque demorou tanto para eu me manifestar? Para ser sincero, pouco me preocupei com as suas trapalhadas reveladoras, Afinal, para quem conviveu com os governos Lula e Dilma, mais trapalhadas não fazem diferença. Mais do mesmo. Para quem acompanha, mesmo de longe, as trapalhadas de vossos colegas ao redor do mundo, mais trapalhadas não fazem diferença. Mais do mesmo. Estou no Reino Unido, não como turista, mas como pai em visita a filha e acompanho a trapalhada, Brexit, feita pelos seus colegas políticos no berço da democracia moderna. Mais do mesmo.

Mas, então, porque este texto? Acessei a Folha de S. Paulo pela internet e cruzei com “Temer pede que indústria priorize formados no exterior” (1). O sub-titulo elucida: “Para peemedebista mão de obra pode trazer informações tecnológicas”. Mais do mesmo.

A velha e inútil malandragem brasileira, a que nos levou para onde estamos há muito; para lugar algum. O vazio de ideias, ideais, propostas, intenções, objetivos. Já que nada de novo conseguimos desenvolver, vamos nos aproveitar daquilo que os outros desenvolveram e nos entregarão de mão beijada. Mesmo?  Dá para acreditar nisso?

Nós não precisamos mais de malandragem, precisamos de competência. A competência que falta na maioria das decisões tomadas nos vários níveis de governo.

Precisamos de honestidade, esta que o senhor perdeu a oportunidade de defender ao propor a malandragem de se aproveitar do conhecimento alheio.

Precisamos que o mais alto mandatário do país mostre confiança e orgulho das estruturas e pessoas que estão sob sua liderança.

Ou o senhor desconhece que as universidades brasileiras formam os engenheiros que o senhor sugeriu relegar a segundo plano quando de seu “pedido aos empresários”?

Não acredito que o senhor conheça muito sobre engenharia, minha área de formação. Possivelmente conheça o tanto que eu conheço sobre direito, a vossa área de formação. Porém, por favor, evite ridicularizar-se mais do que já foi feito ao longo de sua breve estada no poder transitório.

O Brasil precisa de líderes que, mesmo sem cacoete para tal, mostrem confiança no país e em seus liderados. Talvez com isso os brasileiros possam voltar a acreditar e confiar em alguma coisa.

Esforce-se, por favor, para acabar com o trágico período de mais do mesmo que temos vivido nas últimas décadas. Segundo vossas próprias palavras, em dois anos e meio se encerra o seu período no poder. Esforce-se para ser lembrado como alguém que conseguiu ultrapassar a fronteira da mediocridade, algo que a maioria de seus antecessores não conseguiu e nem demonstrou vontade para conseguir.

(1) Temer pede a empresários que … Gustavo Uribe Machado da Costa, Brasília, Folha de São Paulo, 08/07/2016; 18:39.

Saúde e alegria para todos

Diálogos 14

Em Mudanças, de 27.12.15, apresentei as razões que me levaram aos Diálogos. Em Diálogos 1 – preâmbulo, de 10.1.16, iniciei a publicação dos diálogos escritos a partir de 29/3/82.

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Adendo

Nem sempre o que se escreve retrata a nossa crença. Às vezes retrata uma reação a um estado de coisas tornado inaceitável e que ao ser apresentado na forma de aberração objetiva demonstrar o desconforto de quem escreve. O que aqui se inicia retrata a minha crença de 1982, que se mantém em 2016 e se manterá para sempre. O que escrevi sobre o Esquadrão Herodes, a ser estruturado nos Diálogos 12 e 13, expresso pelo debatedor P1, corresponde exatamente às duas primeiras frases acima. O Esquadrão Herodes foi escrito em 1981 e é uma reação ao que se fazia à época e se mantém até hoje e que levou ao estado de insegurança plena em que agora vivemos, isto é, poderia muito bem ter sido escrito hoje. O Esquadrão é uma proposta de solução simples e absurda, típica dos desejos do poder constituído, melhor chamado de poder incompetente, a qual eu jamais apoiaria. Este poder incompetente não atua para resolver problemas, quaisquer que sejam eles, desde sempre. O problema de segurança, porém, deve ser computado quase integralmente aos omissos que governam o estado de São Paulo e os demais estados e o próprio Brasil desde a década de 1950. Os governadores de São Paulo estão nomeados em Diálogos 11.

Final

 Art. 12 – Revogadas todas as disposições em contrário.

P1. Qual a sua opinião a respeito do projeto?

P2. Prático, objetivo, lógico. A princípio parece um pouco estranho o Esquadrão Herodes ficar sob controle dos Departamentos de Limpeza Pública, mas os objetivos esclarecem a possível dúvida. Porque é proibido o uso de sirenes? Para não assustar as criancinhas?!

P1. Não só! Considere a possibilidade de o Esquadrão precisar agir em uma maternidade.

