Diálogos 21 (o último?)

Em Mudanças, de 27.12.15, apresentei as razões que me levaram aos Diálogos. Em Diálogos 1 – preâmbulo, de 10.1.16, iniciei a publicação dos diálogos escritos a partir de 29/3/82.

 

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 P2. CLAP, CLAP, CLAP, CLAP.

P1. Agradeço aos aplausos e considero a palestra encerrada. Boa noite!

 

P2. Por que noite? A palestra poderia ser realizada à tarde ou pela manhã!

P1. Minhas palestras para comunidades são realizadas sempre à noite.

P2. Ah! Se tomarmos a classificação acima aos acontecimentos no pós-guerra a coisa fica feia para os políticos em geral. O buraco para onde a economia mundial foi levada por eles e as soluções propostas e tentadas são uma triste prova de termos sido conduzidos por chefetes e gritões.

P1. Estamos em 1984, você já pensou sobre o futuro? Como as coisas se desenvolverão? O que existirá em alguns anos à frente? Como viverão as pessoas, quais serão as condições de vida, qual o relacionamento entre elas, qual a situação da sociedade? Você já pensou se o sistema consumista em que vivemos leva a a algum futuro, se é um modelo para muitos anos mais?

P2. Já. Mas continue.

P1. Quais as perspectivas futuras para um país como o Brasil ou para os países africanos mais desenvolvidos ou para a China, que começa a copiar os mais desenvolvidos? Como brasileiro analiso o nosso caso. Esquecido o passado, já que não adianta chorar o tempo perdido, a situação atual poderia ser considerada pouco aceitável. Acrescido o fato de o país estar endividado até o limite, parece-me interessante aproveitar o momento e tentar transportar o país do final do século 19 para o final do século 20, onde cronologicamente já estamos. A forma de implantar mudanças, porém, deve ser progressiva como se pretendeu implantar a democracia, porém com sensibilidade e capacidade de análise dos seus efeitos. Exatamente o contrário do que está sendo feito com a democracia.

P2. Para tanto, precisaríamos de um líder no comando, ou pelo menos de um bom chefe. Alguém com capacidade, sensibilidade e coragem, mas com ambições apenas históricas, satisfeito apenas com o oferecido pelo cargo.

P1. Tal estadista deveria escolher uma equipe de assessores que queiram e possam apenas ser, e deixá-los ser. Cada um dos assessores deve ter afinidade com a área de ação ou então capacidade suficiente para familiarizar-se com a sua área de atuação. Paralelamente deve-se permitir ao povo participar das decisões a serem tomadas, na medida em que se use adequadamente os meios de comunicação para mantê-lo devidamente informado e esclarecido. Sendo cada assessor responsável pela sua e apenas a sua área e existindo um plano de governo, que deve ter levado o estadista à sua posição por meio de eleições, a probabilidade de se obter resultados aceitáveis é boa.

P2. Como faremos para iniciar o processo em meio da confusão absoluta de leis, decretos, decretos-lei e tudo o mais?

 

E a reta final da tese de doutorado calou os dois debatedores.

Durante o período entre meados do ano de 1984 e o final de junho de 1985, tudo o que fiz foi finalizar cálculos, redigir e revisar o escrito em alemão e, com a ajuda de Roberto Campanelli, que fez a maioria dos desenhos e de Werner Braitsch, que fez a adequação final do redigido para a língua alemã, depositei a tese ao início de julho de 1985. Em tempo para saber que a apresentação somente poderia acontecer ao início de 1986.

Voltamos para o Brasil ao final de julho de 1985. Iniciei as aulas em agosto. Voltei para Munique ao final de janeiro e apresentei o trabalho na primeira semana de fevereiro de 1986. Retornei ao Brasil ao final de fevereiro e não mais tive a oportunidade de dialogar com P1 e P2.

 

Hoje, 5.3.2019, setenta e um ano completos, aposentado quatro dias por semana, talvez volte a dialogar com P1 e P2, ambos em condições idênticas às minhas. Preocupa-me apenas o fato de eles, como eu, estarem mais críticos e radicais do que éramos há cerca de 35 anos. Conseguirei suportar-nos?