P3. Abjeto, porém, adequado para os governantes incompetentes, todos. Corre-se o risco de ter tal projeto proposto em alguma Assembleia Legislativa ou na própria Câmara Federal.

P2. (sussurrando) Você ouviu o que escreve?

P1. (sussurrando também) Esqueça, faça de conta que nada aconteceu.

P1. Não só! Considere a possibilidade de o Esquadrão precisar agir em uma maternidade. É uma hipótese remota, pois as famílias a serem higienizadas dificilmente têm acesso a maternidades. Mas, mesmo assim, considere a hipótese remotíssima de um Comando Pilatus ter de agir no Hospital Einstein, no Morumbi, ao lado do Palácio dos Bandeirantes; ou então na Maternidade São Paulo, na Bela Vista ao lado da avenida Paulista, ou na Pro-Mater, na mesma região ou … . O uso de sirenes poderia perturbar uma importantíssima reunião de conchavos no Palácio; o sono da comunidade bem acima de um salário mínimo per capita; o que seria abominável e desumano. Por outro lado, o uso de sirenes quando das incursões dos Comandos Pilatus em seu campo natural de ações, favela, periferia, bairros decadentes, poderia oferecer aos saneados sem senso de dever cívico a oportunidade de tentar obstruir o cumprimento de tão nobre tarefa.

P2. Mas como será possível saber do nascimento de crianças em condições de saneamento? Como muitas nascem em casa, os pais podem deixar de registrá-las e esconde-las até passar o mês previsto no projeto.

P1. Não irá funcionar. Criança não registrada é criança não nascida, não existe. A partir do registro ela nasce e começa a contar o tempo de vida.

P2. E se a criança for registrada com 1, 2, 10 ou 20 anos de vida?

P1. Após o registro a criança começa a viver para a sociedade e para a justiça. Se na época de seu nascimento social a renda familiar per capita estiver acima da mínima prevista, a criança adulta estará salva. Caso contrário a família gastará mais para o enterro.

P2. E se os pais se revoltarem e, com vizinhos e amigos resolverem resistir?

P1. Leia a proposta de projeto. Art. 6 Dos direitos do Esquadrão Herodes; art. 4 Do equipamento do Esquadrão Herodes; art. 8. Dos objetivos específicos do Esquadrão Herodes. Tudo planejado, tudo planejado.

P2. Mesmo assim, você acredita que a sociedade aceite este massacre infame?

P1. É fácil. Inicia-se o processo de implantação do projeto com uma série de filmes, propaganda barata, mostrando ações e consequências de ações de marginais. A seguir uma segunda série de filmes, do mesmo nível, pedindo a colaboração de todos no combate à criminalidade, entremeado por entrevistas com marginais em ações, com closes no prazer estampado em seus rostos. Só então entrarão em ação os comandos. Dois dias após o início dos trabalhos dos comandos, divulga-se secretamente boatos sobre a vida íntima de algum cantor, ator da Globo, ou coisa que o valha. Tal ação deve permanecer por cerca de vinte dias. Ao longo destes vinte dias a ação dos comandos, ao início presente nas manchetes de primeira página ou abertura de noticiários, após dois dias cairão para o rodapé da primeira página ou comentários rápidos nos noticiários. Enquanto isso a onda de fofocas, suposições, desmentidos, sobre o astro cresce. Fotos coloridas do astro passarão a ocupar as manchetes em substituição aos monótonos uniformes brancos com eventuais respingos vermelhos dos saneadores. Entrevistas na TV, defesas apaixonadas, ataques monstruosos; o astro é o foco das atenções gerais. Demonstrações de desagravo dos fã-clubes, demonstrações feministas, minoritárias do MSTerra, do MSTeto, dos vegetarianos, dos carnívoros, da Associação Mundial dos Protetores das Saúvas (AMPS). Tudo incitado pelo calvário a que o astro está sendo submetido.

E os comandos passaram para a página 8, terceira coluna, inferior.

Continua

Nota: Em algumas frases são referenciadas situações políticas, trajes, comportamentos e posturas típicas da época em que os diálogos foram escritos, primeira metade da década de 1980. Algumas delas tornaram-se moda, como barba mal aparada, uso de óculos Ray-Ban, governantes incompetentes. Outras, como bons modismos, desapareceram com o passar do tempo ou passaram a ser aceitos devido às mudanças de costumes.

Saúde e alegria a todos

O futuro a Deus pertence 3

Escrito em 1981

Antes do término do mandato e em nome do mesmo povo, agora não consultado, os governantes eram depostos.

E o país ia seguindo em frente. Comprava-se o que não se precisava, exportava-se a matéria prima para adquiri-la industrializada, incentivava-se a industrialização importando indústrias, investia-se em conhecimento copiando modelos externos, etc. etc.; e isto continua até os dias de hoje.

Além disso a industrialização começava a reduzir a produção agrícola. E Bral-Búrdia trocou de patamar, acreditavam muitos. Fabricamos veículos! Construímos uma nova capital no centro do país! Gritavam todos. A indústria automobilística bral-gunciana começa a ganhar vulto. O júbilo patriótico cresce.

Volkswagen, Ford, General Motors, Mercedez-Benz (Daimler-Benz) faziam os balbúrdios vibrar. E ninguém notou que os nomes das empresas nada tinham de bral-gunciano. Mas, bradavam os entusiastas, para que “inventar a roda” se já existem aqueles que têm experiência na fabricação de veículos? Vamos trazê-los para construir veículos para nós, com nossa mão-de-obra. E, mais uma vez recebemos ajuda externa, agora de empresas ao invés de pessoas, que como no passado interessavam-se em trazer aos balbúrdios uma cultura tecnológica avançada e conceitos modernos de produção, sem nada exigir em troca; nada além dos direitos dos projetos, royalties, enviados para a matriz e preços muito acima do cobrado para os mesmos veículos comercializados no exterior. O governo, sempre ávido por mais dinheiro, impôs taxações elevadíssimas sobre os veículos e manteve a extorsão nos preços de venda dos veículos.

A capital ficou pronta em tempo recorde, ou quase, e foi inaugurada como o novo orgulho dos balbúrdios. Na inauguração encerrava-se também o período de gestação do que viria a ser o melhor amigo dos senhores da terra, a INFLAÇÃO.

O povo, convocado às urnas elegeu presidente e vice com votações espantosas. Em uma ação de inteligência extrema, alguém havia feito ser aprovada a possibilidade de serem votados e eleitos presidente e vice de partidos antagônicos. E isto aconteceu. O presidente eleito prometeu um governo inovador, ágil e criativo. Agilmente usou a sua criatividade para inovar; oito meses depois da posse abandonava o cargo. Consta que o seu objetivo era de ser aclamado ditador, mas deu azar.

A época era ruim. Loquazes por natureza, os balbúrdios deliciavam-se com o poder do rádio e o poder emergente da TV. Quantas informações para se cacarejar a respeito! Todos falavam de tudo e de todos, principalmente os políticos.

O vice, chamado a não assumir a presidência, recusou. Depois de idas e vindas, tomou posse o vice-presidente, de tendências esquerdistas e contra a vontade dos anticomunistas. Talvez o vice tenha recebido tal caracterização, esquerdista, por ser canhoto ou algo semelhante. E a inflação crescia.

Os políticos manobraram. Tentaram, inventaram, mudaram a constituição, pariram o parlamentarismo, mudaram a constituição de novo, enterraram o parlamentarismo. Haja criatividade inútil. Não deu mais. Cerca de quatro anos depois das eleições e em nome do povo, mas sem consulta-lo, o presidente foi apeado do poder. O movimento que derrubou o presidente e instalou o os militares no poder por cerca de 20 anos foi chamado de “Revolução de 31 de março”. Consta que muitos a veem mais como uma revolução de primeiro de abril.

A explicação para a mudança era simples. Inflação alta, descontrole governamental, ameaça à segurança nacional, falta de planejamento etc. etc. Os novos comandantes do país reduziram a falação, reorientaram a máquina governamental, empreenderam o desenvolvimento, dizem. Poucos entenderam e vários insistiam em ser contra. Comunistas, desejavam lançar a Bal-gunça no caos e tomar o poder, instalar um governo de partido único, controlar os demais poderes, eliminar os opositores e implantar uma ditadura. Exatamente o que acabara de ser feito. Os opositores tomaram em armas e tentaram seguir o modelo cubano, quando um punhado de homens em um iate invadiram a ilha e tomaram o poder com a ajuda do povo, dizem.

Os novos donos do poder sentiram-se desafiados. Permitir a vitória dos revoltosos seria permitir banhar de sangue o deserto verde e líquido. E reagiram. Aparentemente os revoltosos desconheciam certas peculiaridades de Bal-Gunça e dos balbúrdios.. Bal-Gunça não era uma ilha, visto que o nome Ilha de Santa Cruz havia sido abandonado há séculos atrás, depois de os colonizadores terem pressentido que a área da então Bral-Búrdia era relativamente elevada. Eles também não deviam entender muito de logística e, principalmente, desconheciam o pragmatismo dos balbúrdios e também a peculiaridade de seu caráter. Estes, sob ameaça abriam mão de suas crenças e também faziam o que bem entendiam, preocupando-se apenas consigo mesmo, como outrora constatado pelos colonizadores (O futuro a Deus pertence 1).

Os revoltosos perderam, como era de se esperar, menos por eles.

Durante o combate à contrarrevolução os novos governantes fecharam todos os partidos, colocaram o legislativo e o judiciário a serviço do povo, representado por eles mesmos, perseguiram os que pensavam diferente, cassaram direitos políticos e canalizaram o banho de sangue para os esgotos, mantendo o deserto verde e líquido quase limpo. Tempos depois uniram-se em um partido fictício, mas real e de sigla ARENA, aos políticos mais desclassificados, os que abriam mão de suas convicções à primeira ameaça e implantaram a democracia ditatorial de quase partido único.