 

Continua ?

 

Nota: Em algumas frases são referenciadas situações políticas, trajes, comportamentos e posturas típicas da época em que os diálogos foram escritos, primeira metade da década de 1980. Algumas delas tornaram-se moda, como barba mal aparada, uso de óculos Ray-Ban, governantes incompetentes. Outras, como bons modismos, desapareceram com o passar do tempo ou passaram a ser aceitos devido às mudanças de costumes.

 

Saúde e alegria a todos

Diálogos 20

Em Mudanças, de 27.12.15, apresentei as razões que me levaram aos Diálogos. Em Diálogos 1 – preâmbulo, de 10.1.16, iniciei a publicação dos diálogos escritos a partir de 29/3/82.

 

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  … A AIA, Associação do Incapazes Anônimos, tem a honra de poder trazer-lhes a aplaudida palestra “Classificação da liderança política mundial”, proferida pelo renomado pensador e filósofo P1.

P1. Agradeço encarecidamente a calorosa recepção a mim oferecida e, inebriado pela honra do prestigioso convite e sem mais delongas, inicio:

  1. Homens de estado – aqueles que conseguem agir ao se antecipar aos acontecimentos e, assim influenciá-los, parcial ou completamente, antes da sua ocorrência;
  2. Políticos de nível – aqueles que conseguem reagir aos acontecimentos em tempo de atuar sobre suas consequências;
  3. Políticos – aqueles que reagem às consequências dos acontecimentos a tempo de tentar explica-los;
  4. Políticos normais – aqueles que reagem a fatos gerados pelas consequências dos acontecimentos com as palavras: Tenho plena confiança na capacidade de sacrifício de nosso povo;
  5. Políticos normais metidos a militares – aqueles que reagem a tudo com demonstrações de pretensa força objetivando encobrir as próprias fraqueza e incompetência;
  6. Militares metidos a líderes populares”.

P2. Faltou explicar o item 1. Militares metidos a líder popular.

P1. Impossível. Nem eles mesmos conseguem se explicar.

P2. Obrigado.

P1. Alguém mais na plateia teria perguntas?

P2. Alguém mais quem? Eu sou o único aqui.

P1. De forma alguma. Eu jamais apresentaria uma palestra para apenas um participante. Vou mais longe. Ninguém jamais me convidaria para uma exposição a apenas uma pessoa.

P2. Você mesmo se convidou e se apresentou!

P1. Detalhes insignificantes e além disso o tema da palestra é outro. Perguntas?

P2. Sim. Seria possível enunciar alguns exemplos?

P1. Sem dúvida! Nos itens 1. Homens de estado, 2. Políticos de nível e 3. Políticos, não existem exemplos vivos hoje (1984). Nos demais itens, hoje temos: 4. Políticos normais – Helmuth Kohl (Alemanha Ocidental), François Mitterand (França); 5. Políticos normais metidos a militares –  Ronald Reagan, (EUA), Margareth Tatcher (Reino Unido); 6. Militares metidos a líderes populares – a triste maioria. Mais perguntas?

P2. Eu estou só aqui, mas deixa para lá. Tal classificação restringe-se a chefes de estado ou de governo?

P1. Jamais! Não devemos nos esquecer que todo político ou dirigente de qualquer coisa, por mais insignificante, considera-se um líder. A classificação é válida para todo e qualquer líder.

P2. Então seria mais interessante generalizar a classificação. Se o prezado palestrante me permite, sugeriria as seguintes mudanças:

  1. Homens de estado Líderes – aqueles que consegue reagir antecipar-se aos acontecimentos e, assim influenciá-los, parcial ou completamente, antes da sua ocorrência;
  2. Políticos de nível Chefes – aqueles que conseguem reagir aos acontecimentos em tempo de atuar sobre suas consequências;
  3. Políticos Subchefes – aqueles que reagem às consequências dos acontecimentos a tempo de tentar explica-los;
  4. Políticos normais Chefetes – aqueles que reagem a fatos gerados pelas consequências dos acontecimentos com as palavras: Tenho plena confiança na capacidade de sacrifício de nosso povo;
  5. Políticos normais metidos a militares Gritões – aqueles que reagem a tudo com demonstrações de pretensa força objetivando encobrir as próprias fraqueza e incompetência;
  6. Militares metidos a líderes populares Ridículos.