A Bral-Gunça progredia. Comprava-se o desnecessário, exportava-se a matéria prima para adquiri-la industrializada, incentivava-se a industrialização importando indústrias e exportando dividendos, investia-se em conhecimento copiando modelos externos, etc. etc.; o que se vivencia até hoje.

A Bral-Gunça progredia. Ninguém falava e tinha-se a impressão de que todos prestavam atenção. Ao que? Certas coisas não devem ser perguntadas.

Pausa: Alguém pode estranhar a grafia variável do nome da terra sobre a qual escrevemos. Afinal escreve-se Bal-gunça ou Bral-Gunça, bagunços ou ba-gunços ou Bal-búrdia ou …? Irrelevante se com s ou com z. Em Bral-Gunca, o que vale é o som. Como se escreve é secundário. Se no futuro alguém irá entender os escritos, sabe-se lá o que é futuro. O futuro a Deus pertence, não?

Milagre, milagre, a inflação foi reduzida a míseros 15% ao ano. Milagre apenas explicado pela capacidade dos senhores da terra ora no poder.

O mundo recebeu ventos terríveis. O preço do petróleo duplicou, triplicou, quadruplicou. Não, quintuplicou. Decuplicou e mais. De US$ 2,00 o barril passou para US$ 30,00. O milagre começou a provar que os ba-gunços do século XVI tinham razão em aceitar apenas a quase-conversão. Milagres não são fabricados; acontecem?

A inflação disparou. As pessoas voltaram a falar, falar, falar e ninguém a ouvir.

O planejamento governamental foi reduzido a tapar hoje os buracos de ontem e o povo, sempre ele, foi chamado a pagar as dívidas contraídas em seu nome, sem a sua consulta e que pouco reverteram a seu favor. A segurança nacional voltou a ser ameaçada, não mais pelos opositores internos ou por potências estrangeiras. A maior ameaça à segurança nacional tornou-se o próprio governo.

E agora?

O futuro a Deus pertence!

 

 

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O futuro a Deus pertence 4 deverá ser publicado em algum momento, com a atualização das condições de Bal-gunça para os dias atuais. Não deverá ser difícil, pois continuam se repetindo os problemas de sempre. E o final do novo texto já está escrito; será a repetição  do texto acima, a partir de “O planejamento …”.

Saúde e alegria a todos

Era uma vez, outra vez

Em Era uma vez, iniciei a saga da Família, criada pelo Guru e comandada, na aparência, pela Matriarca. A primeira parte da saga, publicada em 5.12.15, encerrou-se com a frase:

Paro por aqui, o que aconteceu em 2015 fica para depois. Depois começa agora.

Antes das eleições de 2014, para o reinado 2015-2018, a investigação sobre corrupção em empresas da Família, que não eram da Família, mas que a Família tratava como suas, tomava vulto cada vez maior. E se começava a questionar a honestidade dos irmãos, aqueles que, apesar de não terem laços de sangue poderiam ser da Família, deixá-la e com isso deixar de ser irmão e posteriormente voltar a fazer parte dela, voltando a ser irmão. A pouca habilidade política da Matriarca, rainha reeleita, somada à sua pouca habilidade econômica, acrescida da gastança desenfreada, levaram o reino a uma condição de penúria. Menos de seis meses após a coroação as coisas estavam ruins; muito ruins.

Ainda no primeiro reinado, a rainha havia desenvolvido uma inimizade visceral com um irmão curioso. Este irmão não era irmão e jamais havia sido irmão e possivelmente jamais seria, por jamais haver pertencido à Família nem ter sido ungido pelo Guru, porém negociava com a Família e os irmãos; apesar do ódio mútuo entre ele e a Matriarca. O irmão, que não era nem havia sido irmão, será a partir de agora chamado de Oráculo, com o maiúsculo, por sua capacidade de intuir o futuro. Quando de uma eleição para príncipe de uma das casas legislativas, a Matriarca pretendeu eleger um irmão na ativa. Oráculo já se havia apresentado como candidato. E venceu. O ódio mútuo cresceu. Aproveitando-se de sua capacidade para intuir o futuro, Oráculo cercou-se de incompetentes na chefia da sua casa legislativa, como seria provado em futuro próximo.

Enfraquecida por sua pouca habilidade, a Matriarca isolava-se cada vez mais. A economia afundava. As investigações se aproximavam mais e mais dos luminares da Família, do Guru, da Matriarca. Em determinado momento a casa, ou o palácio ocupado pela Família, estremeceu. A Matriarca foi acusada de crime de responsabilidade, por haver feito o milagre de pagar duas dívidas com o mesmo recurso. Ela precisaria ser retirada da posição que ocupava. Para piorar, o processo contra a Matriarca caiu nas mãos do odiado Oráculo, que poderia, agora, devolver à Matriarca as gentilezas outrora recebidas. E a carroça chegou à ladeira, levada com competência, honestidade (incomum nele) e prazer pelo Oráculo.

Neste momento, o Guru estremeceu mais do que o palácio. O seu nome, o seu legado, as suas aspirações de substituir a Matriarca em futuro próximo, estavam em perigo. O desemprego aumentava, a economia afundava, as perspectivas futuras se desfaziam. E ninguém perguntou ao Guru onde ele havia visto a competência na Matriarca para impô-la à Família na condição de rainha.

O Guru pôs-se a campo e passou a governar no lugar da Matriarca. Passou a negociar com a classe política uma forma de manter a Matriarca que, naquele momento estava completamente perdida e isolada. A investigação sobre corrupção na empresa da Família, mas que não era dela, expõe que, apesar das negativas, o Guru faz parte sim da Família. São divulgadas propriedades de alto valor do Guru que não estão em seu nome. Tais posses são confirmadas por altos executivos de empresas envolvidas na corrupção das empresas da Família, mas que não eram dela. A partir daí o Guru passou a estar sob risco de prisão. Em um ato desvairado, a Matriarca nomeia o Guru ministro. Em um segundo ato desvairado, ou muito burro segundo alguns, ela liga para o Guru. Por meio de uma mensagem em código aberto, pois todos a entenderam, ela o informa que o termo de posse estava sendo levado para ele, mas somente poderia ser usado em caso de necessidade (prisão) (2). Ministros não podem ser presos pela polícia, pois gozam de “foro privilegiado” ou, como escreveu George Orwell “são mais iguais”. O texto abaixo corresponde ao telefonema entre a Matriarca e o Guru, onde ela, mais uma vez, mostra a sua dificuldade em se explicar por palavras.

Dilma: “Alô.”

Lula: “Alô.”

Dilma: “Lula, deixa eu te falar uma coisa.”

Lula: “Fala, querida. Ahn?”

Dilma: “Seguinte, eu tô mandando o ‘Bessias’ junto com o papel pra gente ter ele, e só usa em caso de necessidade, que é o termo de posse, tá?!”

Lula:  “Uhum. Tá bom, tá bom.”

Dilma: “Só isso, você espera aí que ele tá indo aí.”

Lula: “Tá bom, eu tô aqui, fico aguardando.”

Dilma: “Tá?!”

Lula: “Tá bom.”

Dilma: “Tchau.”

Lula: “Tchau, querida.”

No dia seguinte a gravação é divulgada, pois havia escuta da Polícia nos telefones dos envolvidos no caso das empresas, aquelas que eram, apesar de não serem. O Guru não toma posse.

A derrocada se acelera. Em mais uma tentativa desvairada, os membros da Família, em uníssono, bradam sem descanso que o processo de destituição da Matriarca é um golpe.

A casa legislativa, presidida por um Oráculo feliz, acata o processo de destituição. A Matriarca deixa o seu trono, o Guru desparece, a Família deixa o poder. Dias depois o Oráculo é destituído por corrupção e substituído pelo seu sucessor natural. O sucessor, para reafirmar a intuição do Oráculo (cercar-se de incompetentes), mostra absoluta incompetência desde o seu primeiro instante na presidência e anula a sessão da casa legislativa que acatou o processo de destituição da Matriarca. Horas depois ele anula a anulação.

Este texto foi escrito há cerca de 10 dias, hoje sendo 25.5. Estamos sob nova direção, como se lê em botecos, lojas e outros estabelecimentos comerciais quando da troca de proprietários. A matriarca esperneia, o Guru se mostra magoado. O novo rei, antigo vice-rei, melhorou em muito o nível da língua portuguesa no governo. Esperemos que não fique só nisso. Melhor esperar.

Sugestões: Acessem as referências (1) e (2) para ler e ouvir as conversas entre o Guru e a Matriarca e o Guru e alguns de seus fiéis seguidores.

 

 

(1) https://pt.wikipedia.org/wiki/Opera%C3%A7%C3%A3o_Lava_Jato

(2) http://g1.globo.com/pr/parana/noticia/2016/03/pf-libera-documento-que-mostra-ligacao-entre-lula-e-dilma.html

(3) http://g1.globo.com/politica/operacao-lava-jato/noticia/2016/03/grampo-de-lula-43-13h02.html

 

Saúde e alegria a todos

Eu só queria encher o copinho!

Há algo de errado comigo. Em condições normais cochilo em frente à TV depois de algum tempo tentando achar algo interessante. Nas condições atuais durmo pesado alguns segundos após sentar.