Mais uma pergunta: Significa essa classificação a colocação de todos os militares na categoria 6.?

P1. Concordo com as sugestões, agradeço-as e adoto-as. Quanto à pergunta, NÃO. Algum dia, certamente, aparecerá novamente, em algum lugar da Terra, um militar também homem de estado, digo líder, ou chefe ou subchefe …

P2. CLAP, CLAP, CLAP, CLAP.

P1. Agradeço aos aplausos e considero a palestra encerrada. Boa noite!

continua

Nota: Em algumas frases são referenciadas situações políticas, trajes, comportamentos e posturas típicas da época em que os diálogos foram escritos, primeira metade da década de 1980. Algumas delas tornaram-se moda, como barba mal aparada, uso de óculos Ray-Ban, governantes incompetentes. Outras, como bons modismos, desapareceram com o passar do tempo ou passaram a ser aceitos devido às mudanças de costumes.

 

Saúde e alegria a todos

Diálogos 19

Em Mudanças, de 27.12.15, apresentei as razões que me levaram aos Diálogos. Em Diálogos 1 – preâmbulo, de 10.1.16, iniciei a publicação dos diálogos escritos a partir de 29/3/82.

 

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 P1. … Os ministros do Interior e da Justiça queriam ser presidente da República. Os demais são apenas figurantes. Nesse meio composto por homens que não são, mas gostariam de ser, ou que são o que não queriam ser, as consequências são claras e ruins.

O do Planejamento queria ir e foi. O da Agricultura trocou de posto e para a Agricultura foi um que não deveria ir. O da Fazenda não conseguiu o que queria e, querendo ir, foi. Para a Fazenda foi outro que não deveria ter ido. O da Previdência Social financiou a sua eleição com dinheiro público e tornou-se o que queria ser. O da Agricultura, Fazenda e Planejamento desistiu de ser governador e dedicou-se a afundar o país. O da Justiça tentou mostrar saúde e acabou enterrado. O novo da Justiça, cotado para dar peso ao PDS em Minas Gerais, mostrou total incapacidade, sequer conseguindo notar concentrações de centenas de milhares de pessoas.

O ministro do Interior luta para ser presidente, assim como o das Minas e Energia luta para esconder as orelhas e o da Indústria e Comércio luta para ser notado.

Enfim, como ninguém queria o que recebeu, o Brasil recebeu o que não queria.

P2. Eu não queria cortar a sua exposição, mas o nome do presidente é João Figueiredo, porque João sem cara?

P1. Parece-me inadequado dizer que alguém não tem vergonha na cara. Tal julgamento é muito relativo. O que é justo para mim pode não ser para outros. Assim, se alguém não tem cara, falta como atestar a existência de alguma coisa nela.

P2. Li algum dia em uma Isto É, que o presidente considera ato de homem de estado manter o mesmo ministério. Neste momento lembrei-me de outro general homem de estado, o general Médici, pai do milagre brasileiro, ou tio afastado dele. Ele sempre respondia a perguntas sobre mudanças de ministério com a máxima futebolística: “Time que ganha não se muda”. O João não muda o time apesar da absoluta falta de vitórias. O que significa jamais mudar o time, independentemente dos resultados.

P1. Aí está a solução para os times de futebol semifalidos. Para que pagar reservas? Para que ter reservas?

P2. Para casos de contusão. Veja os exemplos Simonsen, Richibiter, Portela e outros. Além disso os reservas também precisam viver.

P1. Reservas para cá, titulares para lá, tudo muda e nada se altera. Se até há pouco o Brasil parecia perdido como cego em tiroteio, hoje as coisas se complicaram tanto que o Brasil parece estar perdido em um tiroteio de cegos.

P2. Não só o Brasil, o mundo está assim. Não existe liderança em lugar algum, todos reagem como carneiros ao ouvir uivos de lobos; disparam em qualquer direção e todos juntos. Isso acontece com todos, seja com os comandados pelas múmias ocidentais ou com os comandados pelas múmias moscovitas.

P1. Por pura falta de líderes e lideranças. Agora identificaremos e classificaremos os vários tipos de líderes políticos.

Prezados leitoras e leitores, senhoras e senhores, damas e cavalheiros, moçoilas e mancebos; respeitável público. A AIA, Associação do Incapazes Anônimos, tem a honra de poder trazer-lhes a aplaudida palestra sob título “Classificação da liderança política mundial”, proferida pelo renomado pensador e filósofo P1.

 

continua

 

Nota: Em algumas frases são referenciadas situações políticas, trajes, comportamentos e posturas típicas da época em que os diálogos foram escritos, primeira metade da década de 1980. Algumas delas tornaram-se moda, como barba mal aparada, uso de óculos Ray-Ban, governantes incompetentes. Outras, como bons modismos, desapareceram com o passar do tempo ou passaram a ser aceitos devido às mudanças de costumes.

 

Saúde e alegria a todos

Diálogos 18

Em Mudanças, de 27.12.15, apresentei as razões que me levaram aos Diálogos. Em Diálogos 1 – preâmbulo, de 10.1.16, iniciei a publicação dos diálogos escritos a partir de 29/3/82.

 

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… Passaram-se exatos 21 meses.

 P1. Voltando ao problema da ignorância e da incapacidade. Se a incapacidade do rei é provada apenas após a coroação, deve-se, pelo menos, tentar expô-la. Esse negócio de se ficar aceitando fatos consumados só acarreta catástrofes maiores. Pode-se arriscar o pescoço tentando brigar com o rei e seus lacaios, mas é a única forma se tentar mudar alguma coisa. O único fato consumado é a morte, e mesmo assim não absolutamente consumado, pois sempre existe uma segunda chance.

P2. É o caso do que escreve. Passou boa parte da vida protestando para si e para os próximos sem jamais levantar a voz a um tom audível. Como quem pensa, mas não fala, não pensa e da mesma forma, quem não aceita mas cala é a favor, só se conclui ter ele sido sempre a favor, apesar de jamais ter concordado.

Mas assim, vamos voltar a assunto já discutido há algum tempo: justifica brigar com moinhos de vento para defender a pureza do poluído?

P1. Não. Mas justifica lutar para o poluído ser tornado mais limpo. Caso contrário não se poderá lamentar jamais. Não basta ser um bom cidadão, ciente de suas obrigações, honesto, votante assíduo, enquanto o mundo desaba em volta. Sem dúvida é confortável, enquanto o mundo não desabar. E então?

P2. Uma bela pregação, mas onde isso acontece? E, quando enfim acontece, resolve alguma coisa?

Eu mesmo respondo. Jamais aconteceu, assim não se sabe se resolve.

P1. Isto significa, então, estar na hora de acontecer. O Brasil chegou perto, apesar da enorme distância, mas os tais coordenadores e incentivadores da campanha “diretas já” não foram honestos o suficiente. Faltou-lhes (parece=me à distância) esclarecer aos manifestantes que tanto eleições diretas para presidente, como também o novo presidente, seja quem fosse, iriam mudar muito pouco. É triste ler uma entrevista de morador de São Miguel Paulista dizendo que depois da eleição direta viria a felicidade. Não virá, pois as eleições serão indiretas e não viria se as eleições fossem diretas. A situação brasileira só poderá ser alterada muitos anos depois do início da implantação de mudanças profundas.

P2. Cuidado, ó meu, reformas profundas soam sempre como comunizantes. Na verdade, há muito pouco a reformar; há muito a formar. É impossível refazer o que não existe. Na verdade, falta alguém decente o suficiente para repetir a promessa de Winston Churchill aos ingleses em seu discurso de posse como primeiro ministro ao início da segunda guerra mundial: “Nada tenho a oferecer senão sangue, trabalho, lágrimas e suor”.