Devo fazer o exame de urina pós cirurgia, alguns dias após a retirada da sonda. As condições para exame são simples: duas horas sem urinar. Para crianças, adolescentes e adultos de todas as idades nenhum problema. Nenhum problema desde que não tenham menos de três anos ou tenham curtido sonda na bexiga. No segundo caso a bexiga trabalha sob fluxo contínuo; chegou passou. Retirada a sonda, a bexiga demora um pouco para entender que o fluxo não pode mais ser contínuo.

Planejo as ações com precisão. Devo sair de casa para o laboratório cerca de meia hora antes de completar as duas horas regulamentares. O trajeto até o laboratório demanda quinze minutos, mais quinze para fazer a ficha e mais uns cinco para ser chamado para a coleta. Perfeito!

Laboratório mais cheio do que o normal e os quinze minutos para fazer a ficha se alongam e as duas horas se completam. À época o meu recorde entre dois atendimentos subsequentes de chamados líquidos da natureza estava em uma hora e meia, sem stress, ou duas horas com sérias ameaças de vazamento. Ficha feita, aguardo o chamado, não o da natureza, mas para a coleta. O tempo passa, a natureza brada cada vez mais alto, e apenas eu a ouve. Volto à atendente e explico-lhe ter tirado a sonda há poucos dias etc. etc…. Ela liga para o setor de coleta e expõe o meu caso. O tempo passa e a natureza brada mais alto ainda. Finalmente chamam o meu nome. O último entre cerca de dez outros. Mau sinal. Subo dois lances de escada sem problemas. Em caso de vazamento eu estava com um absorvente poderoso. Uma simpática jovem, de cara amarrada e visível mau humor e uma segunda, sorridente, fazem o trabalho de coleta, na maioria de sangue. O meu é urina. A jovem sorridente está sempre ocupada, a simpática, entre um e outro atendimento, desloca-se pela sala a passos de tartaruga perneta. A natureza informa que haverá problemas. Dirijo-me à simpática e explico-lhe o meu caso. Depois de uma careta de reprovação ela procura a minha ficha, etiqueta o frasco e me indica o banheiro. Desloco-me lentamente para o banheiro. A natureza informa que os passos não podem ser largos. Entro, fecho a porta e retiro o calção branco, lembre-se do branco, que eu vestia. Ouço um grito: LIBERDADE. Na condição de controle zero, lavo o chão do banheiro, o calção, minhas pernas, a sandália, paredes, mas encho o frasco. Visto um novo absorvente, subo o calção cinza, fecho o frasco e saio, cuidando para não escorregar. Sinto as pernas grudentas. Não vejo a simpática, a quem deveria devolver o frasco. Sorte dela, pois talvez eu o devolvesse aberto e sobre a sua cabeça. Azar da sorridente. Entro no cubículo onde ela iria iniciar mais uma coleta de sangue e disparo: Apesar de ter avisado, vocês conseguiram que eu urinasse sobre mim e lavasse o chão do banheiro. A sua colega sumiu e eu preciso entregar este frasco a alguém para poder ir para casa tomar banho! A cliente olhou, a sorridente parou de sorrir e em segundos foi ao cubículo da simpática e voltou com o recibo. E eu só queria encher o copinho!

Sete dias depois da coleta; houve o carnaval entre coleta e resultado; confirmou-se infecção urinária, comum devido aos dias com sonda.

Dez dias de antibiótico e seis dias após a finalização de sua ingestão fui para um novo exame de urina.

Voltei ao laboratório do primeiro exame. Nesta altura já não mais usava o absorvente poderoso e conseguia controlar a urina por mais de duas horas. Mantive o planejamento como da primeira vez. Havia um número menor de pessoas no laboratório, informei à atendente de minha condição de recém operado, ela ligou para o pessoal da coleta e aguardei. A natureza estava tranquila. Chamaram umas dez pessoas para se dirigir à coleta no segundo andar e meu nome não foi citado. Lá vamos nós, de novo?! Segundos depois pedem para eu me dirigir ao primeiro andar. O frasco está etiquetado me esperando e me indicam o banheiro do andar. Enchi o copinho sem inundações.

Cinco dias depois, o resultado indica a presença de infecção com a mesma bactéria. Envio ao médico e ele me informa que o procedimento de praxe de realizar o antibiograma não foi feito. Devo repetir o exame, agora com pedido explícito de antibiograma. Ele sugere dois laboratórios de um mesmo grupo, que eu não havia procurado anteriormente apenas por comodidade e porque o anterior goza de bom nome. Ou gozava de bom nome, ao menos comigo.

Repito o planejamento, agora iniciando-o mais cedo por razões de distância. Acordei cedo, 5:00 da manhã. Havia dormido pouco e parecia que eu estava digerindo o boi, com chifre e tudo, que eu não havia comido às altas horas da noite anterior. Higiene pessoal, banho, frutas, pois o sabor de chifre queimado continuava na boca e estava pronto para encher o copinho, conforme o planejado. Última gota à 5:30, coleta às 7:30.