P1. Permanecendo no exemplo brasileiro. Talvez se houvesse um governo federal e governos estaduais, com ministros e secretários etc., as coisas até corressem melhor. O governo do João sem cara; vivia escondido atrás de óculos escuros; começou muito mal. O presidente não queria ser presidente e a partir do dia da posse começou a contar os dias faltantes para o final de mandato. Os ministros, porém, queriam e muito. O ministro da Agricultura queria ser governador de São Paulo, o da Previdência Social queria ser governador do Rio Grande do Sul, o ministro da Indústria e Comércio queria ser ministro da Fazenda, o da Fazenda queria (parece) ser decente, o de Planejamento queria cair fora. O ministro da Minas queria apenas ser ministro e, tendo conseguido, descansou (admitindo-se ser ele capaz). Os ministros do Interior e da Justiça queriam ser presidente da República. Os demais são apenas figurantes.

Nesse meio composto por homens que não são, mas gostariam de ser, ou que são o que não queriam ser, as consequências são claras e ruins.

 

continua

 

Nota: Em algumas frases são referenciadas situações políticas, trajes, comportamentos e posturas típicas da época em que os diálogos foram escritos, primeira metade da década de 1980. Algumas delas tornaram-se moda, como barba mal aparada, uso de óculos Ray-Ban, governantes incompetentes. Outras, como bons modismos, desapareceram com o passar do tempo ou passaram a ser aceitos devido às mudanças de costumes.

 

Saúde e alegria a todos

Diálogos 17

Em Mudanças, de 27.12.15, apresentei as razões que me levaram aos Diálogos. Em Diálogos 1 – preâmbulo, de 10.1.16, iniciei a publicação dos diálogos escritos a partir de 29/3/82.

 

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A publicação de Diálogos 16 aconteceu no dia 21.8.16. Diálogos 17 está sendo publicada em março de 2019, três anos depois. E, nesta mesma data serão publicados os Diálogos 18, 19, 20 e 21, com isso encerrando a série escrita entre 1982 e 1984. Aos poucos leitores, minhas desculpas pelo longo intervalo.

 

 P2. Foi só um exemplo. Infeliz, mas um exemplo.

P1. Passa.

P3. Por mim também.

P2. Desculpem, desculpem. Desculpem.

P1. Qual a sua opinião sobre as conversas com o Raabe?

P2. E a sua? A minha é a seguinte: A mulher do que escreve á sabia!

P1. Concordo. O comentário dela de que “ele terá o fim de semana para pensar q em alguma coisa”. Foi preciso e infalível.

P2. Mesmo na terça ele não saiu convencido.

P1. Apenas deixou barato.

P2. Você percebeu que o definido ao início dos diálogos não tem sido cumprido? Estamos escolhendo temas ao invés de deixá-los vir ao sabor das ondas.

P1. É verdade, mas você já experimentou ondas para conhecer-lhes o sabor?

P2. Como assim? Onda não se come ou bebe. Pelo menos nesse caso. Larga de bobagem, até parece que falta assunto!

P1. Tanto falta que demorou um tempão para voltarmos a papear. Parece que o que escreve anda pouco criativo.

P2. É a fase. Ele agora resolveu trabalhar sério e só consegue pensar no trabalho. A época das frustrações e do tempo livre para deixar a imaginação solta acabou. Ou pelo menos entrou em recesso. Ele esqueceu do Raabe, isto é, só se dedica a massacrá-lo com panfletos, decalques, charges e coisas parecidas.

P1. Ele vive agora o período de artista gráfico esporádico.

P2. E é bom que dê duro mesmo, assim a gente cai fora logo desta terra e deste instituto.

P1. Antes que o instituto desapareça e nos leve junto.

P2. Você viu a filosofia do que escreve hoje à tarde? Aquela “Die Idioten sind nie schuldig” (os idiotas jamais serão culpados) foi muito boa. A ideia é perfeita. Quem desconhece jamais poderá ser considerado culpado do que quer que seja.

P1. Pode-se dizer que a ignorância absolve. Mas mesmo assim é perigoso. Fica-se sempre ante a escolha ou a alternativa entre o que é ignorância, desconhecimento ou o que é desleixo, desinteresse. Por outro lado, pode-se tentar encaixar no termo ignorância a incapacidade ou a incompetência, o que levaria à impunidade absoluta. O que não ignora, mas é incompetente, também estaria absolvido.

P2. Mas o incompetente consciente jamais será um ignorante. Ele será desonesto, trapaceiro ou coisa que o valha, mas jamais ignorante ou idiota. Mesmo assim fica difícil tornar concretos tais adjetivos um tanto abstratos. Sob quais condições pode-se definir ou taxar alguém de ignorante, idiota, incompetente etc. Há necessidade de uma convivência longa e próxima com a pessoa para poder ser concluído algo a respeito. E quando o material coletado se revela suficiente para a classificação, a pessoa deixou o círculo ou atingiu uma posição tal que não mais é possível a classificação alcançá-la.

P1. Isto é, quando é provada a incapacidade do rei, ele já está coroado. Ou enterrado. Trágico, mas real. E o que fazer? Tentar conspirar contra o rei ou deixa-lo em paz no túmulo? Mostrar aos seus vassalos as provas obtidas? Difícil de se decidir, mesmo sabendo que poucos acreditarão em um possível futuro aristocrata ou mesmo possível futuro rei.

P2. Solução existe. Ridicularizar o rei, na sua ausência, e ir levando. De vez em quando umas alfinetadas no lombo do rei e mais não é possível.

… Passaram-se exatos 21 meses.

continua

 

Nota: Em algumas frases são referenciadas situações políticas, trajes, comportamentos e posturas típicas da época em que os diálogos foram escritos, primeira metade da década de 1980. Algumas delas tornaram-se moda, como barba mal aparada, uso de óculos Ray-Ban, governantes incompetentes. Outras, como bons modismos, desapareceram com o passar do tempo ou passaram a ser aceitos devido às mudanças de costumes.

 

Saúde e alegria a todos

Santayana

Aqueles que se esquecem do passado estão condenados a revivê-lo.  George Santayana (1879 – 1955) 

Por ter vivido em Munique e pela sábia recusa da Alice em acompanhar ao campo de concentração de Dachau os que nos visitavam e desejavam visitá-lo, estive lá umas sete ou oito vezes. Dachau é uma cidade pequena, fundada no século X, próxima de Munique e a cerca de 20 quilômetros de onde morávamos. A cidade ficou conhecida por ter em sua área o primeiro campo de concentração da Alemanha nazista, colocado em operação poucas semanas após o nazismo chegar ao poder. Após a segunda guerra mundial, o campo de concentração foi transformado em campo de refugiados e a partir da década de 1960 foi ali erigido um Memorial, aberto à visitação pública. Ao iniciar o circuito de visitação entra-se no antigo alojamento dos oficiais, um salão amplo e de pé direito elevado. Na parede oposta lê-se a frase de Santayana, imensa, gravada no alto da parede e ocupando toda a sua largura. Depois de lê-la pela primeira vez, jamais a esqueci. Estou convencido que os alemães pensantes, a absoluta maioria, jamais a esquecerão também, para todo o sempre.

Causas e Consequências 3 – certificados

Continuação do tema causas e consequências 2, publicado em 5.4.15. Na primeira publicação com esse título, justifiquei-o. Irei dele trazer apenas a caracterização de causa e de consequência lá apresentadas.

Conforme o dicionário Houaiss, causa é o que faz com que algo exista ou aconteça; é origem, motivo, razão. Consequência é algo produzido por uma causa ou freq. sequente a um conjunto de condições; é efeito, resultado. Combater ou pedir que consequências sejam combativas é perpetuar as causas e não minimizar os problemas, isto é, as consequências.