Olhei o relógio, cedo demais. Devo esperar para não chegar antes das portas se abrirem. Na TV o nada de sempre; séries óbvias, esporte em VT com futebol entre um time do Uzbequiristão do Norte ou de outro lugar e outro das Ilhas Fugir, com jogadores de terceira linha. Desligo e vou para o computador; sem vontade ou sem saber o que fazer, não por falta do que fazer, mas por falta de vontade de fazer. Há dias já havia voltado às condições de dormir pesado alguns segundos após sentar. Entre a indecisão de ver TV e ir ao computador, finalmente o relógio indica 6:45. Saio de casa com meia garrafinha de água. O trânsito não ajuda, seja por excesso de veículos, seja por falta de competência dos motoristas. Estaciono na porta do laboratório. Antes de sair do carro, chega-se a mim o manobrista e informa constrangido que a unidade estava sem sistema, a previsão de retorno era para as quatro horas da tarde e que eles estavam indicando a unidade do Metrô Carrão como alternativa. Metrô Carrão esquece, pensei eu, e engatei ré. Desisti. A natureza estava calma, mas já eram 7:45 e até eu chegar a algum lugar, poderia não dar tempo. Sai do carro entrei na unidade; ninguém, sejam funcionários, sejam clientes. Saí do banheiro. Três funcionárias a postos em frente aos monitores e dois clientes sentados. Perguntei se a previsão não era de retorno do sistema às quatro da tarde. Está lento, foi a resposta. Agora não adianta mais para mim, comentei. Afinal as duas horas sem urinar haviam se reduzido para dois minutos. Uma segunda atendente pergunta se eu havia comido algo, o que inviabilizaria muitos exames de sangue. Senti vontade de responder que sim, havia me dirigido ao banheiro para o café da manhã, mas apenas respondi que o exame era de urina. Saí e resolvi ir para a unidade de Santo André. Antes passei pelo trabalho, pois deveria fazer a coleta após as 9:45.

E lá vamos nós, com a ajuda do Waze. Chego ao Hospital Brasil às 9:30. Deixo o carro com os manobristas e me dirijo ao laboratório. Prédio anexo ao hospital, novo ou recém reformado. Entro, pego a senha preferencial e olho em volta. Umas setenta cadeiras na sala de espera, ocupadas; muitas pessoas em pé. Preferenciais não faltavam, distribuídos entre idosos, recém-nascidos e futuras mães. Nas condições da sala de espera, preferenciais ou não, o tempo de espera seria longo. Levanto a cabeça e leio: Sistema com lentidão. Retornei ao estacionamento e paguei R$15,00 por 15 minutos.

Ainda havia uma esperança em Santo André, na avenida D. Pedro II. Lá fui eu, orientado pelo Waze. É do mesmo grupo e o sistema talvez seja o mesmo. Desisti. Retornei ao trabalho em São Caetano.

E eu só queria encher o copinho!

Dia seguinte volto cedo ao primeiro posto. Estaciono, saio e pergunto ao manobrista se o sistema está operacional. Estava. Ficha, recebimento do recipiente, coleta e devolução; quinze minutos. Enchi o copinho! E não será a última vez.

 

Saúde e alegria a todos

O que é bom para …3

O que é bom para um cidadão é bom para o país ou o que é bom para um país é bom para os seus cidadãos?  A discussão foi iniciada na publicação O que é bom para …1, de 28.2.16

A resposta a esta frase é, a meu ver, fundamental para países e seus cidadãos. A partir da resposta, simples, porque as duas alternativas possíveis são auto excludentes, pode-se identificar o relacionamento vigente em qualquer comunidade, de pequeno, médio ou grande porte.

Povos oprimidos, acovardados, desprezados e desrespeitados em seus direitos são a fonte de vida para o despotismo centralizado. Povos submetidos a tais condições são individualistas. Povos individualistas representam a fonte de vida do despotismo difuso. O despotismo difuso é filho do centralizado e não vive sem ele.

E chegamos ao Brasil. O que é bom para cada brasileiro é bom para o Brasil?

O Brasil é despótico desde a proclamação da República. Antes da República havia um Imperador, um possível déspota legalizado. Antes do Império, havia o colonizador, despótico por necessidade. Depois da proclamação alternamos períodos de despotismo centralizado explícito, ou não democrático, com períodos de despotismo centralizado latente ou semidemocrático, com o despotismo difuso sempre presente. O brasileiro é individualista no que tange aos seus interesses, em grande parte por ter sido treinado para se safar das armadilhas dos vários chefões, chefinhos e chefõezinhos ao longo dos vários períodos de democracia incipiente e ditadura pelos quais o país se arrasta desde 1822, ou 1500 se quisermos ir mais longe.