Certificados. Talvez o melhor exemplo da confusão entre causas e consequências que acontece no Brasil. Confusão esta que eu, cada vez mais, duvido ser por desconhecimento e sim por conveniência.

Um certificado certifica, apenas. Um certificado de conclusão de curso em nome de alguém atesta que este alguém concluiu aquele curso. O certificado não atesta competência ou incompetência, conhecimento ou desconhecimento, maturidade ou imaturidade, adequação ou inadequação. Certificados não afirmam se o seu detentor escolheu o curso por vontade própria ou por vontade de outrem. Ele não certifica se o seu detentor desejou abandonar o curso antes de concluí-lo e não o fez por auto convencimento ou imposição de terceiros. Ele não afirma que o curso foi bem ou mal cursado, que o seu detentor se esforçou para aprender ou se esforçou para não aprender. Ele não atesta se o seu detentor compareceu ou não às aulas, se concentrou-se ou não naquilo que lhe foi apresentado, se buscou aprender o máximo ou o suficiente ou até um pouco menos que isso, para obter o dito certificado. Ele não atesta se o seu detentor quer e se sente bem ao exercer as atividades associadas ao curso. Ele não promete e não garante ser o seu detentor um profissional de futuro ou sem futuro, o que é impossível. Certificados são dispositivos legais e nada mais do que isso. Certificados são consequência obrigatória e inevitável de um curso cursado.

Certificados certificam que foram cumpridos todos os pré-requisitos legais exigidos para a sua emissão.

Certificado de “boa escola”. Se o certificado for de uma boa escola, então há mais garantia. De que?

Mas cada vez mais o único objetivo é o certificado. As pessoas se arrastam durante um longo período escolar, quatro ou cinco anos, externando má vontade e desinteresse, à espera do tal certificado.

A associação do certificado emitido com a “boa escola” abre portas, mas não as fecha quando o certificado a atravessa, para mantê-lo no interior do ambiente adentrado. A porta permanece aberta. A permanência do certificado no interior do ambiente será viabilizada pelo conhecimento associado ao certificado emitido em nome dele. Competência e conhecimento mantêm o certificado no interior do ambiente, ou o expulsam dele rapidamente. Pouco interessa a origem do certificado, interessa, ou deveria interessar a sua condição de realizar atividades de alto nível.

Há exceções com relação à manutenção do certificado no ambiente, encontradas em grande número em países desorganizados, como o Brasil e muitos outros e em número menor em países organizados, como alguns poucos existentes pelo mundo afora. Estas exceções são devidas à própria falibilidade de qualquer processo seletivo, manipulável, influenciável, corrompível etc. Ou o que justificaria o número imenso de “cargos de confiança” ou “em comissão” criados pelos políticos brasileiros e ocupados, óbvio, por pessoas de confiança deles e de seus apoiadores? (1) (2)

Com humildade, vontade, treinamento e orientação dos superiores competentes, aqueles que galgaram postos de forma imerecida poderiam se qualificar para as atividades para as quais não são aptos. A falta de treinamento e orientação, mais comum em sociedades desorganizadas, cria aberrações que, ao serem instaladas acima do nível devido começam a extrapolar nas suas atribuições e passam a se comportar como grandes comandantes, apoiados no conhecimento que não têm e em um misto de arrogância e temor ou de arrogância auto imposta pelo temor de terem reconhecida a sua inadequação. Com isso afastam os eventuais competentes não subservientes e prejudicam a empresa onde atuam.

Ocorreu-me agora a dúvida: Subservientes são competentes, ou a subserviência é uma forma de incompetência?

Relido o texto anterior, percebo ter iniciado a terceira parte da trilogia dentro do tema e, ao final, ter derivado um pouco do tema central. Estive em dúvida se deveria manter ou tirar os três últimos parágrafos. Resolvi deixá-los porque a inadequação profissional, a meu ver uma expressão melhor do que incompetência, é consequência da inadequação na formação profissional. A causa dessa inadequação na escolha da formação deve ser combatida para que se reduza o número dos que mais atrapalham do que ajudam.

Saúde e alegria a todos