No Brasil isto pode ser confirmado pelo número de constituições federais produzidas a partir da independência: 1. Constituição Luso-Brasileira de 1822; Constituições brasileiras de: 2. 1824, 3. 1891, 4. 1934; 5. 1937, 6. 1946, 7. 1967; 8. 1969; (1). Oito constituições diferentes, seis no período da República para se chegar à nona versão de 252 páginas e 250 artigos, mais 99 disposições transitórias, chamada de Constituição Cidadã de 1988 (2). Não sou advogado e jamais serei, mas penso que uma constituição deve definir as linhas gerais, os conceitos que regulam o funcionamento da sociedade. O detalhamento deve ficar por conta de leis. Na minha opinião de leigo, o número de artigos e o seu nível de detalhes dificulta a condução e o respeito à constituição. Mais um produto do despotismo difuso que comanda e confunde o Brasil desde sempre. Boa parte dos artigos aguarda regulamentação até hoje e os regulamentados já geraram um número imenso de leis, decretos, leis que alteram leis que alteram leis já alteradas por leis etc.

Para não ficar atrás, a Constituição do Estado de São Paulo tem 297 artigos, mais 62 correspondentes às disposições transitórias (2).

Não são constituições, são tentativas de colocar a vida de cada um sob o pleno controle do Estado, como se isso fosse possível. Tentativas frustradas que mantêm o estado como um paquiderme sedado pela quantidade crescente de bobagens burocráticas produzidas pelos chefinhos, sob inspiração, incentivo e apoio dos chefões..

Como um exemplo do ridículo constitucional tem-se uma das disposições constitucionais transitórias do Estado de S. Paulo, 1989 (2): Art.46. No prazo de três anos, a contar da promulgação desta constituição, ficam os Poderes Públicos Estadual e Municipal obrigados a tomar medidas eficazes para impedir o bombeamento de águas servidas, dejetos e outras substâncias poluentes para a Represa Billings. Parágrafo único. Qualquer que seja a solução a ser adotada, fica o Estado obrigado a consultar permanentemente os Poderes Públicos dos Municípios afetados.

A solução adotada foi simples, não mais se bombeia água do Rio Tiete para a Billings via Rio Pinheiros, pois está na constituição do estado; solução obtida em segundos. Bastou informar aos operadores das Estações Elevatórias de Traição e Pedreira que elas não mais deveriam operar bombeando ou cortar a energia para os motores das bombas. O que mudou? Nada, a poluição nos dois rios permanece até hoje.

Como exemplo de despotismo difuso, algo vivido por mim.

Sem entrar em detalhes, em uma das renovações de carteira de habilitação, fui informado que não poderia fazê-lo porque estava com a permissão de dirigir suspensa por quatro meses devido a multas recebidas há mais de cinco anos. Tais pontos não haviam sido computados porque recebidos muito próximo da renovação anterior.  Durante cinco anos nada me foi comunicado. Os pontos estavam corretos, mas o desempenho do Detran foi apenas desonesto. Entrei com recurso contra a ação desonesta de ocultar a informação e na semana seguinte fui ao Ciretran de São Bernardo do Campo. Ao tentar protocolar o pedido de renovação da carteira a atendente me informou não poder receber o pedido devido à suspensão que eu havia recebido. Mostrei o recurso, ainda não julgado. Ela não entendeu. Mostrei no Código Nacional de Trânsito, que havia baixado da Internet e tinha comigo, o artigo que repete a Constituição Brasileira e afirma que não se pode penalizar alguém se há recurso em trâmite acerca da penalidade. Ela pediu-me para aguardar e saiu. Voltou e solicitou que eu fosse conversar com o chefe do plantão, ou algo semelhante. Ele me informou que eu estava com a razão, porém não poderia liberar no sistema a renovação desejada, pois seria penalizado por desrespeitar uma norma do Detran de SP. Perguntei se normas de Detran se sobrepõem à Constituição Federal. Ele disse que não e pediu que eu aguardasse. Voltou e me propôs acompanhá-lo para conversar com o delegado diretor do Ciretran de SBC. A conversa se repetiu e o delegado afirmou que eu estava com a razão, porém a única maneira de eu conseguir fazer a renovação seria entrar com um mandado de segurança. Não entrei com o mandado; o recurso reduziu a minha pena de quatro para dois meses. Durante o período de penalização fiz o exame de reciclagem e não sentei ao volante por um instante sequer. A Alice é que sofreu, tendo de me levar para a USP às quartas, saindo de casa ás 6:00 da manhã. Por sorte eu conseguia carona na volta e ela só precisava me buscar na estação Jabaquara do metrô.

 Em terra desorganizada e despótica, cada um luta por si e todos são enganados por poucos, os poucos que se acomodam no poder. E estes poucos precisam do despotismo difuso para impedir a organização dos cidadãos, únicos com condições de mudar o país.

 (1) https://pt.wikipedia.org/wiki/Hist%C3%B3ria_da_Constitui%C3%A7%C3%A3o_do_Brasil

(2) http://www.imprensaoficial.com.br/PortalIO/download/pdf/Constituicoes_declaracao.pdf

 

Saúde e alegria a todos